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Funesto – Em Minha Penumbra (2026)

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Em Minha Penumbra

Em um cenário onde boa parte do Depressive Suicidal Black Metal oscila entre a repetição de fórmulas consagradas e a busca por excessos estéticos, o Funesto opta por um caminho mais honesto e introspectivo em “Em Minha Penumbra”. O novo trabalho do projeto brasileiro reafirma sua proposta artística através de uma abordagem profundamente atmosférica, sustentada por sentimentos de isolamento, melancolia e contemplação da própria decadência emocional.

Desde os primeiros momentos, o álbum estabelece uma identidade sonora marcada por guitarras carregadas de reverberação e melodias que parecem se dissolver lentamente em meio à névoa sonora criada pela produção. Não se trata de um trabalho voltado para a agressividade constante ou para demonstrações técnicas. A força do Funesto está justamente na construção de ambientes densos, capazes de transportar o ouvinte para paisagens marcadas pela solidão e pelo esvaziamento existencial.

A curta introdução “Em Minha Penumbra” desempenha um papel fundamental na construção da atmosfera do EP. Em menos de um minuto, a faixa estabelece o clima sombrio e contemplativo que servirá de base para toda a experiência, funcionando como uma passagem de entrada para o universo melancólico proposto pelo projeto.

Os riffs seguem uma linha minimalista, porém eficiente. As repetições são utilizadas como ferramenta narrativa, reforçando a sensação de aprisionamento emocional que permeia toda a obra. Enquanto muitas bandas utilizam a velocidade como principal recurso expressivo, o Funesto prefere investir na permanência das emoções, permitindo que cada passagem se desenvolva lentamente e absorva o ouvinte por completo.

Os vocais surgem como um dos elementos mais impactantes do álbum. Distantes de qualquer preocupação com refinamento ou virtuosismo, assumem uma postura visceral e desesperada, funcionando como uma extensão natural das atmosferas construídas pelos instrumentos. Há uma sensação constante de sofrimento e desgaste na interpretação, aspecto que fortalece significativamente a autenticidade do trabalho.

“Desolation II” amplia essa proposta através de uma construção marcada por guitarras envolventes e uma atmosfera densa que remete aos momentos mais introspectivos do DSBM. A composição trabalha o sentimento de abandono sem recorrer a exageros, permitindo que a melancolia se desenvolva de forma gradual e consistente.

Faixas como “Lâminas Frias e Dor” e “Nas Frias Águas Onde Me Afoguei” demonstram a capacidade do projeto de transformar estruturas relativamente simples em experiências emocionalmente densas. As melodias carregadas de tristeza, combinadas com a produção nebulosa, criam momentos de grande imersão. Em especial, “Nas Frias Águas Onde Me Afoguei” apresenta algumas das passagens mais envolventes do EP, conduzindo o ouvinte por uma atmosfera marcada pela contemplação e pelo peso emocional. Já “Lâminas Frias e Dor” reforça a faceta mais dolorosa da obra, utilizando riffs melancólicos e vocais sofridos para construir uma experiência particularmente opressiva.

Um dos pontos mais interessantes do lançamento é sua coerência estética. Cada composição parece ocupar um espaço específico dentro da narrativa proposta pelo trabalho, contribuindo para uma experiência uniforme e consistente. Não há rupturas bruscas ou tentativas de desviar da atmosfera central. O álbum permanece fiel à sua essência do início ao fim.

Essa sensação se torna ainda mais evidente em “Em Minha Penumbra II”. Com duração superior às demais faixas, o encerramento funciona como a síntese de todos os elementos explorados ao longo do EP. As atmosferas se expandem de maneira gradual, permitindo que guitarras, vocais e ambiência se fundam em uma composição contemplativa que encerra o trabalho de forma coesa e emocionalmente impactante.

Ainda que apresente uma identidade sólida e coerente, “Em Minha Penumbra” aposta em uma construção atmosférica baseada na repetição e na imersão. Essa escolha pode afastar ouvintes que buscam mudanças bruscas de andamento ou estruturas mais complexas, mas funciona perfeitamente dentro da proposta do Funesto. Cada passagem parece concebida para prolongar sensações e aprofundar estados emocionais específicos, privilegiando a atmosfera em detrimento da dinâmica. Longe de representar uma fragilidade, essa característica reforça o compromisso do projeto com a essência mais contemplativa, melancólica e opressiva do Depressive Suicidal Black Metal.

Mais do que simplesmente reproduzir os elementos tradicionais do gênero, o Funesto demonstra compreender os fundamentos emocionais que sustentam o DSBM. O EP não busca inovação a qualquer custo, mas encontra personalidade na forma sincera com que desenvolve suas composições e transmite suas emoções.

Sombrio, sufocante e emocionalmente denso, “Em Minha Penumbra” reafirma o compromisso do Funesto com as vertentes mais introspectivas e melancólicas do Black Metal. Trata-se de uma obra que encontra força na atmosfera, na sinceridade de sua execução e na capacidade de transformar angústia em expressão artística, consolidando mais um capítulo relevante dentro do underground extremo brasileiro.

Tracklist
1. Em Minha Penumbra
2. Desolation II
3. Nas Frias Águas Onde Me Afoguei
4. Lâminas Frias e Dor
5. Em Minha Penumbra II

Line-up
Fúnebre — Vocais, guitarras, baixo, bateria e demais instrumentos

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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