A Laconist retorna após uma década de silêncio com um EP que funciona menos como uma simples retomada e mais como uma reafirmação de propósito. Formada em Hortolândia (SP), em 2007, por A. Neil, a banda construiu sua trajetória dentro do Brutal Death Metal, lançando dois álbuns, uma demo e um EP antes de interromper as atividades em 2016. Dez anos depois, Where Being Ends, I Begin recoloca o nome da banda em circulação com A. Neil como único integrante original, agora acompanhado por Zé Misanthrope nos vocais e Felipe Veiga na bateria de sessão. O resultado são apenas três faixas, totalizando pouco mais de dez minutos, mas suficientes para deixar claro que o hiato não apagou a identidade construída desde os primeiros anos. A própria banda aponta como parte de suas raízes nomes como Angelcorpse, Centurian e Hate Eternal, enquanto sua trajetória também dialoga com uma tradição mais ampla do death metal extremo brasileiro.
Abrindo os trabalhos, “Acerbus” já entra sem qualquer cerimônia, sustentada por guitarras graves, riffs compactos e uma bateria que alterna velocidade e peso com precisão. A faixa apresenta uma construção bastante direta, mas não simplista: os riffs vão se encaixando em mudanças de andamento que criam pequenas quebras dentro da avalanche sonora, permitindo que a música respire antes de voltar a esmagar. A guitarra de A. Neil é o eixo de todo o EP, trabalhando com aquela combinação de peso, ataque e precisão que caracteriza o Brutal Death Metal quando a composição está acima da mera demonstração de velocidade. Zé Misanthrope, por sua vez, assume os vocais com uma interpretação áspera e profunda, mantendo a voz integrada ao instrumental em vez de simplesmente pairar sobre ele. Em “Vermiforming”, essa proposta ganha ainda mais força: a faixa é curta, agressiva e bastante dinâmica, com mudanças de ritmo que fazem o instrumental parecer constantemente prestes a desabar sobre o ouvinte. A participação de Kyle Ball, vocalista canadense conhecido por seus trabalhos em Lysergic e anteriormente em Wake e Kataplexis, acrescenta uma segunda textura à brutalidade vocal, funcionando como elemento de reforço e não como mero chamariz.
Se “Acerbus” estabelece o terreno e “Vermiforming” concentra boa parte da violência imediata do lançamento, “Nullfruition” fecha o EP mantendo a mesma disposição para riffs secos, ataques rápidos e passagens de maior densidade. É uma composição que ajuda a perceber que a proposta da Laconist não está baseada apenas na velocidade, mas na maneira como guitarras, baixo implícito na massa instrumental e bateria trabalham juntos para produzir impacto. Felipe Veiga merece atenção justamente por não transformar a bateria em uma sucessão indistinta de blast beats: há precisão nos ataques, variações suficientes para marcar as transições e uma condução que dá às guitarras espaço para desenvolverem seus motivos. O baixo não aparece como protagonista isolado, mas participa da espessura geral da gravação, enquanto os vocais permanecem posicionados de maneira a preservar a agressividade sem esconder completamente o trabalho instrumental. O EP, portanto, funciona como uma peça curta e coesa, sem faixas sobrando ou momentos inseridos apenas para preencher duração. Cada composição cumpre uma função dentro do conjunto e, quando “Nullfruition” chega ao fim, fica a sensação de que a Laconist preferiu deixar um gosto de quero mais a prolongar artificialmente o retorno.
Outro ponto que merece destaque está justamente na produção. Gravado entre outubro de 2025 e abril de 2026, Where Being Ends, I Begin recebeu mixagem do próprio Zé Misanthrope no Less Than Zero Studios and Waterpark, enquanto a masterização ficou sob responsabilidade de Cássio Zambotto. A gravação possui força suficiente para transmitir o peso das guitarras e da bateria, mas sem transformar tudo em uma parede sonora completamente indistinta. A produção moderna ajuda principalmente nas passagens mais rápidas, nas quais seria fácil perder definição, e mantém os vocais suficientemente presentes dentro da massa instrumental. A arte de Blasphemator Art acompanha essa proposta visual mais sombria e extrema, completando um lançamento que, mesmo independente, demonstra cuidado com cada etapa de sua construção. Sem gravadora atualmente, a Laconist disponibilizou o EP de forma independente em 17 de julho de 2026 e já trabalha na composição de um novo álbum completo, enquanto procura uma parceria para uma futura edição física. É uma postura bastante coerente com o próprio espírito underground: fazer o disco acontecer primeiro e deixar que sua força encontre o caminho até os selos interessados.
No fim das contas, Where Being Ends, I Begin é um retorno que não precisa de discursos grandiosos para provar sua validade. A Laconist volta dez anos depois carregando a experiência de quem já percorreu um trecho considerável do underground, mas sem tentar transformar o passado em peça de museu. “Acerbus”, “Vermiforming” e “Nullfruition” são três golpes rápidos, pesados e cuidadosamente amarrados, nos quais a banda recupera sua essência enquanto abre espaço para uma formação renovada. A presença de A. Neil preserva o elo histórico com a Laconist original, enquanto Zé Misanthrope acrescenta uma personalidade vocal que combina naturalmente com a proposta, e Felipe Veiga entrega a força necessária para que essas novas composições ganhem vida. É um EP curto, brutal e objetivo, daqueles que terminam antes que o ouvido consiga se acostumar com a pancada, e talvez esteja justamente aí seu maior acerto. Where Being Ends, I Begin não tenta reconstruir uma década perdida; ele simplesmente abre a porta para uma nova fase. E, pelo que estas três faixas deixam ouvir, essa história ainda está longe de terminar.
Tracklist:
1. Acerbus
2. Vermiforming (Feat. Kyle Ball)
3. Nullfruition
Line-up:
Zé Misanthrope — Vocais.
André Neil — Guitarra.
Felipe Veiga — Bateria (Gravação).
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