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Mãe Serpente – Volume II – Fúria Sem Olhos (2026)

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O underground brasileiro sempre foi um território onde persistência e identidade caminham lado a lado. Em meio às inúmeras transformações da cena pesada, algumas bandas seguem construindo sua trajetória de maneira sólida, sem depender de tendências passageiras ou fórmulas pré-estabelecidas. É nesse caminho que a Mãe Serpente chega ao seu segundo capítulo, Volume II – Fúria Sem Olhos, um trabalho que representa não apenas a continuidade de uma história iniciada há uma década, mas também uma afirmação artística de um trio que encontrou sua própria linguagem dentro do metal.

Formada em Minas Gerais e composta por Fernando Dias (vocais e guitarra), Mário Rodrigues (baixo) e Victor Espeschit (bateria), a banda carrega em sua essência a força do rock pesado tradicional, explorando diferentes vertentes sem perder a unidade. Ao longo de oito faixas, o grupo transita por caminhos que envolvem stoner metal, doom metal, heavy metal clássico e elementos do heavy metal setentista, criando uma sonoridade carregada de peso, groove e uma atmosfera marcada por riffs densos e uma forte presença instrumental.

Produzido com gravação, mixagem e masterização realizadas no Audio One Studios por Alan Wallace, com as vozes registradas no 415 Home Studio, Volume II – Fúria Sem Olhos apresenta uma produção que valoriza a organicidade da banda. A sonoridade preserva a sensação de uma apresentação viva, onde cada instrumento ocupa seu espaço de maneira clara, permitindo que os riffs tenham impacto, que o baixo exerça sua função de sustentação e que a bateria conduza as músicas com dinâmica e personalidade. O resultado é um álbum que mantém a essência crua do rock pesado, mas sem abrir mão de uma construção sonora cuidadosa.

A faixa de abertura e primeiro single, “Fúria Sem Olhos”, estabelece imediatamente a proposta do álbum. Com um riff poderoso e uma condução marcada pela intensidade, a música funciona como uma declaração de princípios. A composição transforma a ideia de fúria em movimento, não como uma explosão descontrolada, mas como uma força capaz de romper a acomodação e impulsionar mudanças. Fernando Dias entrega vocais carregados de expressão, enquanto guitarra, baixo e bateria trabalham em conjunto para criar uma introdução que carrega o peso necessário para abrir o disco.

Em seguida, “Rei Caçador” amplia o universo conceitual da obra ao mergulhar na simbologia de Oxóssi, orixá associado à caça, ao conhecimento e à prosperidade. A faixa apresenta uma construção mais épica, com riffs cadenciados e uma atmosfera que conduz o ouvinte por uma narrativa mais ampla. A guitarra assume papel central, criando momentos de tensão e imponência, enquanto a cozinha mantém a estrutura firme e pesada. É uma composição que demonstra a capacidade da Mãe Serpente de trabalhar temas culturais e espirituais dentro de uma linguagem sonora carregada.

“O Distraído” segue uma direção diferente, trazendo uma reflexão sobre a rotina, a repetição e a alienação do cotidiano moderno. A música apresenta uma abordagem mais voltada ao groove, com riffs diretos e uma pegada que resgata a força do hard rock setentista. A influência de grandes nomes responsáveis pela construção do rock pesado aparece de maneira natural, não como reprodução, mas como referência absorvida e transformada pela identidade da banda. O resultado é uma faixa que combina peso e balanço, criando uma atmosfera envolvente.

“Rockceta” apresenta um momento mais descontraído dentro do álbum, mostrando que a Mãe Serpente também sabe explorar uma postura mais espontânea e divertida sem abandonar sua essência pesada. A faixa funciona como uma quebra de intensidade dentro do repertório, trazendo uma energia mais solta e reforçando a diversidade presente no disco.

Em “Somelier de Carniça”, a banda retorna para uma abordagem mais crítica e carregada de ironia. Utilizando metáforas para abordar questões sociais, a composição transforma observações sobre desigualdade e submissão em uma narrativa ácida. Musicalmente, a faixa mantém a característica do grupo de unir peso e identidade, construindo uma atmosfera desconfortável que dialoga diretamente com a mensagem apresentada.

“Ferro e Sangue” mergulha em um território mais emocional, explorando o conflito entre sofrimento físico e psicológico. A presença de elementos vindos do blues aparece de maneira sutil, principalmente na construção dos riffs e na forma como a música trabalha seus momentos de tensão. A interpretação vocal ganha destaque pela carga emocional, enquanto a guitarra conduz a faixa por diferentes nuances, alternando momentos mais contidos e explosões de peso.

A atmosfera torna-se ainda mais densa em “Vozes do Universo”, uma das composições mais lentas e ritualísticas do álbum. Inspirada por elementos da Cabalá, a música constrói uma experiência mais contemplativa, utilizando a repetição dos riffs e a cadência arrastada para criar uma sensação quase hipnótica. O peso aqui não está apenas na distorção, mas na capacidade da banda de criar ambientes e transportar o ouvinte para dentro da proposta conceitual da faixa.

Encerrando o álbum, “Mãe Serpente” funciona como uma síntese de tudo aquilo apresentado anteriormente. A faixa reúne os principais elementos explorados durante o disco: o peso do doom, a força do metal tradicional, o balanço do hard rock e a identidade própria construída pelo trio. Mais do que apenas uma faixa final, ela representa o fechamento de um ciclo conceitual, reafirmando a personalidade de uma banda que compreende sua própria trajetória.

A arte de capa e a identidade visual do lançamento também dialogam com a proposta simbólica do álbum, reforçando a presença de elementos místicos, força primitiva e transformação. O conceito visual acompanha a ideia de renascimento e intensidade presente nas composições, criando uma ligação entre imagem e música.

Volume II – Fúria Sem Olhos é um álbum que revela uma Mãe Serpente amadurecida, consciente de suas influências e, principalmente, de sua própria identidade. O trio entrega um trabalho construído com cuidado, onde cada composição possui sua função dentro da narrativa geral. Entre riffs pesados, atmosferas densas e letras que transitam entre o simbólico, o espiritual e o cotidiano, a banda apresenta um registro que representa a força do underground brasileiro: música feita com convicção, personalidade e respeito pela própria essência.

Tracklist:
1. Fúria Sem Olhos
2. Rei Caçador
3. O Distraído
4. Rockceta
5. Somelier de Carniça
6. Ferro e Sangue
7. Vozes do Universo
8. Mãe Serpente

Line-up:
Fernando Dias — Vocal e guitarra.
Mário Rodrigues — Baixo.
Victor Espeschit — Bateria.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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