Início Brasil Black Pantera – Continental (2026)

Black Pantera – Continental (2026)

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O Black Pantera chega a Continental com a experiência de quem já atravessou diferentes fases do underground brasileiro sem abrir mão da própria identidade. Desde 2014, o trio formado por Charles Gama (guitarra e voz), Chaene da Gama (baixo e voz) e Rodrigo “Pancho” (bateria) vem construindo uma sonoridade pesada, direta e profundamente ligada à realidade brasileira. Neste quinto álbum, lançado pela Deck, essa característica permanece, mas aparece acompanhada de novas texturas e possibilidades. A faixa-título já coloca o disco em movimento com guitarras cortantes, baixo pulsante e bateria firme, ampliando a dimensão da composição. “Serotonina”, com Duquesa, acrescenta outra dinâmica ao repertório, cruzando peso e groove sem perder a força do trio. “Hórus” trabalha uma cadência mais arrastada e cria um ambiente denso, enquanto “Quando Canto”, com Sandra Sá, aproxima o peso do Black Pantera de uma interpretação carregada de memória, ancestralidade e emoção. O disco começa deixando claro que a banda não está interessada apenas em repetir uma fórmula que já funciona.

A sequência mantém essa tensão e mostra um repertório construído sobre contrastes. “Velho Jeans Rasgado” traz uma energia mais solta, com espírito de estrada e uma pegada que conversa com o punk sem abandonar o peso das guitarras. “Negusa Nagast” mergulha em uma atmosfera mais ritualística, sustentada por riffs marcantes e uma condução que reforça os temas de identidade e resistência presentes no álbum. “Start The Game” vem mais rápida e objetiva, com a bateria de Pancho dando velocidade à faixa e o baixo de Chaene ocupando um espaço fundamental na construção do groove. “Obsoleto”, com Derrick Green, é curta, agressiva e concentrada. Não existe espaço para excesso. A música entra, golpeia e termina deixando a sensação de impacto. Já “W.P.P.” recupera uma postura mais frontal, com guitarras pesadas e vocais que carregam o espírito de confronto da banda. É nesse trecho que Continental ganha uma de suas principais forças: as músicas não dependem apenas da distorção para serem pesadas. O peso também está nos arranjos, na interpretação e na maneira como cada instrumento se encaixa no conjunto.

“Banzo”, com Chico César, abre outra possibilidade dentro do álbum. A música começa de forma mais contida e cresce aos poucos, aproximando a força do Black Pantera de uma dimensão mais melódica e emocional. O encontro funciona justamente porque não parece artificial. A participação acrescenta identidade à composição sem retirar da banda o controle da própria linguagem. “Yasuke” retoma uma atmosfera mais intensa ao abordar a figura histórica do guerreiro africano que chegou ao Japão, transformando sua trajetória em ponto de partida para falar sobre deslocamento, identidade e resistência. “Sic Mundus” segue por um caminho mais atmosférico, trabalhando tensão e repetição para criar uma sensação quase hipnótica antes de “Punhos Cerrados” fechar o álbum com toda a energia do trio. Charles conduz as guitarras com riffs secos e encorpados, Chaene sustenta boa parte da personalidade rítmica do disco e Pancho mantém tudo em movimento com uma bateria precisa, pesada e dinâmica. A química entre os três continua sendo um dos grandes diferenciais do Black Pantera, principalmente porque cada instrumento possui espaço suficiente para aparecer sem quebrar a unidade das músicas.

A produção de Rafael Ramos ajuda a organizar toda essa variedade. Gravado no Estúdio Tambor, no Rio de Janeiro, Continental possui uma sonoridade forte, moderna e suficientemente aberta para que baixo, guitarra e bateria sejam percebidos com clareza. A mixagem de Leo Ramos, realizada no Estúdio Estábulo, preserva a pressão do trio sem transformar as faixas em uma parede sonora. O baixo de Chaene aparece com presença, as guitarras de Charles carregam boa parte da agressividade e a bateria de Pancho mantém impacto mesmo nos momentos em que os arranjos ficam mais contidos. A masterização ficou por conta de Fernando Delgado, no FD Mastering, enquanto “Hórus” recebeu masterização de Chris Gehringer, no Sterling Sound. As participações especiais também foram bem utilizadas. Duquesa, Sandra Sá, Derrick Green e Chico César não aparecem simplesmente para acrescentar nomes ao repertório, mas ajudam a ampliar o sentido das músicas. Por trás das letras, o disco trabalha memória, identidade, racismo, ancestralidade, deslocamento e resistência. “Negusa Nagast” e “Yasuke” recuperam histórias negras, “Banzo” mergulha em uma memória dolorosa e “Quando Canto” transforma a música em afirmação. Já “Punhos Cerrados” resume a postura de enfrentamento que atravessa o álbum. As letras caminham junto dos riffs, do baixo e da bateria, fazendo com que o peso de Continental não esteja apenas no som, mas também naquilo que cada faixa carrega e provoca.

A própria capa acompanha esse conceito. Criada pelo artista Bee7boy/Ramon Álvaro, apresenta uma menina de costas segurando uma pequena embarcação, enquanto um pássaro aparece próximo ao seu ouvido. É uma imagem simples, mas carregada de possibilidades, dialogando com a ideia de travessia, memória, futuro e ancestralidade que atravessa as músicas. Continental é um álbum sobre movimento. Sobre atravessar distâncias. Sobre carregar histórias e, ao mesmo tempo, continuar caminhando. O Black Pantera mantém o peso construído ao longo de sua trajetória, mas amplia o campo de ação sem perder a contundência. Hardcore, metal, punk, groove, rap, soul e elementos da música brasileira convivem de maneira natural, sem transformar a diversidade em enfeite. Cada faixa possui sua própria personalidade, mas todas pertencem ao mesmo universo. É um disco que funciona tanto pela força sonora quanto pelo que existe por trás dela. Continental mostra uma banda madura, consciente de sua história e ainda disposta a experimentar. Um trabalho pesado, inquieto e essencialmente brasileiro, daqueles que terminam e deixam vontade de apertar o play novamente.

Tracklist:
1. Continental
2. Serotonina
3. Hórus
4. Quando Canto
5. Velho Jeans Rasgado
6. Negusa Nagast
7. Start The Game
8. Obsoleto
9. W.P.P.
10. Banzo
11. Yasuke
12. Sic Mundus
13. Punhos Cerrados

Line-up:
Charles Gama — guitarra, vocais.
Chaene da Gama — baixo, vocais.
Rodrigo “Pancho” — bateria.

Participações especiais:
Duquesa — participação em “Serotonina”.
Sandra Sá — participação em “Quando Canto”.
Derrick Green — participação em “Obsoleto”.
Chico César — participação em “Banzo”.

Contatos: Instagram | Spotify | YouTube 

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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