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Isegrim – Isegrim (Reissue – 2026)

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Entre os inúmeros nomes obscuros que surgiram na cena alemã do black metal durante o final dos anos 1990, poucos carregam a mesma aura de culto e de obscuridade do Isegrim. Embora jamais tenha alcançado a notoriedade internacional de conterrâneos como Dark Fortress ou mesmo da veterana Mystic Circle, o projeto concebido por A. Blackwar representa uma manifestação genuína do black metal germânico mais tradicional, desprovido de concessões e profundamente ligado aos valores estéticos da segunda onda do gênero. Sua recente reativação, culminando na reedição do primeiro trabalho autointitulado em 2026, resgata uma peça esquecida da história do underground europeu.

Fundado em 1998, em Ludwigshafen, na Renânia-Palatinado, o Isegrim surgiu inicialmente como um projeto solo idealizado por A. Blackwar. Na época, o músico já transitava pelo circuito extremo alemão e posteriormente viria a integrar diversas formações, incluindo o Mystic Circle. O contexto em que o grupo nasceu era particularmente interessante. A Alemanha vivia uma efervescência do black metal nacional impulsionada por nomes como Ancient Ceremony, Nagelfar, Lunar Aurora e os próprios Mystic Circle. Diferentemente da cena norueguesa, cuja notoriedade havia sido marcada por episódios de violência e controvérsias, a escola alemã desenvolveu uma abordagem mais voltada para a agressividade musical e para a construção de atmosferas sombrias. O Isegrim encaixava-se precisamente nesse perfil.

O próprio nome da banda possui raízes históricas e simbólicas. “Isegrim” era o nome atribuído ao lobo nas fábulas medievais germânicas. Durante séculos, a tradição cristã associou o animal ao mal e à heresia. A. Blackwar reinterpretou esse simbolismo, invertendo a lógica tradicional: para ele, não era o lobo o verdadeiro mal, mas a própria humanidade. Essa visão constitui um dos elementos conceituais centrais de sua identidade artística, reafirmando a postura antitética e obscura que permeia toda a proposta do grupo.

Em janeiro de 1999, o músico lançou o primeiro registro da banda, uma mini-CD homônima composta por cinco faixas e pouco mais de vinte e cinco minutos de duração. O material foi gravado inteiramente por A. Blackwar e recebeu boa repercussão dentro do circuito underground, despertando expectativas em torno de um futuro álbum completo. Posteriormente, o projeto ganhou formação de banda para a composição de “Dominus Infernus Ushanas”, lançado em 2000. Entretanto, após o início dos anos 2000, o nome Isegrim mergulhou em um longo silêncio, permanecendo praticamente esquecido durante mais de duas décadas.

Foi apenas em 2026 que A. Blackwar decidiu ressuscitar a entidade. A Fireflash Records promoveu uma nova edição do trabalho original, disponibilizando-o pela primeira vez em vinil, em uma edição limitada a trezentas cópias na cor “Witchcraft Red”. Além do encarte de quatro páginas, o material acompanha cartão autografado e adesivo exclusivo da banda. O relançamento despertou interesse entre colecionadores e admiradores do black metal tradicional, recolocando em circulação um registro que por muito tempo permaneceu restrito aos círculos mais obscuros do underground.

No Brasil, a nova edição em CD de “Isegrim” chega através de uma parceria entre a Shinigami Records e a Fireflash Records, permitindo que os apreciadores nacionais tenham acesso a uma das mais obscuras joias do black metal alemão. Em um momento em que diversos registros esquecidos dos anos 1990 vêm sendo recuperados por selos especializados, a iniciativa representa uma importante contribuição para a preservação da memória histórica do metal extremo.

Musicalmente, “Isegrim” apresenta aquilo que se poderia definir como black metal em sua forma mais crua e tradicional. Não há teclados, passagens sinfônicas ou elementos góticos. A proposta é simples: guitarras cortantes, bateria veloz, vocais ásperos e uma atmosfera de permanente hostilidade. O resultado aproxima-se das primeiras obras do Mystic Circle e da escola germânica do final da década de 1990, privilegiando a agressividade e a obscuridade em detrimento de qualquer preocupação comercial.

A breve “In Nomine (Intro)”, com apenas quarenta segundos, cumpre a função de introduzir o ouvinte em um ambiente sombrio e ritualístico. Embora curta, sua presença reforça a atmosfera obscura que permeia todo o trabalho e prepara terreno para a violência sonora que se seguirá.

“Diabolical Witchcraft” constitui o verdadeiro início da experiência. Com mais de seis minutos de duração, a faixa apresenta todos os elementos característicos do grupo: riffs velozes, condução incessante e uma produção propositalmente áspera. A canção remete diretamente ao espírito da segunda onda do black metal, sobretudo ao período compreendido entre 1993 e 1996, quando a prioridade residia na criação de atmosferas opressivas e não na busca pela perfeição técnica.

A terceira composição, “Rape Jesus Christ”, é provavelmente a mais controversa do trabalho. Seu título provocativo insere-se dentro da tradição do black metal de utilizar imagens e referências antirreligiosas como forma de choque e contestação, algo recorrente em inúmeras bandas do gênero desde os anos 1980. Musicalmente, entretanto, a faixa se destaca pelo equilíbrio entre velocidade e momentos mais cadenciados, permitindo que os riffs adquiram maior peso e profundidade.

“Seven Legions” apresenta uma construção mais épica e revela uma banda capaz de ir além da simples brutalidade. Os riffs mostram-se mais elaborados, enquanto a atmosfera torna-se ainda mais densa. Em diversos momentos percebe-se uma aproximação com o black metal alemão praticado por grupos que buscavam combinar agressividade e senso melódico, ainda que de maneira discreta.

Encerrando a configuração original do lançamento, “Hear the Screams of Hell” surge como a composição mais representativa do conjunto. Seus mais de seis minutos sintetizam toda a proposta do Isegrim: velocidade, fúria e uma sonoridade absolutamente fiel aos princípios do black metal tradicional. A faixa transmite a sensação de encerramento perfeito para uma obra que jamais pretendeu ser acessível ou moderna.

A reedição de 2026, entretanto, não se limita a reproduzir o material originalmente lançado em 1999. O trabalho foi enriquecido com três faixas bônus provenientes do EP “Gloria Deo, Domino Inferi”, lançado em 2001. A inclusão desse material adicional amplia a importância histórica da edição e permite observar a evolução musical do projeto nos anos subsequentes. Entre as faixas acrescentadas encontra-se “Ave Luciferi (Intro)”, seguida pela poderosa “Angel With Fire And Sword” e por “Hail Emperor Caesar”, composições que evidenciam uma sonoridade ainda mais madura e agressiva.

O grande destaque entre os bônus é, sem dúvida, a releitura de “Bestial Invasion”, clássico absoluto do Destruction. A escolha da composição não é casual. O grupo de Schmier foi um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento do thrash metal alemão nos anos 1980 e exerceu profunda influência sobre toda a cena extrema do país. Ao reinterpretar essa música, A. Blackwar estabelece uma ponte entre duas gerações do metal alemão, homenageando uma das bandas que ajudaram a pavimentar o caminho para o surgimento do black metal germânico.

Ouvindo este trabalho mais de vinte e cinco anos após sua concepção original, percebe-se que seu valor histórico supera inclusive sua importância musical. “Isegrim” é um documento de uma época em que o underground extremo ainda era construído à margem da indústria, sustentado pela troca de fitas, fanzines e pequenas gravadoras independentes. Em uma era dominada por produções excessivamente polidas e algoritmos de streaming, a redescoberta deste registro funciona quase como uma viagem ao espírito mais autêntico do black metal dos anos 1990.

A reedição promovida em 2026 não representa apenas a recuperação de um EP obscuro. Trata-se da redescoberta de uma obra que sintetiza uma fase particular do black metal alemão, quando a agressividade, a simplicidade e a devoção ao underground constituíam valores inegociáveis. Para os estudiosos da história do metal extremo e para os apreciadores das manifestações mais tradicionais do gênero, “Isegrim” permanece como uma pequena, porém significativa, relíquia da escuridão germânica.

Tracklist:
1. In nomine (Intro)
2. Diabolical Witchcraft
3. Rape Jesus Christ
4. Seven Legions
5. Hear The Screams Of Hell
6. Ave Luciferi (Intro)
7. Hail Emperor Caesar
8. Bestial Invasion

Line-up:
A. Blackwar – Todos os instrumentos.

Gravadora: Shinigami Records / Fireflash Records.

Contatos: Facebook | Bandcamp

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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