Cangaço Rock

Aeternum Mausoleum – Ecos do Panteão (2026)

Uma ode ao Black/Death Metal helênico forjada nas profundezas do underground brasileiro.

O underground brasileiro segue demonstrando uma vitalidade impressionante quando o assunto é Metal Extremo, e um dos exemplos mais interessantes surgidos recentemente atende pelo nome de Aeternum Mausoleum. Com o lançamento de Ecos do Panteão, seu álbum de estreia, a banda apresenta uma obra profundamente conectada às tradições do Black/Death Metal de matriz helênica, ao mesmo tempo em que imprime personalidade própria através de uma abordagem épica, obscura e carregada de referências mitológicas. Lançado em 2 de maio de 2026 pela Brazilian Ritual Records, o trabalho surge como uma verdadeira celebração dos sons ancestrais que ajudaram a moldar uma das vertentes mais cultuadas do Metal extremo mundial.

A formação do grupo é relativamente enxuta, mas extremamente eficiente. O núcleo criativo gira em torno de Fernando Iser, responsável pelos vocais, baixo, teclados e guitarra, acompanhado por guitarrista Douglas Brito e Felipe Brito. A química entre ambos é perceptível ao longo de toda a obra, construindo um som que prioriza atmosferas densas, melodias sombrias e uma agressividade controlada, muito distante do caos desordenado encontrado em diversas bandas contemporâneas. O resultado é um álbum que dialoga diretamente com nomes históricos da cena grega, especialmente referências como Rotting Christ, Varathron e Necromantia, sem jamais soar como mera cópia.

Desde os primeiros segundos de “Érebos”, faixa de abertura, percebe-se a proposta do grupo. O instrumental é construído sobre riffs carregados de melancolia e imponência, criando uma atmosfera ritualística que funciona como um portal para o universo conceitual do álbum. As guitarras trabalham harmonias de forte inspiração mediterrânea, enquanto os vocais surgem graves e ameaçadores, reforçando a sensação de antiguidade e mistério. A faixa estabelece imediatamente a identidade sonora do disco.

Na sequência surge “Suprema Nereide Atlântica”, uma das composições mais elaboradas do trabalho. Aqui a banda explora uma construção mais épica, utilizando melodias memoráveis e uma dinâmica que alterna passagens mais contemplativas com momentos de maior intensidade. O trabalho das guitarras merece destaque especial, apresentando linhas melódicas extremamente inspiradas, capazes de permanecer na memória mesmo após o término da audição. A temática mitológica encaixa-se perfeitamente à musicalidade, ampliando a sensação de grandiosidade proposta pela composição.

“Noctara” mergulha em territórios mais obscuros e agressivos. O andamento assume uma postura mais direta, aproximando-se do Death Metal sem abandonar os elementos característicos do Black Metal tradicional. A seção rítmica demonstra segurança e firmeza, sustentando riffs densos que evocam imagens de templos esquecidos e divindades ancestrais. É uma faixa que evidencia a capacidade da banda em equilibrar brutalidade e atmosfera.

“Ode Helênica” talvez seja a composição que melhor sintetiza a proposta estética do álbum. Seu título já denuncia a reverência à tradição grega que permeia toda a obra. As melodias assumem papel central, enquanto os arranjos apresentam uma elegância rara dentro do Metal extremo contemporâneo. Há um forte senso de narrativa musical, como se cada riff representasse um capítulo de uma antiga epopeia.

“Olhos de Serpente”, originalmente composta pela lendária Thulsa Doom, recebe uma releitura respeitosa e extremamente competente. A escolha da faixa não é aleatória: funciona como uma declaração explícita das influências que ajudaram a moldar a identidade do Aeternum Mausoleum. Em vez de simplesmente reproduzir o material original, a banda incorpora sua própria interpretação, adequando a música ao contexto sonoro de Ecos do Panteão.

“Rei das Sombras” surge como um dos momentos mais pesados do álbum. Os riffs assumem uma postura mais ameaçadora, enquanto os vocais atingem alguns de seus momentos mais intensos. A atmosfera aqui torna-se quase sufocante, demonstrando a habilidade do grupo em construir tensão sem recorrer a excessos técnicos ou experimentalismos desnecessários.

“Prometheus Anthropos” representa um dos pontos altos da obra. Inspirada em uma das figuras mais fascinantes da mitologia grega, a faixa apresenta uma combinação particularmente eficaz de melodia, peso e dramaticidade. O trabalho de composição revela maturidade incomum para um álbum de estreia, mostrando uma banda plenamente consciente da identidade que deseja construir.

O encerramento acontece através de “Funeral Maldito”, cover do clássico Varathron. A escolha é simbólica e reforça ainda mais a ligação espiritual do grupo com a escola helênica. Mais do que uma homenagem, a interpretação funciona como um elo entre passado e presente, conectando gerações distintas do Metal extremo sob uma mesma visão artística.

Tecnicamente, o álbum apresenta uma produção extremamente adequada à proposta. A gravação e mixagem ficaram sob responsabilidade de Eric Cavalcante, que optou por preservar uma sonoridade orgânica e autêntica. Não há compressão excessiva nem artificialismos modernos que comprometam a agressividade natural das músicas. Cada instrumento encontra seu espaço dentro da mixagem, permitindo que os detalhes melódicos coexistam com a força bruta das composições.

A apresentação visual também merece elogios. A arte de capa assinada por Panos Sounas traduz perfeitamente a atmosfera mística e ancestral proposta pelo conteúdo musical. O trabalho gráfico é complementado pelo layout desenvolvido por Alan Luvarth e pelo logo criado pelo lendário Christophe Szpajdel, artista conhecido mundialmente por sua contribuição ao universo visual do Black Metal. Todo o conjunto transmite profissionalismo e respeito à tradição estética do gênero.

O maior mérito de Ecos do Panteão talvez esteja justamente em sua sinceridade artística. Em uma época marcada pela busca incessante por inovação a qualquer custo, o Aeternum Mausoleum prefere olhar para as raízes do Black/Death Metal e reinterpretá-las com competência, paixão e profundo conhecimento histórico. O resultado é um álbum que não tenta reinventar o gênero, mas que compreende perfeitamente sua essência e a transforma em algo relevante para os dias atuais.

Com melodias marcantes, atmosfera envolvente, excelente execução instrumental e uma forte identidade conceitual baseada na mitologia e no ocultismo ancestral, Ecos do Panteão estabelece o Aeternum Mausoleum como uma das estreias mais interessantes do Metal Extremo brasileiro em 2026. Um trabalho destinado especialmente aos apreciadores da escola helênica, mas que possui qualidade suficiente para conquistar qualquer admirador de Black/Death Metal obscuro, épico e genuinamente inspirado.

Entretanto, a edição em CD de Ecos do Panteão surge como um atrativo essencial para colecionadores e apreciadores do formato físico, ampliando a experiência do álbum ao incluir duas faixas exclusivas que reforçam ainda mais a identidade da banda e aprofundam sua conexão com o underground extremo.

A primeira delas, “Sede de Vingança”, funciona como uma extensão natural da atmosfera construída ao longo do disco. Com riffs mais incisivos e uma abordagem direta, a faixa mantém-se plenamente inserida na estética sombria e ritualística característica do Aeternum Mausoleum. Ao mesmo tempo, preserva o equilíbrio entre agressividade e melodia, assumindo o papel de um capítulo adicional que se integra de forma orgânica ao conceito geral do álbum.

“Nebiros”, releitura de um clássico da Nebiros, fortalece a ligação da banda com a história do Black Metal brasileiro. A interpretação respeita a crueza e a obscuridade da versão original, mas incorpora a identidade própria do grupo, especialmente nas camadas de guitarra e na construção atmosférica. Mais do que um simples bônus, a faixa se estabelece como uma ponte entre gerações do Metal Extremo nacional, encerrando a edição em CD com forte carga simbólica e histórica.

Tracklist:
1. Érebos
2. Suprema Nereide Atlântica
3. Noctara
4. Ode Helênica
5. Olhos de Serpente (Thulsa Doom)
6. Rei das Sombras
7. Prometheus Anthropos
8. Funeral Maldito (Varathron cover)
9. Sede de Vingança*
10. Nebiros (Nebiros cover)*

Line-up:
Felipe Brito – Guitarras.
Douglas Brito – Guitarras.
Fernando Iser – Voz, guitarras, baixo, teclados.

Gravadora: Brazilian Ritual Records

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