Nas profundezas do underground, onde a música fala mais alto que qualquer tendência e a autenticidade vale mais do que números, o Martyrdom mantém sua caminhada com convicção e personalidade. Forjada na dedicação ao metal extremo, a banda transforma cada composição em uma expressão de peso, obscuridade e identidade, reafirmando seu compromisso com uma cena que resiste pela força de quem a constrói diariamente. Nesta entrevista ao Cangaço Rock, o grupo compartilha sua trajetória, aborda o processo criativo, comenta os desafios de seguir ativo no cenário independente, suas influências e os caminhos que pretende trilhar. Uma conversa sincera que revela a visão de uma banda que compreende o underground como um espaço de resistência, consciência e devoção à música extrema.
CR – O Martyrdom vive um momento particularmente significativo de sua trajetória. Ao mesmo tempo em que resgata parte de seu legado por meio de relançamentos e edições em vinil, também apresenta novas versões de “Kharonte” e “Espíritos da Noite”, enquanto prepara a chegada do EP Contos Esquecidos. Como vocês enxergam essa fase? Trata-se de um reencontro com a própria história, de uma reafirmação da identidade construída ao longo de quase quatro décadas ou do início do capítulo mais ambicioso da banda?
AmraKing: Antes de tudo, agradecemos profundamente pelo espaço e pela oportunidade de compartilhar nossa visão. É uma honra conversar com quem ainda mantém viva a chama do Underground. O Cangaço Rock carrega um nome que, para nós nordestinos, representa resistência, permanência e enfrentamento — elementos que também moldam o Martyrdom. Vivemos um momento de reconstrução. Além dos relançamentos e dos projetos que começam a emergir das sombras, consolidamos uma nova formação com Miqueias “Morto” Almeida e Magno Fonseca, músicos que compreenderam imediatamente nossa essência. Não enxergamos esta fase apenas como um reencontro com o passado, mas como o início do ciclo mais ambicioso da história do Martyrdom. O que foi construído até aqui serviu apenas para preparar o terreno daquilo que ainda está por vir.

CR – “Ritual Místico de Adoração à Sabedoria Ancestral” permanece como uma obra que impressiona pela coesão entre música, conceito e atmosfera. Mais do que uma sequência de faixas, o álbum transmite a sensação de um ritual que se desenvolve do início ao fim. Em que momento vocês perceberam que estavam construindo algo que extrapolava os limites do Death/Doom Metal para dialogar diretamente com simbolismo, espiritualidade e ancestralidade?
AmraKing: Jamais houve um instante específico em que percebemos isso. O álbum nasceu lentamente, quase como um ritual que exigiu anos de maturação, foram quase dez anos mergulhados em símbolos, atmosferas e significados e nada foi concebido para existir isoladamente. Cada nota, cada palavra e cada silêncio fazem parte de uma mesma cerimônia. Quando percebemos que as pessoas conseguem atravessar esse caminho exatamente como imaginamos, entendemos que a obra cumpriu seu propósito.
CR – Desde seus primeiros registros, o Martyrdom sempre tratou temas como morte, ocultismo e transcendência com uma profundidade que vai além da estética comum ao Metal extremo. Até que ponto esse universo lírico nasce de pesquisas, estudos e reflexões pessoais, e quanto existe de liberdade criativa para construir a própria mitologia que envolve a identidade da banda?
AmraKing: O Martyrdom nasceu dessa ligação com a Morte — não apenas como fim biológico, mas como manifestação filosófica, espiritual e iniciática. Nossa mitologia é construída a partir de estudos, experiências, símbolos ancestrais e liberdade absoluta de criação. O underground nos permite isso: criar sem prestar contas ao mercado ou às expectativas alheias. É evidente que desejamos alcançar mais ouvintes, mas jamais aceitaremos sacrificar nossa essência para isso. O verdadeiro legado sempre será permanecer fiel ao próprio caminho.
CR – As recentes versões de “Kharonte” e “Espíritos da Noite” despertaram bastante curiosidade entre os fãs. O que motivou a revisitar justamente essas composições? A intenção era oferecer uma nova leitura dessas obras ou elas adquiriram um significado diferente dentro da atual fase criativa do Martyrdom?
AmraKing: “Kharonte” e “Espíritos da Noite” nunca deixaram de fazer parte da história do Martyrdom. Apenas aguardavam o momento adequado para atravessar novamente o rio. Embora não tenham integrado nosso primeiro álbum, sempre carregaram o mesmo peso simbólico das demais composições. Quando surgiu a oportunidade de lançarmos um vinil pela Elessar Records, entendemos que era hora de conceder a essas canções o lugar definitivo que sempre lhes pertenceu. “Contos Esquecidos” representa justamente esse resgate.

CR – O anúncio de Contos Esquecidos foi concebido como um verdadeiro rito de passagem. A escolha simbólica da data e do horário, a referência ao Tártaro, a presença de Kharonte conduzindo essa travessia, a edição em vinil de 180 gramas e até o manuscrito TeTraGrammaTon, reservado aos primeiros apoiadores, sugerem uma experiência que vai muito além da música. Como nasceu essa narrativa e de que maneira todos esses elementos se conectam ao conceito do EP e ao universo artístico do Martyrdom?
AmraKing: … Foi, de fato, um ritual e cada elemento foi concebido como parte de uma mesma invocação. A data, o horário, Kharonte, o Tártaro, o vinil, o manuscrito TeTraGrammaTon… nada existe por acaso. Não produzimos “apenas” canções. Construímos experiências capazes de transportar o ouvinte para dentro do abismo do Martyrdom. Esperamos que, quando o EP finalmente repousar nas mãos das pessoas, elas compreendam que cada detalhe faz parte da mesma cerimônia.
CR – A discografia do Martyrdom demonstra uma postura pouco comum nos dias atuais: cada lançamento parece surgir apenas quando existe uma necessidade artística genuína, sem qualquer preocupação em manter uma frequência ditada pelo mercado. Essa característica faz parte da filosofia da banda desde o início ou foi sendo consolidada naturalmente ao longo da caminhada?
AmraKing: Sempre acreditamos que a verdadeira arte nasce quando existe necessidade de criá-la sem obedecer a calendários, algoritmos ou estratégias de mercado. Nunca seguimos prazos impostos nem produzimos apenas para manter uma frequência de lançamentos. Preferimos o silêncio ao vazio… e enquanto carregarmos o nome Martyrdom, essa filosofia permanecerá intacta.

CR – Embora o peso e a técnica estejam presentes, a impressão é que o Martyrdom sempre priorizou atmosfera, identidade e construção de tensão acima do virtuosismo. Durante o processo de composição, o que costuma surgir primeiro: um riff, uma ideia conceitual, uma imagem, um texto ou simplesmente uma atmosfera que precisa ser transformada em música?
AmraKing: Tudo começa quando uma atmosfera nos encontra, antes dos riffs, antes das letras, antes mesmo das melodias, existe uma sensação difícil de explicar. Uma presença. A partir dela a música simplesmente acontece, como se apenas estivéssemos traduzindo algo que já existia em outro plano.
CR – Poucas bandas brasileiras atravessaram tantas transformações na cena underground quanto o Martyrdom. Vocês acompanharam a era das fitas demo, dos fanzines, dos CDs independentes e agora convivem com streaming, redes sociais e plataformas digitais. O que permaneceu essencial no underground brasileiro e quais mudanças mais impactaram a relação entre banda e público?
AmraKing: Sempre enxerguei as mudanças da cena como parte inevitável da passagem do tempo. Nem toda evolução representa melhora. Vivemos a época das demos, dos fanzines, dos CDs e agora das plataformas digitais. Todas possuem luz e sombra, o essencial, porém, jamais mudou: continuar criando sem permitir que números, estatísticas ou algoritmos determinem o valor daquilo que fazemos.

CR – Ao longo de sua trajetória, o Martyrdom sempre manteve uma identidade muito particular, distante das tendências que surgiram dentro do Death/Doom Metal. Em algum momento essa fidelidade à própria essência dificultou o crescimento da banda ou foi justamente ela que permitiu construir uma obra tão consistente e atemporal?
AmraKing: Jamais cogitamos abandonar nossa essência. Se permanecer fiel ao que acreditamos significa caminhar contra a corrente, então esse sempre será nosso destino. Existe um preço para isso, naturalmente, mas algumas escolhas não admitem negociação.
CR – Os singles mais recentes revelam uma produção mais refinada, sem abrir mão da atmosfera obscura que sempre caracterizou o Martyrdom. Durante a construção de Contos Esquecidos, houve uma preocupação em expandir os limites da sonoridade da banda ou o objetivo foi aprofundar ainda mais a identidade consolidada ao longo da discografia? Os ouvintes podem esperar novas abordagens musicais ou o foco está em aperfeiçoar aquilo que sempre definiu a essência do grupo?
AmraKing: Nunca entramos no processo de criação tentando reproduzir alguém ou atender expectativas externas. Nossas influências simplesmente atravessam nossa arte de maneira natural. A essência do Martyrdom permanece intacta, mas nós mudamos com o tempo. As experiências, as perdas, a maturidade e até o peso da existência acabam inevitavelmente transformando nossa música. Não buscamos virtuosismo. Buscamos verdade, a nossa verdade.
CR – No Martyrdom, a identidade visual parece possuir o mesmo peso da música. Capas, símbolos, encartes e toda a direção artística contribuem para ampliar a experiência proposta pela banda. Em uma época em que grande parte dos lançamentos é consumida apenas por plataformas digitais, qual continua sendo a importância da arte gráfica para transmitir a essência de um álbum de Metal extremo?
AmraKing: A identidade visual possui exatamente a mesma importância da música; capas, símbolos, encartes, manuscritos e toda a estética fazem parte da narrativa. Nada é decorativo, tudo existe para ampliar a experiência e conduzir o ouvinte ainda mais profundamente para dentro do universo do Martyrdom.

CR – “Culto Primitivo à Morte” representou um momento singular dentro da discografia do Martyrdom. Além da faixa-título, o EP reuniu registros ao vivo, ensaios e diferentes recortes da trajetória da banda, funcionando quase como um documento histórico antes da chegada de “Ritual Místico de Adoração à Sabedoria Ancestral”. Hoje, olhando para esse lançamento com o distanciamento do tempo, qual foi sua verdadeira importância dentro da evolução do Martyrdom? Ele foi apenas uma transição ou possui um significado próprio dentro da identidade construída pela banda?
AmraKing: “Culto Primitivo à Morte” jamais foi apenas uma transição, ali estavam concentrados nossos primeiros passos, nossas convicções e nossas cicatrizes. Foi através daquele trabalho que compreendemos definitivamente o quanto o Martyrdom fazia parte da nossa própria existência. Depois dele, o Côrtejo Fúnebre apenas continuou sua lenta peregrinação.
CR – Ao revisitar toda a discografia — desde a demo “Rehearsal”, passando por “Subterrâneo Culto às Trevas”, “Culto Primitivo à Morte” e “Ritual Místico de Adoração à Sabedoria Ancestral” — qual é a principal transformação que vocês enxergam no Martyrdom? A evolução aconteceu principalmente na composição, na filosofia por trás das letras ou na forma como a banda passou a compreender sua própria identidade artística?
AmraKing: Prefiro pensar em transformação do que em evolução. Cada fase da existência deixa marcas, cada lançamento registra exatamente quem éramos naquele momento. Quando revisito esses trabalhos, consigo reconhecer não apenas as músicas, mas também o estado do meu espírito durante cada etapa da caminhada. São fragmentos da nossa própria existência preservados em forma de arte.
CR – O Martyrdom sempre produziu obras que convidam o ouvinte a uma experiência completa, na qual música, letras, arte gráfica e conceito dialogam constantemente. Em uma época marcada pelo consumo rápido e fragmentado, vocês ainda acreditam que existe espaço para álbuns que exigem do ouvinte tempo, atenção e entrega, em vez de um consumo rápido e fragmentado? O que esperam que o público absorva após percorrer integralmente uma obra da banda?
AmraKing: Sempre haverá espaço para a verdadeira arte, o entretenimento nasce e desaparece com rapidez. A arte permanece. Ainda hoje escuto o primeiro álbum do Black Sabbath com a mesma intensidade da primeira vez, isso porque algumas obras não pertencem ao tempo. Elas atravessam gerações. Se conseguirmos despertar esse tipo de sentimento em alguém, nossa missão terá sido cumprida.

CR – Para encerrarmos, depois da retomada das atividades, das novas versões de clássicos, do lançamento de Contos Esquecidos em vinil e dos indícios de um novo álbum em desenvolvimento, qual é a maior ambição do Martyrdom para os próximos anos? O objetivo é consolidar definitivamente o legado construído desde 1997 ou vocês acreditam que a obra mais importante da banda ainda está por vir?
AmraKing: Nossa maior ambição nunca foi conquistar números ou reconhecimento. Nossa verdadeira obra sempre será permanecer fiel ao caminho que escolhemos e compartilhar nossa existência com aqueles que caminham ao nosso lado.
Honrar o Metal Negro Underground!!!
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E assim permaneceremos…
…até que a própria Morte encerre o último Ritual.
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