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Papa Necrose – Anthropomorphy Execution (2026)

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Há discos que não pedem licença. Eles simplesmente entram, ocupam espaço e fazem questão de permanecer ali mesmo depois que o silêncio volta a dominar o ambiente. Anthropomorphy Execution carrega exatamente essa natureza. Não tenta impressionar com malabarismos técnicos nem vender uma falsa ideia de renovação do death metal. Sua proposta é outra: transformar pouco menos de cinquenta minutos em uma sequência de riffs pesados, atmosferas sufocantes e composições que parecem ter sido moldadas para quem ainda procura honestidade dentro do underground.

Desde sua origem, o Papa Necrose vem construindo uma trajetória consistente dentro do underground brasileiro, sempre pautada pela regularidade de seus lançamentos e por uma identidade sonora bem definida. Os primeiros passos foram dados com as demos Driven to Evil (2014) e The Tortuos Path (2015), registros que apresentaram as bases do death metal sombrio cultivado pela banda. Em seguida, o split Culto à Morte (2016) ampliou sua visibilidade antes da chegada do primeiro álbum completo, The Souls Collector Vatican (2018), marco importante na consolidação do grupo. A sequência manteve o ritmo com o split Morbid Nights with Souls from the Hell (2019), seguido pelos álbuns Open Infected Body (2021) e The Infected Fucking Church (2023), trabalhos que evidenciaram uma evolução gradual na composição e no acabamento sonoro sem abandonar a essência extrema que sempre caracterizou o Papa Necrose. Agora, com Anthropomorphy Execution (2026), lançado pela Awakening Records, a banda entrega aquele que soa como seu trabalho mais maduro e coeso. A evolução acontece sem rupturas, preservando a personalidade construída ao longo de mais de uma década de atividade e reafirmando seu compromisso com um death metal pesado, sombrio e fundamentado em composições sólidas, distante de modismos e tendências passageiras.

A impressão que fica logo nos primeiros minutos é que nada aqui foi colocado por acaso. O disco possui uma continuidade rara. Cada faixa parece empurrar naturalmente a seguinte, criando uma audição que dificilmente convida o ouvinte a pular músicas. Existe uma linha invisível costurando todo o álbum, sustentada principalmente pelo trabalho das guitarras, que assumem a responsabilidade de conduzir praticamente toda a narrativa musical.

“Fall, Die, and Break” abre caminho sem qualquer cerimônia. Os riffs surgem ásperos, secos e muito bem encaixados sobre uma cozinha extremamente firme. O baixo aparece vivo na mixagem, longe daquele papel secundário que tantas produções insistem em lhe reservar. É justamente essa presença que amplia o peso da música logo nos primeiros compassos. A bateria não se limita a despejar velocidade; trabalha mudanças de andamento que mantêm a composição respirando, criando pequenas tensões que se acumulam naturalmente.

Quando “Disenchant Them” assume o controle, percebe-se que o Papa Necrose não deposita toda sua força na distorção. Existe composição. Os riffs conversam entre si, pequenas harmonizações aparecem escondidas entre as bases e os solos entram exatamente quando a música pede, sem interromper o fluxo da execução. Não há exibicionismo. O instrumento serve à música, e não o contrário.

A curta “Between Voices and Fear” funciona quase como uma névoa que antecede novos ataques. Sua função não é aliviar o peso, mas reorganizar a atmosfera antes da chegada da faixa-título.

E é justamente em “Anthropomorphy Execution” que o disco encontra um de seus momentos mais fortes. Os riffs carregam personalidade suficiente para conduzir toda a composição praticamente sozinhos. Alessandro Chinelle despeja vocais graves e agressivos sem transformar sua interpretação numa sequência uniforme de guturais. Existe variação de intensidade, pausas bem colocadas e uma presença constante que faz sua voz ocupar o mesmo nível de importância das guitarras. Enquanto isso, Luquian Silva conduz a bateria com absoluta segurança, alternando ataques rápidos com passagens mais pesadas, sempre preservando o impacto de cada mudança de ritmo.

Se existe uma faixa capaz de sintetizar a maturidade alcançada pela banda, provavelmente seja “Bleeding Social Membrane”. Seus mais de sete minutos passam sem qualquer sensação de excesso. A composição cresce lentamente, alternando peso, tensão e momentos em que as guitarras praticamente conduzem uma conversa entre si. Não há necessidade de preencher todos os espaços com velocidade. Quando o andamento diminui, o peso aumenta. Quando acelera novamente, a música já conquistou o ouvinte.

A brutalidade reaparece imediatamente em “Hammered in the Mind”. É uma faixa construída sobre ataques diretos, riffs cortantes e uma bateria que parece empurrar toda a banda para frente. Ainda assim, mesmo nos momentos mais rápidos, tudo permanece perfeitamente organizado. Cada instrumento encontra seu espaço sem comprometer a sensação de esmagamento que domina a música.

Logo depois, “Eighteen Years Awake” trabalha outra faceta do grupo. As mudanças de andamento acontecem de forma muito natural, explorando diferentes climas sem perder unidade. O baixo cresce ainda mais dentro da mixagem, preenchendo pequenas lacunas deixadas pelas guitarras e acrescentando profundidade ao conjunto.

Em “Cathedral of Death”, a atmosfera assume papel ainda mais importante. A música caminha lentamente durante boa parte de sua execução, permitindo que os riffs ganhem peso simplesmente pelo tempo que permanecem reverberando. Não existe pressa. Existe construção. Cada repetição parece ampliar a tensão antes que a banda decida avançar novamente.

“Silenced by Death” mantém o disco em alto nível. Talvez não seja a faixa mais chamativa numa primeira audição, mas revela força justamente pela maneira como trabalha pequenos detalhes de composição. É uma música que cresce conforme o álbum vai sendo revisitado, revelando novas camadas escondidas entre a muralha de guitarras.

O encerramento com “The Thousand Yard Gaze” parece reunir todos os caminhos percorridos anteriormente. A música alterna peso, velocidade e momentos mais cadenciados com enorme naturalidade. A participação especial de James Murphy surge como um detalhe importante, mas jamais tira o foco do Papa Necrose. O solo encaixa perfeitamente dentro da proposta da composição, funcionando como mais um elemento na construção do desfecho do álbum.

Grande parte da força de Anthropomorphy Execution nasce justamente do equilíbrio entre seus músicos. As guitarras de Danilo Vagner e Carlos Silva não vivem apenas de riffs pesados. Existe uma preocupação constante com textura, harmonia e dinâmica. Algumas passagens trabalham pequenas melodias escondidas sob a massa de distorção, enriquecendo discretamente músicas que poderiam facilmente seguir apenas pelo caminho da brutalidade.

O baixo de Éric Gusmão talvez seja uma das maiores surpresas do disco. Sua presença não fica limitada ao reforço das frequências graves. Em diversos momentos ele conduz transições, amplia a densidade dos riffs e acrescenta movimento às composições. É uma atuação que dificilmente passa despercebida para quem escuta o álbum com atenção.

Na bateria, Luquian Silva evita o erro de transformar velocidade em objetivo principal. Blast beats aparecem quando necessários, mas a maior qualidade de sua execução está na maneira como organiza os andamentos. Sua condução mantém o álbum permanentemente vivo, impedindo que a repetição se instale mesmo durante as faixas mais extensas.

Os vocais de Alessandro Chinelle acompanham essa mesma lógica. Seu timbre grave transmite agressividade sem recorrer a excessos caricatos. Há personalidade em sua interpretação, característica cada vez mais rara dentro de um gênero onde muitos vocalistas acabam soando praticamente iguais.

Toda essa construção encontra suporte numa produção extremamente competente. Gravado, mixado e masterizado no Evil Live Studios, o disco preserva uma sonoridade orgânica que favorece o impacto dos instrumentos. Não existe excesso de limpeza, mas também não há aquela sujeira artificial utilizada apenas para parecer old school. O equilíbrio encontrado permite ouvir claramente cada detalhe sem sacrificar a brutalidade que sustenta o álbum.

A identidade visual acompanha essa mesma proposta. A arte criada pela Nether Temple Design traduz perfeitamente o ambiente construído pelas músicas. O conceito gráfico dialoga diretamente com o conteúdo lírico e reforça o caráter sombrio do lançamento. A edição física ainda acrescenta um livreto bem elaborado, valorizando um formato que continua sendo parte importante da cultura underground.

Talvez o aspecto mais interessante de Anthropomorphy Execution seja justamente sua ausência de ansiedade. O Papa Necrose não demonstra qualquer preocupação em provar que é a banda mais técnica, mais rápida ou mais extrema da cena. Prefere concentrar esforços naquilo que realmente importa: escrever boas músicas. E quando isso acontece, o restante surge naturalmente.

Há discos que impressionam durante a primeira audição e desaparecem poucos dias depois. Outros exigem tempo. Pedem retorno. Revelam novos detalhes conforme os riffs começam a se tornar familiares. Anthropomorphy Execution pertence claramente a esse segundo grupo. É um álbum que cresce sem fazer alarde, sustentado por composições fortes, uma execução segura e uma produção que respeita a essência do death metal.

No fim das contas, talvez essa seja sua maior qualidade. Em vez de tentar ocupar um lugar que não lhe pertence, o Papa Necrose fortalece o espaço que construiu ao longo dos últimos anos. O resultado é um disco pesado, coeso e carregado daquela honestidade que sempre fez do underground um território onde a música fala mais alto que qualquer discurso. E quando os últimos acordes desaparecem, permanece a certeza de que Anthropomorphy Execution não foi concebido para acompanhar tendências. Foi feito para permanecer, riff após riff, dentro da coleção de quem ainda encontra sentido no death metal tocado com convicção, personalidade e absoluto respeito às suas raízes.

Tracklist:
1. Fall, Die, and Break
2. Disenchant Them
3. Between Voices and Fear
4. Anthropomorphy Execution
5. Bleeding Social Membrane
6. Hammered in the Mind
7. Eighteen Years Awake
8. Cathedral of Death
9. Silenced by Death
10. The Thousand Yard Gaze

Line-up:
Carlos Silva – Guitarras.
Danilo Vagner – Guitarras.
Alessandro Necrose – Vocais.
Eric Gusmão – Baixo.
Luquian Chemosh Silva – Bateria.

Gravadora: Awakening Records

Contatos: Instagram | Spotify | Bandcamp | YouTube

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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