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Ocultus Funerus – Invocando Encantos Ancestrais (2026)

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Mais de duas décadas de atividade no underground brasileiro não são suficientes para apagar a chama de uma banda que sempre preferiu caminhar pelas sombras. Formado em 2003, entre as cidades pernambucanas de Belo Jardim e Lajedo, o Ocultus Funerus construiu sua trajetória de maneira discreta, distante dos grandes holofotes, mas mantendo firme sua identidade baseada no black metal tradicional, permeado por atmosferas ocultistas, lirismo blasfemo e uma profunda devoção às manifestações mais sombrias do gênero. Com formação estável desde sua criação: Morthoned Specthron (vocais), Ijon Lord Mortus (guitarras) e Manthus Sabathan (bateria), o trio demonstra em Invocando Encantos Ancestrais que a persistência ainda é uma das maiores virtudes do metal extremo nacional. Atualmente, o grupo atua de forma independente, preservando sua autonomia artística.

Invocando Encantos Ancestrais apresenta um black metal que dialoga diretamente com as raízes mais tradicionais do estilo, sem recorrer ao excesso de experimentalismos. A proposta é clara desde os primeiros minutos: criar uma atmosfera ritualística, carregada de misticismo e obscuridade, onde cada composição funciona como parte de um único grande cerimonial. O álbum evita exageros técnicos e aposta justamente na construção de ambientes densos, conduzidos por riffs hipnóticos, melodias soturnas e uma dinâmica que alterna momentos contemplativos com explosões de agressividade.

As guitarras de Ijon Lord Mortus conduzem o álbum com riffs cortantes e passagens melódicas que preservam a atmosfera obscura do black metal, enquanto os solos aparecem de forma pontual, sempre a serviço das composições. A bateria de Manthus Sabathan alterna blast beats e mudanças de andamento com precisão, mantendo a dinâmica do disco, e os vocais rasgados de Morthoned Specthron completam o conjunto com intensidade e autenticidade, reforçando o caráter ritualístico que permeia toda a obra.

Cada faixa parece desempenhar uma função específica dentro da narrativa proposta pelo disco. Existem momentos de maior velocidade, sustentados por riffs diretos e bateria intensa, enquanto outras passagens desaceleram para privilegiar melodias mais sombrias e construções quase litúrgicas. Essa alternância mantém a audição envolvente, permitindo que o álbum desenvolva sua identidade de maneira gradual. As transições entre as músicas também contribuem para essa sensação de continuidade, fazendo com que Invocando Encantos Ancestrais seja apreciado preferencialmente como uma obra completa, e não apenas por faixas isoladas.

A produção respeita plenamente a essência do trabalho. Em vez de buscar uma sonoridade excessivamente limpa, opta por preservar certa rusticidade, característica que combina perfeitamente com a proposta artística do grupo. Ainda assim, há boa definição entre os instrumentos, permitindo distinguir as camadas de guitarra, o peso da bateria e a presença constante dos vocais. A mixagem mantém equilíbrio satisfatório, enquanto a masterização entrega volume consistente sem eliminar a dinâmica natural das composições.

A identidade visual do lançamento também merece atenção. A arte da capa dialoga diretamente com a temática desenvolvida ao longo do disco, evocando simbolismos ancestrais, ocultismo e elementos ritualísticos que reforçam a proposta conceitual da obra. Não funciona apenas como um elemento estético, mas como uma extensão da atmosfera construída pelas composições, preparando o ouvinte para a experiência antes mesmo da primeira faixa começar.

Mesmo permanecendo fiel às tradições do black metal, o Ocultus Funerus demonstra personalidade suficiente para evitar que o álbum soe apenas como um exercício de nostalgia. As influências do estilo aparecem de maneira natural, servindo como alicerce para uma obra que valoriza atmosfera, identidade e convicção artística acima de qualquer tendência passageira. A banda entende exatamente qual caminho deseja seguir e permanece coerente com essa visão durante toda a execução do disco.

Invocando Encantos Ancestrais representa mais um capítulo sólido na trajetória do Ocultus Funerus. É um trabalho voltado aos apreciadores do black metal tradicional, daqueles que valorizam atmosferas densas, riffs marcantes e uma abordagem honesta, construída sem concessões. O trio pernambucano demonstra que consistência, identidade e fidelidade à própria essência continuam sendo atributos capazes de manter vivo o espírito do underground brasileiro.

Tracklist:
1. Vastidão Terrestre
2. O Bestial Hino Profano
3. A Batalha Amaldiçoada da Morte
4. Ocultas Filosofias
5. Invocando Encantos Ancestrais
6. O Portal do Inferno

Line-up:
Manthus Sabathan – Bateria.
Ijon Lord Mortus – Guitarras
Morthoned Specthron – Vocais.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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