Início Resenhas Nebuloso – 1889 (2026)

Nebuloso – 1889 (2026)

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O underground continua sendo um terreno fértil para experiências que fogem dos modelos tradicionais, e 1889, estreia do projeto paulista Nebuloso, é uma dessas obras que chamam atenção justamente por seguir caminhos próprios. Em uma cena onde os vocais extremos costumam ocupar o centro das atenções, Rodrigo Ramos opta por eliminar completamente esse elemento, permitindo que os instrumentos assumam a responsabilidade de transmitir sensações, imagens e emoções. O resultado é um trabalho que encontra na atmosfera, na repetição hipnótica e na construção de ambientes seus principais pilares.

Dentro desse contexto, 1889 se insere no universo do Raw Black Metal sem fazer da agressividade constante o seu principal combustível. A proposta se mostra muito mais voltada à contemplação, erguendo paisagens sonoras envoltas em névoas, melancolia e uma permanente sensação de isolamento. A produção preserva a rusticidade característica do estilo, mas sem comprometer a compreensão dos arranjos, estabelecendo um equilíbrio interessante entre a crueza sonora e a necessidade de manter as melodias em evidência.

Grande parte da força do álbum reside justamente no trabalho das guitarras. Os riffs carregam forte apelo melódico e se desenvolvem através de repetições que acabam funcionando como verdadeiros mantras, permitindo que cada tema amadureça naturalmente ao longo da execução. Em alguns momentos, a sonoridade remete ao Black Metal atmosférico dos anos noventa, enquanto em outros aproxima-se do ambient e do dungeon synth, privilegiando a criação de atmosferas em detrimento do impacto imediato.

Ao longo da audição, algumas referências tornam-se perceptíveis. Certas passagens evocam a frieza e a sensação de isolamento encontradas em Paysage d’Hiver, enquanto a natureza contemplativa das composições e a dimensão existencial que permeia o álbum acabam dialogando com ideias associadas à filosofia de Friedrich Nietzsche. Ainda assim, Nebuloso apresenta personalidade suficiente para não soar como mera reprodução de influências já estabelecidas. Há uma identidade própria na maneira como Rodrigo Ramos desenvolve as harmonias e conduz os temas, permitindo que as composições apresentem uma atmosfera bastante singular.

Mais interessante ainda é a maneira como as músicas são estruturadas. Em vez de apostar em mudanças bruscas ou em demonstrações técnicas exageradas, Rodrigo Ramos faz da repetição uma ferramenta narrativa. Os temas são introduzidos gradualmente e evoluem de forma orgânica, permitindo que cada composição revele suas particularidades sem pressa. A sensação é de estar diante de um trabalho que privilegia a imersão em vez do impacto imediato.

Naturalmente, essa construção faz com que as guitarras assumam um papel quase narrativo. As linhas melódicas transitam entre momentos mais contemplativos e passagens de maior intensidade, criando um fluxo contínuo que impede a audição de se tornar monótona. Quando as distorções ganham mais força, elas surgem como uma extensão natural da atmosfera previamente estabelecida, reforçando a unidade presente em toda a obra.

Em segundo plano, os demais elementos cumprem funções igualmente importantes. O baixo aparece de maneira discreta, acrescentando profundidade às harmonias, enquanto a bateria programada alterna momentos mais cadenciados com passagens mais intensas. Sem recorrer a excessos ou virtuosismos desnecessários, ambos os elementos contribuem para sustentar a proposta contemplativa do trabalho.

Conforme o álbum avança, sua faceta mais melancólica torna-se ainda mais evidente. Guitarras limpas e acordes carregados de reverberação criam uma atmosfera nostálgica e introspectiva, ao passo que os momentos mais densos acrescentam dramaticidade ao conjunto e ampliam o alcance emocional das músicas. A alternância entre suavidade e aspereza é conduzida com naturalidade, demonstrando cuidado na elaboração dos arranjos.

Tal característica ajuda a explicar um dos maiores méritos de 1889: a capacidade de contar histórias sem recorrer às palavras. As melodias assumem uma função narrativa e conduzem o ouvinte por diferentes estados emocionais, alternando momentos de contemplação, solidão e intensidade. Cada faixa parece funcionar como um capítulo próprio, onde os sentimentos são expressos através dos timbres, das harmonias e das mudanças sutis de dinâmica.

Outro aspecto que merece destaque é a produção. Embora mantenha a estética crua associada ao Raw Black Metal, há espaço suficiente para que as diferentes camadas instrumentais sejam percebidas com clareza. As ambiências acrescentam profundidade ao conjunto, preservando o caráter subterrâneo que constitui uma das marcas do gênero e favorecendo a imersão proposta pelas composições.

Ao final da audição, fica evidente que 1889 não pretende impressionar pela velocidade ou pela complexidade técnica. Sua força está na construção de atmosferas e na capacidade de transportar o ouvinte para um universo próprio. Trata-se de um álbum que exige atenção e paciência, recompensando aqueles que se permitem mergulhar em seus detalhes e em sua construção gradual.

Como estreia, 1889 revela um projeto com identidade bem definida e demonstra que Nebuloso possui um caminho bastante interessante a percorrer dentro do underground nacional. Em um cenário frequentemente marcado pela repetição de fórmulas, a escolha por um Black Metal instrumental e essencialmente atmosférico acaba conferindo ao trabalho uma personalidade singular. Mais do que um simples exercício de estilo, o disco transforma sentimentos e paisagens imaginárias em música, encontrando justamente nessa capacidade de evocação uma de suas maiores virtudes.

Nebuloso entrega uma obra marcada pela paciência na construção das melodias e pela honestidade de sua proposta artística. Um trabalho que certamente encontrará ressonância entre apreciadores do Black Metal mais introspectivo e entre aqueles que enxergam na música um veículo para a contemplação e para a criação de paisagens sonoras capazes de transcender as palavras. Como cartão de visitas, 1889 evidencia uma identidade já bastante definida e demonstra que Rodrigo Ramos possui uma visão artística consistente, capaz de explorar os caminhos mais atmosféricos e contemplativos do gênero sem abrir mão de personalidade própria.

Tracklist:
1. O Batismo no Abismo
2. O Martelo sobre a Cruz
3. O Estilhaçar das Velhas Tábuas
4. O Eclipse dos Ídolos
5. O Transvalorecer a Ferro e Fogo
6. O Peso do Eterno Retorno
7. O Coroar do Vazio
8. O Crepúsculo da Alma

Line-up:
Nebuloso — todos os instrumentos.

Contatos: Instagram | Bandcamp | YouTube

 

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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