Início Resenhas Darkthrone – Pre-Historic Metal (2026)

Darkthrone – Pre-Historic Metal (2026)

39
0

Após mais de três décadas de carreira, o Darkthrone continua desafiando expectativas. Se durante os anos 1990 Fenriz e Nocturno Culto ajudaram a definir os rumos do black metal com clássicos absolutos como A Blaze in the Northern Sky, Under a Funeral Moon e Transilvanian Hunger, hoje a dupla parece seguir um caminho completamente diferente: reverenciar as origens mais primitivas do heavy metal sem perder sua identidade.

Em Pre-Historic Metal, vigésimo primeiro álbum de estúdio da banda norueguesa, o duo aprofunda ainda mais a proposta desenvolvida nos últimos anos. Aqui não há preocupação em soar moderno ou acompanhar tendências. O disco é uma verdadeira declaração de amor ao heavy metal obscuro dos anos 70 e 80, ao doom tradicional, ao speed metal e ao punk que moldaram a formação musical de Fenriz e Nocturno Culto.

O resultado é um trabalho que soa familiar e ao mesmo tempo extremamente autêntico. Diferente de muitos grupos veteranos que vivem de repetir fórmulas antigas, o Darkthrone utiliza suas influências como ferramenta criativa, construindo um álbum que possui personalidade própria.

A abertura com “They Found One Of My Graves” já deixa claro que o grupo está em excelente forma. Os riffs carregados e a atmosfera soturna remetem ao Celtic Frost e ao Candlemass, enquanto os vocais ásperos reforçam a sensação de decadência que percorre toda a composição. É uma introdução forte e envolvente.

Na sequência surge a faixa-título, “Pre-Historic Metal”, talvez a música que melhor represente o conceito do álbum. A composição reúne peso, agressividade e aquele senso de espontaneidade que sempre diferenciou o Darkthrone. O riff principal é daqueles que permanecem na cabeça muito tempo após o término da audição.

“Siberian Thaw” aparece como um dos grandes destaques do trabalho. Mais longa e elaborada, a música alterna momentos épicos e passagens mais densas, demonstrando a capacidade da banda de desenvolver atmosferas sem perder o foco nos riffs. É facilmente uma das melhores composições lançadas pelo grupo nesta fase mais recente.

Em “Deeply Rooted”, o doom metal assume protagonismo. O andamento arrastado cria uma sensação quase ritualística, revelando o quanto Fenriz e Nocturno Culto continuam explorando novas possibilidades dentro de elementos extremamente tradicionais.

O peso retorna de forma esmagadora em “The Dry Wells Of Hell”, uma faixa construída sobre riffs massivos e uma atmosfera sufocante. Não há pressa aqui; cada nota parece cuidadosamente posicionada para maximizar o impacto da composição.

“I Marched To The Sunken Empire” talvez seja o momento menos marcante do álbum. Ainda assim, está longe de comprometer o resultado final. Funciona como uma espécie de respiro antes da reta final e mantém o elevado padrão de composição apresentado ao longo do disco.

“Eat Eat Eat Your Pride” traz uma energia quase punk, lembrando alguns momentos da fase F.O.A.D. e The Cult Is Alive. Direta, agressiva e divertida, mostra que o Darkthrone continua capaz de equilibrar seriedade e irreverência.

Encerrando o álbum, “Eon 4” aposta em uma abordagem mais atmosférica e contemplativa. É um final apropriado para uma obra que busca conectar passado e presente, tradição e renovação.

O grande mérito de Pre-Historic Metal está justamente na forma como o Darkthrone transforma suas referências em algo vivo. O álbum dialoga constantemente com Black Sabbath, Motörhead, Celtic Frost, Bathory e toda a primeira geração do metal extremo, mas jamais soa como uma simples homenagem. Existe personalidade em cada riff, em cada escolha de produção e em cada arranjo.

Comparado ao excelente It Beckons Us All (2024), este novo trabalho apresenta uma abordagem mais direta e pesada. Talvez possua menos momentos épicos, mas compensa com uma coleção de composições extremamente sólidas e inspiradas.

Mais do que um exercício de nostalgia, Pre-Historic Metal reafirma a capacidade do Darkthrone de permanecer relevante sem abandonar suas convicções artísticas. Poucas bandas conseguem envelhecer com tamanha dignidade e criatividade.

 

Tracklist
1. They Found One of My Graves
2. Pre-Historic Metal
3. Siberian Thaw
4. Deeply Rooted
5. The Dry Wells of Hell
6. So I Marched to the Sunken Empire
7. Eat Eat Eat Your Pride
8. Eon 4

Line-up:
Fenriz — Bateria, vocais, guitarras e baixo.
Nocturno Culto — Vocais, guitarras e baixo.

Contatos: Instagram | Facebook | Spotify

Artigo anteriorTorture Squad divulga datas completas da turnê européia com Sepultura, Venom Inc. e Crypta
Próximo artigoHarxson divide palco com o Raven no Whisky a Go Go e celebra ótima recepção do EP “Can’t Kill Us”
Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui