Poucas bandas brasileiras carregam uma história tão longa, coerente e intransigente quanto a baiana Headhunter D.C.. Formada ainda nos anos 1980, em uma época em que o metal extremo nacional engatinhava, o grupo construiu sua reputação longe dos holofotes da indústria, transformando-se em uma verdadeira instituição do underground sul-americano. Em 2026, quando completa quarenta anos de atividade, a banda retorna com Rise of the Damned…, seu sexto álbum de estúdio e o primeiro trabalho completo em cerca de quatorze anos. O resultado não poderia ser mais fiel àquilo que o Headhunter D.C. sempre representou: Death Metal obscuro, blasfemo, hostil e absolutamente comprometido com suas raízes.
A primeira impressão causada pelo disco surge através de sua impactante arte de capa. Assinada por Marcos Miller, a ilustração apresenta um cenário infernal repleto de elementos apocalípticos, figuras condenadas e símbolos religiosos corrompidos. A composição estabelece imediatamente a atmosfera do álbum, funcionando como uma extensão visual daquilo que será ouvido ao longo de seus pouco mais de quarenta minutos. Em uma época dominada por artes digitais excessivamente polidas, a capa resgata a estética clássica dos grandes lançamentos de Death Metal e Black Metal, evocando um sentimento de decadência e profanação que combina perfeitamente com a proposta da banda.
Musicalmente, Rise of the Damned… demonstra um equilíbrio admirável entre tradição e personalidade. O Headhunter D.C. permanece fiel às bases do Death Metal clássico, mas sem soar preso ao passado. Os riffs são construídos sobre uma estrutura sólida, carregada de peso e agressividade, enquanto a bateria mantém uma dinâmica constante entre velocidade e impacto. Os vocais de Sérgio Baloff aparecem particularmente inspirados, despejando suas linhas com a autoridade de quem dedicou décadas ao metal extremo. Tudo isso é potencializado por uma produção orgânica, que privilegia a autenticidade em vez da limpeza excessiva encontrada em muitas gravações contemporâneas.
A abertura do álbum através da introdução “…40 Years’ Deathmarch” funciona como um ritual de convocação para aquilo que está por vir. Em seguida, “Unblessed by the Unsacred” apresenta imediatamente a identidade sonora do disco, combinando riffs cortantes, andamento intenso e uma atmosfera carregada de blasfêmia. A faixa estabelece o tom do álbum ao demonstrar que a banda não está interessada em reinventar sua fórmula, mas sim em aperfeiçoá-la através da experiência acumulada ao longo de quatro décadas de atividade.
Na sequência, “No Salvation from Above” e “Burn the Book of Lies” aprofundam ainda mais os temas centrais da obra. Ambas as músicas trabalham a rejeição de dogmas religiosos através de letras diretas e estruturas musicais extremamente eficientes. Os riffs mantêm uma abordagem agressiva, enquanto as mudanças de andamento ajudam a criar tensão e variedade. É nesse ponto que o álbum evidencia uma de suas maiores qualidades: a capacidade de permanecer brutal sem sacrificar a construção das composições, evitando que a violência sonora se transforme em mera repetição.
O clima sombrio continua com “Gospel of Doom” e alcança um dos momentos mais interessantes do álbum em “The Dysangelist”. Esta última apresenta uma abordagem particularmente inspirada, explorando conceitos que dialogam diretamente com a tradição anticristã presente na carreira da banda. A execução demonstra maturidade e confiança, permitindo que cada instrumento encontre espaço suficiente para contribuir com a construção da atmosfera opressiva que domina o trabalho.
“One Thousand Apocalypses” surge como uma verdadeira explosão de energia, concentrando agressividade e velocidade em uma composição que representa um dos pontos altos do disco. Logo depois, “Praeludium ad Ascensionem Haereticorum” funciona como uma passagem atmosférica que prepara o terreno para a reta final. Esses momentos revelam uma preocupação em criar uma experiência completa, onde a ordem das músicas desempenha papel fundamental na construção narrativa do álbum.
A faixa-título, “Rise of the Damned”, ocupa naturalmente uma posição central dentro da obra. Mais do que apenas emprestar seu nome ao disco, ela sintetiza os principais conceitos explorados ao longo do trabalho. A música apresenta uma combinação eficiente de peso, atmosfera e identidade, transformando-se em uma espécie de manifesto para tudo aquilo que o Headhunter D.C. representa. Sua construção transmite uma sensação de triunfo dos condenados, invertendo simbolicamente conceitos tradicionais de redenção e salvação.
Nos momentos finais, “Possessed, Obsessed” mantém o nível de intensidade elevado, conduzindo o álbum para um encerramento marcante através de “In Death Metal We Trust”. Com duração superior às demais faixas, a composição final funciona como uma declaração de princípios. Seu título não deixa dúvidas sobre a devoção da banda ao gênero que ajudou a construir no Brasil. É um encerramento que resume perfeitamente a filosofia do grupo: compromisso absoluto com o underground, rejeição às tendências passageiras e fidelidade à essência do Death Metal.
Além de suas qualidades musicais, Rise of the Damned… possui uma importância histórica significativa. Poucas bandas brasileiras conseguem alcançar quarenta anos de atividade mantendo uma identidade tão consistente. Ao longo de sua trajetória, o Headhunter D.C. atravessou mudanças de formação, transformações no mercado musical e diferentes fases da cena extrema mundial sem abandonar seus princípios. Este novo álbum demonstra que a banda continua relevante não por causa de seu passado, mas pela capacidade de produzir material competitivo e artisticamente sólido no presente.
No final das contas, Rise of the Damned… representa exatamente aquilo que se espera de uma lenda do underground extremo: um trabalho honesto, agressivo, sombrio e profundamente comprometido com sua própria visão artística. Sem concessões, sem modismos e sem qualquer preocupação em atender expectativas externas, o Headhunter D.C. entrega um álbum que honra sua história ao mesmo tempo em que reafirma sua vitalidade. Quarenta anos depois de sua fundação, a marcha continua, e ela permanece tão impiedosa quanto sempre foi.
Tracklist:
1. …40 Years’ Deathmarch (Intro)
2. Unblessed by the Unsacred
3. No Salvation from Above
4. Burn the Book of Lies
5. Gospel of Doom
6. The Dysangelist
7. One Thousand Apocalypses
8. Praeludium ad Ascensionem Haereticorum
9. Rise of the Damned
10. Possessed, Obsessed
11. In Death Metal We Trust
Line-up:
Sérgio Baloff – Vocais.
Danilo Coimbra – Guitarras.
Héracles Cardoso – Baixo.
Gravadora: Mutilation Productions








