Início Brasil Escarnium – Inexorable Entropy (2025)

Escarnium – Inexorable Entropy (2025)

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Escarnium nunca precisou de muito discurso para deixar claro de onde vem sua música. Formada em Salvador, Bahia, em 2008, a banda construiu uma trajetória marcada por um Death Metal sombrio, ríspido e carregado de uma atmosfera de decadência, misantropia e niilismo, atravessando demos, EPs, turnês internacionais e quatro trabalhos de longa duração até chegar a “Inexorable Entropy”. O novo álbum chega com nove faixas e pouco mais de 31 minutos, tempo suficiente para a Escarnium despejar uma massa sonora compacta, violenta e cuidadosamente arquitetada. “Fentanyl” abre o disco como uma espécie de introdução sufocante, com teclados assinados por Nestor Carrera criando uma atmosfera estranha antes da pancada propriamente dita. A entrada em “Relentless Katabasis” já joga tudo no abismo: bateria veloz, guitarras densas e vocais guturais de Victor Elian formando uma parede que não depende apenas da velocidade para esmagar. Há uma sensação constante de movimento subterrâneo, como se os riffs fossem arrastando o ouvinte para baixo, sem pressa de devolver ninguém à superfície.

“Cancerous Abyss” mantém essa lógica e trabalha muito bem a alternância entre velocidade e peso, deixando as guitarras assumirem diferentes camadas dentro da composição. O baixo de Gabriel Dantas não aparece simplesmente como preenchimento, mas ajuda a engrossar a estrutura, enquanto Nestor Carrera conduz tudo com uma bateria precisa, alternando blast beats, ataques secos e mudanças que evitam que a brutalidade vire uma massa indistinta. O solo de guitarra surge sem quebrar o clima geral e funciona mais como uma ferida aberta no meio da música do que como demonstração gratuita de técnica. Na faixa-título, “Inexorable Entropy”, a banda encontra talvez seu momento mais expressivo: riffs mais cadenciados convivem com passagens velozes e uma guitarra que ganha maior espaço melódico sem abandonar a podridão sonora. “The Heritage” vem logo depois reduzindo o espaço para respirar e apostando em uma construção mais pesada, quase esmagadora, antes de voltar a acelerar. É justamente nessa capacidade de alternar tensão, velocidade e peso que o álbum encontra sua força, sem precisar transformar cada segundo em uma corrida descontrolada. A Escarnium sabe quando atacar e, principalmente, sabe quando segurar o golpe.

A segunda metade do disco continua descendo pelo mesmo terreno insalubre. “Revulsion of Carbon” é direta, agressiva e carregada por riffs que parecem feitos para funcionar tanto no fone quanto em um palco pequeno e barulhento. “Through the Depths of the 12th Gate”, faixa que já havia aparecido anteriormente em material da banda, ganha aqui nova presença dentro da sequência do álbum e funciona como um dos momentos mais atmosféricos do trabalho, permitindo que as guitarras explorem uma sensação mais obscura enquanto a bateria mantém a música em constante tensão. “Ashen Path”, com apenas 1 minuto e 45 segundos, serve como uma passagem curta e carregada de clima, preparando o terreno para “Pyroscene’s Might”, encerramento que retoma a brutalidade com mudanças de andamento, riffs pesados e explosões repentinas. A música não precisa inventar um final grandioso; ela simplesmente fecha as portas e deixa o ambiente contaminado. O resultado é uma sequência bem amarrada, na qual cada faixa possui função dentro do conjunto. Não existe aquela sensação de músicas jogadas lado a lado apenas para completar duração. “Inexorable Entropy” funciona melhor justamente quando ouvido como uma peça única, com seus intervalos, acelerações, quedas de andamento e momentos de maior densidade.

Também merece atenção a forma como o álbum foi construído tecnicamente. A gravação das baterias aconteceu no RMS Studio, em Agudos, São Paulo, em junho de 2024, enquanto guitarras e baixo foram registrados entre julho e setembro no Escarnium Studio, em Colônia, Alemanha. Os vocais foram captados no Walzwerk Tonstudio, em Weilheim, onde Sergej Dukart também realizou a mixagem e a masterização em outubro daquele ano, com edição e engenharia adicional de Robin Bergmann. Essa produção consegue preservar a sujeira necessária ao Death Metal sem transformar o álbum em uma gravação embolada. As guitarras possuem peso e definição, a bateria permanece agressiva sem perder seus detalhes e o baixo ajuda a manter o corpo das músicas. Victor Elian e Alex Hahn trabalham muito bem essa dupla de guitarras, com Elian concentrado também nos vocais e Hahn assumindo os leads, enquanto Gabriel Dantas e Nestor Carrera formam uma cozinha pesada e disciplinada. A capa, criada por Hugo Venancio e Nestor Carrera, segue uma estética mais minimalista e perturbadora, traduzindo visualmente a ideia de dissolução, perda de identidade e degradação associada ao conceito do álbum. Nada parece colocado ali apenas para enfeite: som, título e imagem caminham na mesma direção.

“Inexorable Entropy” é, no fim das contas, um daqueles discos que não precisam gritar que são extremos porque a própria música já faz o serviço. A Escarnium chega ao quarto álbum de estúdio demonstrando experiência, controle e uma identidade suficientemente sólida para continuar explorando o Death Metal sem perder sua essência. Existe brutalidade, claro, mas existe também composição, atmosfera e cuidado com os detalhes. “Fentanyl” abre a porta, “Relentless Katabasis” e “Cancerous Abyss” mergulham o ouvinte no caos, “Inexorable Entropy” concentra a essência do trabalho, “The Heritage” pesa a mão, “Revulsion of Carbon” mantém a máquina funcionando, “Through the Depths of the 12th Gate” amplia o lado atmosférico, “Ashen Path” prepara o terreno e “Pyroscene’s Might” encerra tudo em combustão. É Death Metal brasileiro feito com experiência de estrada e consciência de composição, sem maquiagem desnecessária e sem aquela necessidade de provar alguma coisa a cada segundo. Um disco curto, denso, sombrio e eficiente, daqueles que terminam deixando no ar apenas aquela velha sensação de que ainda há alguma coisa apodrecendo debaixo da terra.

Tracklist:
1. Fentanyl
2. Relentless Katabasis
3. Cancerous Abyss
4. Inexorable Entropy
5. The Heritage
6. Revulsion of Carbon
7. Through the Depths of the
8. Ashen Path
9. Pyroscene’s Might

Line-up:
Gabriel Dantas — Baixo.
Nestor Carrera — Bateria e Teclados.
Victor Elian — Guitarra e Vocais.
Alex Hahn — Guitarra.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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