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Offal – Wide Crimson Eyes in the Dark (2026)

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O underground brasileiro continua provando, ano após ano, que ainda abriga bandas absolutamente comprometidas com a essência do death metal mais pútrido e visceral. Entre esses nomes está o Offal, veterano de Curitiba/PR, que desde 2003 mantém acesa a chama do death metal/goregrind old school com uma dedicação que poucos conseguem sustentar por tanto tempo. Formada originalmente sob o nome Orgy in Excrements e posteriormente rebatizada como Offal, a banda construiu uma discografia respeitável, sempre caminhando distante das tendências modernas e preservando uma identidade própria baseada na sujeira sonora, riffs cortantes, atmosfera mórbida e um culto permanente ao metal extremo da velha guarda. Ao longo de mais de duas décadas, o grupo lançou demos, splits, EPs e álbuns que conquistaram espaço dentro da cena underground mundial, tornando-se um nome bastante respeitado entre apreciadores do death metal mais cru.

Chegando agora através da Black Hole Productions, “Wide Crimson Eyes in the Dark” apresenta quatro composições inéditas gravadas originalmente em 2019 e finalmente disponibilizadas em formato oficial. Embora seja um EP relativamente curto, sua duração é suficiente para demonstrar que o Offal continua extremamente inspirado. Não há qualquer tentativa de modernizar a proposta da banda; pelo contrário, tudo aqui transpira autenticidade, desde a produção até a construção das músicas, entregando exatamente aquilo que os fãs do estilo esperam encontrar.

Logo na abertura, “Silent Night, Evil Sight” estabelece o clima do lançamento. A faixa começa com uma introdução sombria antes de mergulhar em uma sequência de riffs densos e extremamente bem encaixados. As guitarras de Tersis Zonato alternam momentos cadenciados com passagens mais rápidas sem perder peso em nenhum instante. O trabalho de bateria de Igor Thomaz merece destaque pelo equilíbrio entre velocidade e precisão, conduzindo a música com segurança sem transformar tudo em uma simples avalanche de blast beats. O baixo de João Carlos Ongaro permanece bastante presente na mixagem, preenchendo as frequências graves e contribuindo diretamente para a sensação de profundidade sonora. Sobre tudo isso surgem os vocais cavernosos de André Luiz, carregados de personalidade e perfeitamente integrados ao conceito da banda.

A faixa-título, “Wide Crimson Eyes in the Dark”, talvez seja o momento mais atmosférico do EP. Os riffs assumem uma característica mais obscura, explorando mudanças de andamento que tornam a composição dinâmica sem comprometer sua brutalidade. É justamente nessa música que fica evidente o cuidado da banda com os arranjos. Mesmo trabalhando dentro de uma estética extremamente tradicional, o Offal evita repetir fórmulas e constrói uma faixa que evolui naturalmente do início ao fim. Os solos aparecem de maneira pontual, privilegiando a criação de tensão ao invés do exibicionismo técnico.

“Horrific Damnation Of The Morbidly Obsessed Fiend” representa o lado mais agressivo do trabalho. A música despeja uma sequência praticamente ininterrupta de riffs cortantes, bateria intensa e vocais extremamente brutais. Ainda assim, a execução permanece limpa e muito bem sincronizada. A cozinha formada por baixo e bateria funciona como uma verdadeira muralha, sustentando toda a violência criada pelas guitarras. Mesmo nos momentos mais rápidos, é possível perceber pequenos detalhes de construção que enriquecem bastante a audição, revelando um grupo experiente e completamente seguro daquilo que pretende executar.

Encerrando o EP aparece uma excelente versão para “Death Dealer”, originalmente da lendária Slaughter. Muito mais do que simplesmente reproduzir a composição, o Offal consegue imprimir sua identidade sobre o clássico. O resultado mantém o espírito da música original enquanto incorpora naturalmente a sonoridade característica da banda. É uma homenagem feita por músicos que claramente conhecem e respeitam as raízes do death metal extremo.

Instrumentalmente, “Wide Crimson Eyes in the Dark” apresenta um nível bastante elevado. As guitarras trabalham constantemente com riffs inspirados, pesados e extremamente memoráveis dentro da proposta old school. Não existe excesso de virtuosismo nem preocupação em impressionar tecnicamente; toda a construção está voltada para criar impacto, peso e atmosfera. O baixo possui timbre encorpado e permanece audível durante praticamente toda a execução, algo cada vez mais raro em muitos lançamentos atuais do gênero. A bateria alia agressividade e controle, sabendo exatamente quando acelerar e quando diminuir o andamento para valorizar cada composição. Já André Luiz continua sendo um vocalista extremamente consistente, entregando interpretações carregadas de agressividade e mantendo a identidade do Offal intacta.

A produção também merece elogios. O som possui aspereza suficiente para preservar a essência underground da banda, mas apresenta definição capaz de permitir que todos os instrumentos sejam claramente percebidos. Nada soa artificial ou excessivamente comprimido. A mixagem encontra um equilíbrio muito interessante entre clareza e sujeira, enquanto a masterização mantém o impacto sem eliminar a dinâmica das músicas. O resultado final transmite exatamente aquela sensação orgânica que tantos apreciadores do death metal tradicional procuram.

Outro ponto forte é a arte de capa. Com forte inspiração no imaginário do horror clássico, ela dialoga perfeitamente com o conteúdo musical apresentado. A ilustração reforça toda a atmosfera obscura proposta pelo EP e funciona como uma extensão visual da experiência sonora, remetendo imediatamente ao universo mórbido que acompanha o Offal desde seus primeiros lançamentos.

Apesar da curta duração, “Wide Crimson Eyes in the Dark” entrega muito mais do que se espera de um EP. Em apenas quatro faixas, o Offal demonstra que continua inspirado e plenamente capaz de produzir um death metal intenso, consistente e fiel à sua proposta. Após mais de duas décadas de estrada, a banda segue mostrando uma criatividade admirável, sem se render a modismos ou descaracterizar a sonoridade que construiu sua identidade.

Este lançamento reforça a relevância do Offal dentro da cena extrema brasileira. Trata-se de um trabalho honesto, brutal e muito bem executado, que evidencia a maturidade do grupo e sua competência em manter vivo o espírito do death metal old school. Para os apreciadores do estilo, “Wide Crimson Eyes in the Dark” é uma audição praticamente obrigatória e mais uma prova de que o underground nacional continua pulsando com força, produzindo música extrema de altíssimo nível sem abrir mão de suas raízes.

Tracklist:
1. Silent Night, Evil Sight
2. Wide Crimson Eyes in the Dark
3. Horrific Damnation of the Morbidly Obsessed Fiend
4. Death Dealer (Slaughter cover)

Line-up:
André Luiz – Vocais
João Carlos Ongaro – Baixo.
Tersis Zonato – Guitarras, vocais (de apoio)
Igor Thomaz – Bateria.

Gravadora: Black Hole Productions

Contatos: Instagram | Facebook | Spotify | Bandcamp | YouTube

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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