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ENTREVISTA – Cova Rasa

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Com uma trajetória construída sobre os alicerces do heavy metal tradicional, o Cova Rasa vem consolidando seu nome na cena brasileira por meio de composições marcantes, identidade própria e uma evolução constante a cada lançamento. Nesta entrevista exclusiva ao Cangaço Rock, a banda fala sobre sua história, o processo de composição, os desafios do underground, a repercussão de seus trabalhos mais recentes e os planos para o futuro, revelando detalhes que ajudam a compreender a essência de um dos nomes mais consistentes do metal nacional contemporâneo.

CR – Um ano após o lançamento de Another Time, a impressão é que o álbum envelheceu melhor do que muitos lançamentos recentes, especialmente em uma época em que discos são consumidos rapidamente e esquecidos em questão de semanas. Quando vocês observam a trajetória do álbum hoje, sentem que ele cumpriu aquilo que foi concebido artisticamente ou a recepção do público revelou dimensões que nem mesmo a banda previa?
Ivan Martins: Acredito que hoje, da forma como a música é consumida, o disco cumpriu bem seu papel. Acredito também que foi um trabalho de bases sólidas e consistente e que, ainda bem, agradou bastante gente.

CR – O Cova Rasa surgiu em um período em que boa parte da cena brasileira buscava tendências mais modernas, enquanto vocês optaram por caminhar na direção oposta, abraçando o heavy metal tradicional. Em algum momento houve pressão para adaptar a sonoridade às demandas do mercado ou a banda sempre encarou a fidelidade artística como algo inegociável?
Ivan Martins: Não houve, não. A banda tem aí desenvolvido, desde seu nascimento, esse DNA, por assim dizer, mas todos os integrantes têm diversas influências. Não acho que seja impossível você encontrar influências de outros estilos aqui ou ali dentro da sonoridade que a gente tem, mesmo a base do lance sendo um heavy metal mais tradicional, como foi citado. Mas, ao mesmo tempo, como foi dito, a fidelidade artística é inegociável na medida em que a banda se dá ao direito de se expressar artisticamente da forma que achar que deve, no momento que achar que deve.
Jayme Danko: Não que seja “inegociável”, mas a gente entende que existe um direcionamento no estilo do nosso som, embora essa bandeira do “tradicional” tenha sido alçada mais pelas pessoas de fora do que por nós mesmos. Na banda temos elementos de várias vertentes – Power, Prog, Hard Rock, etc.

CR – Jayme, sua trajetória como boxeador profissional é quase tão singular quanto a própria história da banda. O boxe é um esporte de resistência, disciplina, estratégia e sobrevivência. Até que ponto essa mentalidade moldou sua forma de compor, liderar o Cova Rasa e enfrentar as dificuldades inerentes à vida de uma banda de metal no Brasil?
Jayme Danko: Nunca analisei o quanto isso impactou, porque sempre considerei duas carreiras opostas quando se chega nos extremos. Ambas exigem disciplina e dedicação, mas, na maioria das vezes, em estilos de vida completamente diferentes.

CR – Os primeiros trabalhos do Cova Rasa foram cantados em português, algo relativamente raro dentro do heavy metal tradicional. A mudança para o inglês em Another Time ampliou as possibilidades internacionais da banda, mas também representou uma ruptura com uma característica importante da sua identidade. Houve receio de perder parte dessa personalidade no processo?
Jayme Danko: Houve receio, porque a receptividade em português foi muito boa. Mas o feedback em inglês também foi muito positivo.

CR – Grande parte das letras do Cova Rasa gira em torno da morte, do horror, de personagens obscuros, de eventos históricos e de narrativas que exploram os lados mais sombrios da experiência humana. O que existe nesses temas que continua despertando tanto interesse criativo? Eles funcionam apenas como entretenimento ou também servem como metáforas para questões mais profundas da condição humana?
Ivan Martins: Eu acredito que existe e sempre vai existir uma grande curiosidade do ser humano pelo desconhecido e, possivelmente, daí vem toda essa inspiração, seja para tentar entender eventos que não têm explicação, como a profundidade da mente humana. Nesse sentido, acho que as duas coisas se encontram. Sendo assim, acho que é um pouco de cada: tanto um entretenimento como também uma metáfora para essas questões profundas.
Jayme Danko: A morte sempre foi um tema que me despertou medo e curiosidade. Estou a minha vida inteira tentando compreender o mistério da existência. Temos crenças diferentes na banda em relação a isso, inclusive do ponto de vista religioso.

CR – O heavy metal sempre manteve uma relação íntima com a narrativa e a construção de atmosferas. Em Another Time, percebe-se um cuidado especial com a criação de imagens e cenários dentro das músicas. O que vem primeiro durante o processo criativo: a história que vocês desejam contar ou a música que acaba sugerindo uma determinada narrativa?
Jayme Danko: Não existe uma regra, mas, em geral, eu costumo compor a parte instrumental primeiro e depois escrevo em cima dela.

CR – A estreia de Ivan Martins no Cova Rasa chamou atenção não apenas pelo peso de seu histórico no Salário Mínimo, mas pela forma como sua interpretação ajudou a redefinir a identidade sonora da banda. Como foi equilibrar a herança de uma voz tão marcante com a necessidade de construir algo que soasse genuinamente como Cova Rasa e não como uma simples soma de currículos?
Jayme Danko: Na minha opinião, era tudo que a banda precisava. Eu não sou vocalista e detestava ter que desempenhar essa função e, com isso, pude ficar ainda mais livre para tocar guitarra, além de que ter um frontman com o carisma e experiência de Ivan somou muito.

CR – O álbum apresenta uma produção robusta, orgânica e distante das tendências excessivamente polidas que dominam parte do mercado atual. Em uma época em que muitos discos sacrificam personalidade em busca de perfeição técnica, vocês acreditam que o heavy metal perdeu parte de sua humanidade na produção contemporânea?
Caio Caruso: O nicho do metal tem subvertentes e, em algumas delas, realmente podemos ver que existe uma tendência a priorizar a técnica. Respeitamos quem busca esse estilo. Nossas referências são bandas clássicas de heavy metal dos anos 80, que é uma época em que se valorizavam muito mais riffs pesados e vocais imponentes, e tentamos buscar essa estética nas nossas músicas.
Ivan Martins: É possível que isso aconteça, sim, mas não acho que seja uma regra. Um bom trabalho musical nunca vai prescindir do músico, do fator humano, mesmo com as novas tecnologias de produção, de emulação de timbres e afins.

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CR – Depois de dividir palco com nomes consagrados como HammerFall e Rhapsody of Fire, quais diferenças vocês perceberam entre a realidade das bandas brasileiras e a estrutura disponível para artistas internacionais? O talento continua sendo o principal fator de crescimento ou hoje outros elementos pesam mais na balança?
Theo Machado: A experiência de dividir o palco com esses gigantes foi espetacular e marcante para mim e ficará para sempre na memória, mas os momentos pré-evento me fizeram degustar de uma realidade que eu já tinha conhecimento, mas nunca estive dentro. A falta da “relevância” para entregar números faz com que alguns lhe tratem com total desdém e falta de profissionalismo, faltando até com o mínimo de respeito e cuidados, como uma água, por exemplo, ou um obrigado depois de salvar uma noite. Já faz muitos anos que o lado da balança onde fica o talento nunca mais desceu. O peso dos números das redes sociais e os dígitos das nossas contas pesam muito mais e são extremamente importantes para quem vai fazer a “caridade” de te abrir espaço.
Ivan Martins: Como eu disse anteriormente, o fator humano é imprescindível, porém, há que se levar em conta os outros tantos fatores que precisam acontecer para que uma banda consiga alcançar uma maior audiência e tenha melhores condições, muitos deles, infelizmente, totalmente fora do controle das bandas.

CR – Existe uma sensação de que o underground brasileiro vive um paradoxo: nunca houve tantas ferramentas de divulgação disponíveis, mas ao mesmo tempo parece cada vez mais difícil criar uma conexão duradoura com o público. Como vocês enxergam essa contradição e quais desafios consideram mais preocupantes para as bandas que desejam construir uma carreira sólida atualmente?
Jayme Danko: Realmente, é contraditório. Ao mesmo tempo em que muita coisa se tornou mais fácil, outras parecem ter desaparecido. O maior desafio é ter um país que culturalmente não abraça nosso estilo de música. É muito nichado. Existe, sim, o público fiel, mas ele é muito pequeno, se tratando de um país continental onde outros estilos dominam mais de 90% do espaço e dos espectadores.

CR – A decisão de regravar Deadline integralmente em inglês levanta uma questão interessante. O objetivo é apresentar aquelas composições a uma nova audiência ou existe também um desejo de corrigir aspectos que, olhando em retrospecto, vocês acreditam que poderiam ter sido desenvolvidos de outra forma na gravação original?
Jayme Danko: A decisão é muito de corrigir aspectos que não foram pensados da melhor forma na época, pois tudo envolveu muita pressa. Na verdade, o álbum não será apenas regravado. Ele será refeito, repensado e reelaborado. É um outro conceito.

CR – Ao longo dos anos, o Cova Rasa construiu uma identidade muito própria sem se prender a modismos ou tendências passageiras. Em um cenário cada vez mais orientado por números, algoritmos e métricas de engajamento, vocês acreditam que ainda existe espaço para bandas que priorizam legado artístico acima da relevância instantânea?
Caio Caruso: O mercado dita tendências passageiras o tempo todo, mas acreditamos que, sendo fiéis às nossas referências, conseguiremos encontrar nosso espaço de forma permanente e relevante para os verdadeiros fãs de metal.

CR – Muitos músicos afirmam que o heavy metal vive em permanente estado de resistência cultural. Depois de quase uma década de existência, vocês enxergam o Cova Rasa como uma banda que está lutando para conquistar espaço dentro da cena ou como uma banda que já encontrou sua missão e seu lugar dentro dela?
Ivan Martins: Sem dúvida, na luta, sempre na luta. Eu creio que, embora a banda tenha avançado já de algumas formas, a gente acha que ainda tem terreno para ganhar, então seguimos aqui lutando.

CR – Se um jovem ouvinte descobrir Another Time daqui a vinte anos, quando todas as discussões atuais sobre redes sociais, plataformas digitais e tendências já tiverem ficado para trás, qual mensagem ou sentimento vocês gostariam que permanecesse vivo através desse álbum?
Jayme Danko: Queria que a música fizesse sentido e tocasse quem a escuta, independentemente do veículo que a levou.

CR – Para encerrar: quando a história do Cova Rasa for contada no futuro, qual vocês esperam que seja a principal contribuição da banda para o heavy metal brasileiro?
Ivan: Espero honestamente poder olhar para trás e sentir que fiz parte de um movimento que, para mim, foi e é parte pulsante da minha vida.
Jayme Danko: Eu sempre quis deixar um legado. Se a gente tem 1.000 fãs ou 100.000 fãs, o que importa é que a banda construiu algo e deixou uma marca.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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