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ENTREVISTA – Midgard

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Entre as sombras do heavy doom metal, a resistência do underground e os novos caminhos de uma história que não terminou

Formada em 1999, a Midgard construiu uma trajetória marcada pela força do heavy doom metal, por períodos de afastamento, mudanças de formação e pela persistência em manter viva uma identidade artística própria. Das primeiras demos ao álbum From Ashes…, passando pelo aclamado Verdugos e pelo EP Echo Fractum, a banda segue escrevendo sua história no underground brasileiro.

Nesta entrevista exclusiva ao Cangaço Rock, Paula Jabur fala sobre os primeiros anos da Midgard, os bastidores de sua trajetória, a experiência de assumir os vocais principais, a profundidade temática das composições, os trabalhos já lançados, os desafios de manter uma banda independente e as perspectivas para o futuro.

CR: Paula, a Midgard surgiu em 1999, quando o metal underground brasileiro enfrentava uma realidade bastante diferente da atual, especialmente em termos de divulgação, produção e distribuição. Olhando para o início da banda, quais foram as principais motivações para construir esse projeto e como você avalia a importância daqueles primeiros anos para a identidade que a Midgard possui hoje?
Paula Jabur: A Midgard foi fundada pelo meu ex-marido, Kleber Perini, baixista, que sempre quis ter um projeto de heavy doom metal e ainda não tinha tido a oportunidade. Na época, o nosso ex-vocalista, F.L.Y., tinha acabado de sair da banda em que estava, e ficaram muito amigos, viabilizando o nascimento da banda e o embrião da sua identidade, que é algo em constante desenvolvimento. Assim que ouvi as primeiras composições, “Last Sanctuary” e “Self Liberty”, reconheci a originalidade e o potencial do som e resolvi investir para que tudo tivesse qualidade e viabilidade desde o início, assumindo a banda como produtora fonográfica e assessora de imprensa. Numa época em que não havia internet para divulgar seu trabalho, isso provou ser fundamental, pois atraiu atenção para a sonoridade da banda já nas primeiras demos, que foram divulgadas em mais de 16 países.

CR: As demos Midgard (1999), Self Liberty (2000) e Lamúria (2001) representam os primeiros registros de uma trajetória que atravessou diferentes períodos da cena metálica brasileira. Que lembranças você guarda dessa fase, tanto em relação ao processo de composição quanto à recepção do público e da imprensa especializada? Existe alguma música desse período que você considera particularmente representativa do espírito original da banda?
Paula Jabur: O processo de composição era bastante vertical entre o Kleber e o F.L.Y., mas sempre com participação dos demais músicos, que eram livres para contribuir com seus arranjos sobre os esqueletos principais das músicas. As três demos iniciais contêm faixas equilibradamente compostas tanto por um quanto pelo outro, sendo “Last Sanctuary” e “Pearls To The Pigs” do F.L.Y. e “Self Liberty” e “The Dark Feeling of Sadness” do Kleber, e “Midnight Rainbow”, do Kleber, com letra do F.L.Y. Dessas, definitivamente, “The Dark Feeling of Sadness” é a canção mais emblemática da Midgard. Eu tenho excelentes lembranças dessa época em termos de recepção da imprensa especializada, pois essas demos receberam as melhores resenhas possíveis em todos os veículos onde foram publicadas – infelizmente, a grande maioria dos registros foi perdida ao longo dos anos. A recepção do público também sempre foi muito boa, apesar de os shows da época não serem frequentes, e era muito legal receber cartas vindas de diversos países.

CR: Em 2001, a Midgard teve a oportunidade de abrir para o Helloween durante a turnê The Dark Ride, em Catanduva, uma experiência significativa para uma banda que ainda estava consolidando seu espaço. Que impacto aquele show teve na trajetória do grupo? E como você compara as oportunidades oferecidas à música pesada brasileira naquela época com as possibilidades existentes atualmente?
Paula Jabur: Realmente foi muito significativo e chega a ser engraçado às vezes porque… uma banda heavy doom abriu para o Helloween, né? (rs). Outro dia, numa rodinha, comentaram, e um cara pensou que era o Helloween cover (rs). Foi muito impactante, com toda a certeza. Era um mar de gente no local e foi uma excelente oportunidade para a banda. Quem era da região e não conhecia passou a conhecer. Eu acho que, naquela época, por ter muito menos oferta de shows, tinha muito mais público concentrado nos eventos, tanto underground quanto de bandas maiores. Mas não dá para reclamar da intensa e constante ocorrência de atrações e eventos atuais: é muita oportunidade tanto para o público quanto para as bandas que têm a sorte de serem convidadas para participar junto, mas tem esse problema dos confrontos de data e enxugada de público.

CR: O álbum From Ashes…, lançado em 2005, marcou a estreia oficial da Midgard em formato de longa duração, reunindo composições próprias, participações especiais e uma versão de “Solitude”, clássico do Candlemass. Como você enxerga esse disco dentro da evolução musical da banda? Há aspectos de sua sonoridade, de suas letras ou de sua produção que você considera especialmente importantes para compreender o caminho que a Midgard percorreu até chegar a Verdugos?
Paula Jabur: O “From” é um parêntese na história da Midgard porque ele é completamente diferente das demos e do Verdugos. Ele é mais visceral, com uma temática que aborda temas fora do usual da banda, que normalmente trata de assuntos de reflexão da condição humana e da alma, espiritualidade sem dogma e afins. O From tem temas assim, porém um pouco de romance e crítica social acirrada, tudo junto na mesma caixa. A sonoridade é mais agressiva, e o que é doom é bem doom. Não há nada dele no futuro da banda com a atual formação, mas ele tem sua importância histórica porque foi o representante do ápice da banda antes do hiato. O lançamento dele marcou o período de shows mais extenso que já tivemos, e houve uma grande difusão do nosso som. Porém, tentar compreender a Midgard através do “From Ashes…” não seria possível, pois é bem distinto. Até as duas músicas dele que tocamos ao vivo, “Power Machine” e “Echoes In Eternity”, foram rearranjadas para o estilo atual, com a anuência tanto do Kleber quanto do Rafael Bianzeno, seus compositores.

CR: A história da Midgard também é marcada por mudanças de formação, períodos de afastamento e dificuldades relacionadas à distância geográfica entre os integrantes. Ainda assim, a banda conseguiu retomar suas atividades e recuperar parte de sua conexão com as origens. O que manteve esse projeto vivo durante os períodos mais difíceis? Em algum momento você chegou a pensar que a história da Midgard havia chegado definitivamente ao fim?
Paula Jabur: Durante o hiato, houve uma tentativa de fazer uma fusão entre as duas formações – do “Lamúria” e do “From Ashes…” – que ainda conseguiriam se deslocar para um ponto em comum, e chegou até a ter ensaio, mas, no final, não deu certo. A partir daquele ponto, eu não achei que seria viável tentar novamente. Mas, um dia, num churrasco, um amigo começou a falar da banda, sobre como eu deveria tentar de novo, e eu pensei que não era má ideia, porque é como amor de mãe para mim (rs). E deu certo…

CR: Sua participação na Midgard começou muito antes de você assumir uma posição central nos vocais. Além de atuar na gestão e na produção da banda, você contribuiu com letras, teclados e backing vocals. Como foi essa transição dos bastidores para uma participação artística cada vez mais direta? Você acredita que sua experiência administrativa influenciou a maneira como enxerga a construção musical e as decisões criativas do grupo?
Paula Jabur: Eu nunca me imaginei na banda. Se você me colocar numa máquina do tempo e voltar pra me contar que eu sou vocalista da Midgard, eu vou rir muito. A primeira vez que eu cantei músicas da banda foi em estúdio, para fazer as guias de voz pro Ronaldo Simolla, no “From Ashes…” – todo mundo que estava no estúdio riu! Olha agora… (rs). Como parte da formação, minha entrada na banda aconteceu a partir de uma iniciativa do F.L.Y., inicialmente me convidando como backing vocal no single “Crying At The Party”.. Às vezes ele faltava no ensaio e eu cobria; às vezes, no ensaio, eu fazia outros backings ou partes de música. E, organicamente, aconteceu de eu passar a dividir vozes com ele e com o Omar, e gravar o “Verdugos” e o “Echo Fractum” foi muito espontâneo e natural. Eu acho que as minhas funções à frente da banda influenciam sem castrar a criatividade. Raramente aconteceu uma rejeição de ideia, porque os membros sabem exatamente o que fazer por serem envolvidos com o projeto de modo diário.

CR: Em novembro de 2024, a Midgard lançou Verdugos, álbum que ampliou a visibilidade da banda e recebeu reconhecimento da imprensa especializada. O disco reúne diferentes momentos de sua história, equilibrando composições mais antigas e material desenvolvido posteriormente. Qual foi o conceito que orientou essa obra e como vocês trabalharam para preservar a identidade histórica da Midgard sem transformar o álbum em uma simples retrospectiva? Entre as nove faixas, quais você considera essenciais para compreender a mensagem do disco?
Paula Jabur: Nós achamos importante ter as faixas que eram das demos, em sua maioria, gravadas com maior fidelidade e arranjos mais desenvolvidos, mesmo repetindo algumas presentes no “From Ashes…”, porque seria o que teria sido gravado se ele não existisse. Outras faixas, como “Wild Walkers” e “Psy-code-Hellika”, também datam do período logo após as demos e já tinham sido compostas. Novas mesmo: “Another Day”, “Silent Song” e “Nocturnal Storm”. Eu não conseguiria citar faixas essenciais. Eu acho que ele precisa ser ouvido do início ao fim porque nada nele se repete: é uma montanha-russa emocional.

CR: Em julho de 2025, vocês lançaram o EP Echo Fractum, que revisita “The Dark Feeling of Sadness”, apresenta “When Darkness Falls” e presta homenagem ao Kreator com “Black Sunrise”. O trabalho apresenta uma abordagem atmosférica, com teclados e vocais femininos, além de participações especiais. O que motivou a escolha dessas três faixas para compor o EP? Como foi trabalhar com Alex Voorhees e Ronaldo Simolla em “When Darkness Falls”, especialmente na construção de uma música que aborda a libertação das amarras da depressão e a possibilidade de reencontrar a esperança?
Paula Jabur: Enquanto o “Verdugos” é fantástico em sua diversidade, eu queria que o “Echo Fractum” fosse um retorno às raízes da banda porque, acima de tudo, somos uma banda de heavy doom com um legado dentro do estilo. Ao escolher as faixas, nós queríamos mostrar a versão da “The Dark Feeling…” comigo dividindo vocais. Ela é a música que sempre foi e será revisitada por trazer todas as características fundamentais do gênero. A “When Darkness Falls…” estava pronta e aguardando uma oportunidade de ser lançada. Trabalhar com o Alex e com o Ronaldo após tantos anos foi maravilhoso e dividir palco com o Alex foi muito especial para nós. A Black Sunrise tinha que, eventualmente, ser gravada pois sempre esteve nos shows, desde o início da banda.

CR: Em setembro de 2025, a saída de F.L.Y. marcou uma nova mudança na história da Midgard. A partir desse momento, você passou a assumir a maior parte dos vocais principais, incluindo interpretações mais extremas, ao lado de Omar Rezende. Como você recebeu esse desafio e quais foram as principais dificuldades encontradas nessa adaptação? Essa nova configuração vocal alterou a maneira de compor, escrever letras ou imaginar os próximos lançamentos da banda?
Paula Jabur: Eu recebi com imenso choque (rs): foi absolutamente inesperado para todos nós. Era outubro quando resolvemos como prosseguir, tínhamos a turnê com o Robert Lowe em abril e nem eu e nem ninguém na banda tinha feito guturais na vida. Eu tive treinos por cerca de três meses com a May Puertas. Foi complicado porque eu tinha que viajar até ela com frequência e é uma boa distância. Precisei reaprender a maneira de cantar, com a incrível Meiri Brito. Eu fiz todo o possível para que os arranjos não fossem adaptados, mas, definitivamente, as novas composições estão adequadas para a minha voz e a voz do Omar. E tenho escrito a maioria das letras até o momento e imagino que nossos futuros lançamentos serão bem interessantes.

CR: O doom metal carrega uma relação muito particular com o tempo, a melancolia, a introspecção e as experiências humanas mais difíceis. Nas composições da Midgard, essas características aparecem em diferentes intensidades, sem impedir que também exista espaço para a esperança e a superação. Como você trabalha as letras e transforma sentimentos, inquietações e experiências em música? Até que ponto acredita que o metal pode funcionar como uma forma de enfrentamento das dificuldades pessoais e sociais?
Paula Jabur: As minhas letras partem de experiências vividas e observadas, melancolias, coisas que me acordam durante a madrugada e me fazem anotar frases. Muitas vezes, um trecho de poema lido em algum lugar desenvolve toda uma linha de pensamento que vira letra, ou o imaginário sobre a situação de alguém. Dessa maneira, querendo ou não, você acaba escrevendo algo que vai tocar o outro, que vai fazer sentido para o momento dele e, espero eu, talvez trazer um alento ou, ao menos, a noção de que há mais alguém que sente o mesmo e entende… E isso é válido para as composições de qualquer pessoa, e o metal está cheio de temas muito importantes e emotivos que ajudam, sim, muita gente a aguentar mais um dia difícil.

CR: Em 2024, a Midgard participou da turnê latino-americana do Cobra Spell e, em 2026, integrou a programação brasileira da turnê de Robert Lowe, nome historicamente associado ao Solitude Aeturnus e ao Candlemass. Que significado essas experiências tiveram para a banda? Como é dividir o palco com artistas ligados à história do heavy metal e do doom metal, e quais são os principais objetivos da Midgard em relação a novos shows, festivais e possíveis apresentações fora do Brasil?
Paula Jabur: Além do Cobra Spell, participamos também com Leather Leone, e foi uma grande felicidade poder ter a oportunidade de participar desses eventos. Poder conhecer a Leather, uma pessoa da mais extrema importância na representatividade feminina dentro do metal, foi uma honra imensa para mim. Já a turnê com o Robert Lowe eu nem tenho como expressar direito o significado e a importância, pois seria pouco – simplesmente inenarrável ser banda convidada de um artista que influenciou tanto sua banda. Foi um imenso reconhecimento. Nosso objetivo atual é terminar de compor o próximo álbum para lançamento, talvez no primeiro semestre de 2027. Estamos com agenda de shows aberta para o Brasil, mas não temos planos para o exterior no momento, devido às agendas de trabalho dos membros.

CR: Para encerrar, a Midgard chega a este momento com uma trajetória que atravessa mais de duas décadas, uma formação renovada e dois trabalhos recentes que reafirmam sua relevância no underground. O que os fãs podem esperar dos próximos capítulos da banda? Já existem composições inéditas, ideias para um novo álbum ou planos para lançar singles e videoclipes? Sem comprometer aquilo que ainda precisa permanecer em segredo, você pode adiantar alguma novidade sobre os próximos lançamentos e revelar quais são as principais metas da Midgard para os próximos anos? E que mensagem deixaria para quem acompanha a banda desde as primeiras demos e para quem está descobrindo sua música agora?
Paula: Nós temos novas composições em fase de ensaio e arranjos, além de um tributo a ser gravado com participação especial da Hegle, da banda Tempusvernum. Agora, em outubro, será lançada uma regravação de “Black Sunrise”, com novo arranjo, para um tributo ao Kreator da Antichrist Magazine. Na sequência, lançaremos o EP “Dark Sunrise”, que incluirá, além da “Black Sunrise”, a versão de “The Dark Feeling of Sadness” com meus vocais. Possivelmente vem um videoclipe por aí… ou dois. Eu diria para quem acompanha a banda o meu muito obrigado e que não perca a oportunidade de nos ver ao vivo! Coloque nosso som em sua playlist, mostre para os amigos. Let there be doom!

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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