Há discos que impressionam pela técnica, outros pela produção, e existem aqueles que conquistam pela honestidade. The Cycle of Fall, primeiro álbum do Brutal Reality, pertence justamente a essa última categoria. Sem recorrer a artifícios modernos ou buscar uma sonoridade excessivamente polida, o trio paulista entrega um trabalho que respira death metal em sua forma mais crua e direta, evidenciando a experiência acumulada ao longo dos anos e a paixão genuína pelo underground.
Com pouco mais de vinte e seis minutos de duração, o álbum reúne oito composições que se desenvolvem de maneira objetiva, sem espaço para excessos. Desde os primeiros acordes de “Mind Controller”, percebe-se que a proposta da banda está firmemente alicerçada na tradição do death metal clássico. Os riffs pesados, os vocais guturais e a bateria precisa conduzem o ouvinte por uma jornada que remete aos anos dourados do estilo, mas sem que isso soe como uma tentativa de mera reprodução do passado.
“Power of Blood” aparece como uma das faixas mais agressivas do disco, trazendo uma combinação eficiente entre velocidade e peso. Os riffs carregam aquele sabor característico do death metal norte-americano do início dos anos 1990, enquanto a seção rítmica demonstra grande entrosamento. A brutalidade continua em “The Real Enemy”, composição lançada anteriormente como single e que figura entre os momentos mais fortes do trabalho. A música apresenta uma estrutura sólida e um clima sombrio que reforça a identidade do grupo.
Em “Slave to Your Lies”, a banda aposta em uma abordagem mais direta, resultando em uma faixa curta, intensa e extremamente eficiente. Já “The Tormentor” revela um trabalho interessante nas mudanças de andamento, mostrando que o Brutal Reality sabe equilibrar momentos de velocidade com passagens mais cadenciadas. Essa característica também se faz presente em “The Fall”, uma das músicas mais pesadas do álbum, marcada por riffs carregados e uma atmosfera densa.
Mesmo as composições mais curtas, como “I’m Cornored”, cumprem seu papel sem parecerem descartáveis. Ao contrário, ajudam a manter a fluidez do disco e reforçam a sensação de que cada música foi colocada ali por uma razão. Encerrando o trabalho, “The White Curse” mantém o alto nível e deixa aquela impressão de que o álbum poderia facilmente ser mais longo.
As influências da velha escola são perceptíveis ao longo de toda a audição. Há ecos de nomes como Massacre, Benediction, Obituary e os primeiros trabalhos do Cannibal Corpse, mas felizmente o Brutal Reality evita cair na armadilha do simples exercício nostálgico. O trio utiliza essas referências como ponto de partida para construir um trabalho que possui personalidade e identidade próprias.
Outro aspecto que merece destaque é a produção. O som apresenta peso e definição suficientes para valorizar cada instrumento, mas sem sacrificar a agressividade característica do estilo. Tudo soa orgânico, sem exageros ou tratamentos excessivos, preservando aquela atmosfera típica das grandes gravações do death metal tradicional.
The Cycle of Fall talvez não tenha sido concebido para revolucionar o gênero, e nem precisava. Seu maior mérito está justamente em compreender a essência do death metal e executá-la com convicção. É um disco feito por quem conhece o caminho das pedras e entende que brutalidade, peso e boas composições continuam sendo os elementos mais importantes.
Em um cenário onde muitas bandas tentam se destacar pela complexidade ou por experimentações nem sempre necessárias, o Brutal Reality segue por outra direção. Aposta na força dos riffs, na agressividade e na honestidade de sua música. E é justamente essa simplicidade, aliada à competência do trio, que transforma The Cycle of Fall em uma estreia consistente e digna de atenção.
Mais do que um cartão de visitas, o álbum representa a consolidação de uma banda que demonstra respeito pelas raízes do death metal e que reafirma a vitalidade da cena extrema brasileira. Uma pedrada old school feita com sangue, suor e devoção ao underground, exatamente como manda a tradição.
Tracklist:
1. Mind Controller
2. Power of Blood
3. The Real Enemy
4. Slave to Your Lies
5. The Tormentor
6. The Fall
7. I’m Cornored
8. The White Curse
Line-up:
Danny Schneider – baixo.
Edilson Alves – bateria.
Julio Cesar – vocais e guitarras.
Gravadora: Impaled Records








