O Heavy Metal latino-americano ganha voz nesta entrevista exclusiva com o Armadilha, um dos principais representantes da nova geração do metal tradicional brasileiro. Em uma conversa franca, a banda fala sobre sua trajetória, a valorização da identidade cultural, a união da cena sul-americana, a homenagem ao lendário Arkangel e os planos para o aguardado terceiro álbum. Uma leitura essencial para quem acredita na força do underground e no poder do Heavy Metal feito em nossa língua e em nosso continente.
CR – O Armadilha surgiu em São Paulo em um período em que o Heavy Metal tradicional brasileiro vivia uma fase de reconstrução. Quais foram as principais motivações para criar a banda e como vocês enxergam a evolução do grupo desde os primeiros ensaios até o momento atual?
Pedro Zupo: A nossa principal motivação foi preencher uma lacuna. Naquela época, a grande maioria das bandas da cena estava focada no Thrash ou no metal extremo. Não existiam muitas opções fazendo o Heavy Metal tradicional. Havia basicamente três bandas furando a bolha: Comando Nuclear, Selvageria e Vingança Suprema. Elas nos inspiraram a seguir o nosso próprio instinto e fazer o tipo de som que a gente realmente queria ouvir. Além disso, sempre foi um gosto em comum entre todos os membros da banda o Heavy Metal cantado na língua nativa. Achamos que seria interessante resgatar esse conceito, que no começo dos anos 2000 estava bem esquecido por aqui.

CR – Desde Choque Elétrico até Sangue de Ferro, fica evidente uma evolução tanto musical quanto conceitual. Como vocês avaliam essa transformação? O Armadilha de hoje ainda carrega a mesma essência dos primeiros anos ou a banda amadureceu a ponto de enxergar o Heavy Metal sob uma perspectiva completamente diferente?
Pedro Zupo: A essência continua a mesma: nós começamos o Armadilha simplesmente porque queríamos tocar o som que a gente amava, e isso não mudou. A grande diferença é o nível de seriedade. No começo, nós não tínhamos grandes ambições profissionais; estávamos satisfeitos apenas em existir e fazer barulho. Porém, à medida que fomos sendo acolhidos pelo público, a ambição de entregar um trabalho cada vez melhor e mais profissional surgiu naturalmente. O amadurecimento foi uma consequência do respeito que ganhamos de quem nos escuta.
CR – As letras do Armadilha sempre foram além dos clichês do gênero, abordando história, cultura, conflitos e identidade. Como nasce uma composição dentro da banda? O conceito vem antes da música ou o instrumental acaba conduzindo o tema?
Gregório Bondezam: Nós abraçamos alguns clichês, porque no fim das contas eles fazem parte do DNA e dos temas clássicos do cenário Heavy Metal, mas tentamos ir além. Nossas composições não seguem uma “linha de montagem” ou um fluxo engessado. A grande vantagem que temos é justamente o fato de cantarmos em português. Usar a nossa língua nativa nos dá a liberdade e o poder de passar mensagens muito mais complexas e diretas para o nosso ouvinte, garantindo que o conceito bata de frente, junto com o instrumental.
CR – O projeto Living Metal e agora a proposta da Nueva Línea del Heavy Metal Latinoamericano (NLHMLA) demonstram uma preocupação em fortalecer a integração do Metal latino-americano. Como surgiu essa visão e qual legado vocês esperam deixar para as futuras gerações de bandas do continente?
Pedro Zupo e Gregório Bondezam: A ideia de gritar pela união latino-americana sempre foi urgente para nós, especialmente num cenário onde as pessoas têm a tendência de olhar apenas para a Europa. Com a pausa do projeto Living Metal (que é importante frisar: é uma banda totalmente à parte, e apesar de sermos integrantes dela também, ela tem sua própria história), nós sentimos que esse tema era crucial demais para ser abandonado. Decidimos então assumir de vez essa bandeira com o Armadilha. Na verdade, isso é algo que já fazia parte da nossa essência: desde 2023, nos shows ao vivo, criamos a tradição de tocar covers de bandas que cantam em suas línguas nativas além do espanhol. Quando lançamos o Choque Elétrico, por exemplo, já havíamos gravado uma versão de “Vestida do Pecado” em espanhol. Foi um passo natural continuar esse legado e fortalecer a nossa cena local.

CR – “Motín en Occidente” presta homenagem ao Arkangel, mas vai muito além de um simples cover. Em que momento vocês perceberam que essa música poderia se transformar em um manifesto sobre identidade latino-americana e geopolítica?
Pedro Zupo e Gregório Bondezam: A mentalidade brasileira, infelizmente, ainda carrega muito preconceito e desconhecimento histórico. Muitos se surpreendem ao descobrir que a primeira banda de Heavy Metal do Brasil é de Belém do Pará, e não do eixo Sudeste. Imagina o choque quando descobrem que a primeira banda da América Latina não é brasileira, nem argentina, mas sim da Venezuela! Achamos que era o momento perfeito para trazer essa música à tona, já que hoje temos mais visibilidade do que há 16 anos. “Motín en Occidente” foi uma das primeiras músicas do Arkangel com as quais tivemos contato. Ter a honra de tocar com o Joad Jimenez nos fez entender a profundidade da mensagem por trás da letra, e sentimos que era nosso dever levar esse manifesto adiante.
CR – O videoclipe reúne personagens históricos do Heavy Metal como símbolos de resistência diante dos conflitos mundiais. Como foi desenvolvido esse conceito visual e qual mensagem vocês pretendem transmitir ao público através dessa narrativa?
Pedro Zupo e Gregório Bondezam: O conceito visual foi pensado para usar imagens icônicas que o público do metal reconhecesse automaticamente. Queríamos gerar uma identificação imediata para entregar uma mensagem que fosse como um soco no estômago. E a mensagem principal de todo esse trabalho visual e da própria música é aquela que aparece pichada no muro por um headbanger no final do clipe: o teu próprio mal retornará para você.

CR – O Armadilha sempre demonstrou enorme respeito pelos pioneiros do Heavy Metal brasileiro, como Stress, Avenger, Centúrias e Azul Limão. Qual a importância dessas bandas na formação musical de vocês e o quanto elas continuam influenciando o trabalho atual?
Pedro Zupo: Essa é uma pergunta que nós simplesmente não podemos responder agora sem estragar a surpresa! Ouçam o nosso próximo disco e descubram por conta própria como esses monstros continuam influenciando o nosso som.
CR – Dividir o palco com Joad Jimenez, voz da gravação original de “Motín en Occidente”, certamente foi um momento histórico. Como foi essa experiência e que impacto ela teve na relação do Armadilha com a cena latino-americana?
Pedro Zupo e Gregório Bondezam: Foi algo surreal. Saber que ele realmente gosta e respeita o nosso trabalho é incrível. Quando surgiu a oportunidade de dividir o palco com ele, nós abraçamos com unhas e dentes, porque muito mais do que um parceiro de palco, ele é nosso ídolo. Foi uma situação que uniu o nascimento de uma grande amizade e a honra imensurável de compartilhar energia com ele. Além de tudo, foi um aprendizado gigante para a banda.

CR – O terceiro álbum já desperta grande expectativa. O que os fãs podem esperar em termos de sonoridade, temática e evolução? O conceito de “Motín en Occidente” será expandido ao longo do disco?
Gregório Bondezam: Com toda a certeza! Como dizem, antes do prato principal, a gente sempre serve uma boa entrada. Esperamos muito que a galera curta esse novo trabalho, porque investimos muito tempo, suor e dedicação nele. Fizemos questão de garantir que as nossas visões pessoais e a nossa identidade ficassem impressas da forma mais honesta e crua possível para quem for ouvir.
CR – Para encerrar, olhando para toda a trajetória construída desde 2011, qual vocês gostariam que fosse o verdadeiro legado do Armadilha dentro da história do Heavy Metal brasileiro e latino-americano? Quando o nome da banda for lembrado daqui a algumas décadas, qual mensagem vocês esperam ter deixado para a cena?
Pedro Zupo e Gregório Bondezam: Nós ainda não sabemos exatamente tudo o que vamos conquistar, mas sabemos muito bem para onde estamos mirando. Se pudermos ser pelo menos um pequeno degrau na construção de uma cena mais unida, acolhedora e com mais respeito mútuo entre as bandas brasileiras e nossos irmãos vizinhos do continente, nós já teremos conquistado muito mais do que jamais ousamos desejar.









