A trajetória do LITOSTH consolidou o projeto como um dos nomes mais consistentes do black metal melódico brasileiro contemporâneo. Conduzido por Maicon Ristow e Wendel Siota, o grupo construiu sua identidade explorando a decadência da existência humana, o vazio, a introspecção e o colapso da consciência, sempre por meio de composições densas e carregadas de atmosfera. Em Dreaming, quarto trabalho de estúdio lançado em 24 de julho de 2026 pela Personal Records, essa proposta alcança um nível ainda mais refinado. A produção valoriza cada camada instrumental, oferecendo excelente definição sem comprometer a frieza característica do gênero. A mixagem encontra equilíbrio entre guitarras, teclados e vocais, enquanto a masterização preserva a dinâmica das composições, permitindo que cada passagem revele sua força de maneira natural. Complementando esse conjunto, a arte da capa sintetiza visualmente o sentimento de desolação e transcendência presente em toda a obra, funcionando como a porta de entrada para uma experiência sonora profundamente imersiva.
Desde os primeiros instantes, “Defy” estabelece a atmosfera do álbum com melodias melancólicas, guitarras cortantes e um trabalho de bateria que alterna explosões de velocidade com momentos mais cadenciados, construindo uma introdução intensa e carregada de dramaticidade. Em seguida, “Ruin” amplia essa sensação através de uma composição que investe em harmonias densas e mudanças de dinâmica muito bem executadas, enquanto “Eclipse” talvez represente um dos pontos mais expressivos do disco, desenvolvendo longas passagens instrumentais onde os elementos sinfônicos dialogam naturalmente com o peso do black metal melódico. O resultado é uma sequência inicial extremamente sólida, marcada por uma escrita musical madura e pela capacidade de envolver o ouvinte sem recorrer a excessos técnicos gratuitos.
A segunda metade do álbum mantém o mesmo nível de qualidade. “Abyss” trabalha uma atmosfera sufocante, conduzida por riffs carregados de tensão e linhas melódicas discretas que ampliam a sensação de vazio proposta pelo título. “Monolith” apresenta uma construção paciente, permitindo que cada instrumento encontre seu espaço antes de conduzir a música para momentos de maior intensidade. Já “Iconoclast”, uma das faixas mais extensas do trabalho, evidencia o cuidado da banda na elaboração das estruturas, alternando momentos agressivos com passagens contemplativas, criando uma narrativa musical rica e muito bem desenvolvida. Em “Nadir”, o LITOSTH investe em uma abordagem mais introspectiva, sustentada por melodias marcantes e uma ambientação quase hipnótica, preparando o terreno para “Golgota”, encerramento que reúne praticamente todos os elementos explorados ao longo do álbum e conclui a jornada de forma grandiosa e emocionalmente impactante.
Instrumentalmente, Dreaming demonstra um nível elevado de maturidade. As guitarras desenvolvem riffs consistentes e melodias que permanecem memoráveis mesmo em meio à densidade sonora, enquanto os teclados surgem sempre como elemento de ambientação, enriquecendo as composições sem sobrepor o peso das cordas. A bateria exibe precisão e excelente senso de dinâmica, transitando entre blast beats intensos e passagens mais cadenciadas que ampliam a dramaticidade das músicas. Os vocais mantêm a agressividade característica do black metal, mas conseguem transmitir emoção e profundidade, reforçando o conceito existencial do álbum. A interação entre os músicos revela um projeto seguro de sua identidade, capaz de equilibrar técnica, atmosfera e sentimento em proporções bastante naturais.
Dreaming reafirma o LITOSTH como um projeto que compreende plenamente sua proposta artística e sabe transformá-la em música de grande impacto. Sem abrir mão da essência do black metal, o grupo incorpora discretamente elementos melódicos e sinfônicos para construir uma experiência envolvente, sombria e emocionalmente intensa. O álbum apresenta uma narrativa coesa do início ao fim, onde cada faixa contribui para um conjunto sólido e muito bem estruturado. Trata-se de um lançamento que evidencia a evolução da banda e reforça a qualidade da cena extrema brasileira, entregando uma obra que privilegia tanto a força das composições quanto a imersão proporcionada por sua atmosfera cuidadosamente construída.
Tracklist:
1. Defy
2. Ruin
3. Eclipse
4. Abyss
5. Monolith
6. Iconoclast
7. Nadir
8. Golgota
Line-up:
Maicon Ristow – Todos os instrumentos.
Wendel Siota – Letrista.
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