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Opus Tenebrae – Ocean’s Rage (2026)

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Poucas bandas do underground nacional conseguem transformar identidade cultural e tradição em parte essencial de sua linguagem musical como o Opus Tenebrae. Surgido em 2003, na cidade de Santos (SP), o grupo construiu uma trajetória marcada pela união entre o black metal, elementos da música celta, medieval e do rico folclore galego, desenvolvendo uma sonoridade própria ao longo dos anos. Longe de soar como uma simples fusão de estilos, a banda consolidou uma proposta baseada na atmosfera, na ancestralidade e na força de suas narrativas, atravessando mudanças de formação, um longo intervalo entre lançamentos e até mesmo os desafios impostos pela pandemia. Todo esse percurso desemboca em “Ocean’s Rage”, segundo álbum de estúdio lançado de forma totalmente independente, reforçando o espírito artesanal do grupo. Produzido com dedicação em cada etapa e disponibilizado também em uma bela edição física em digipack, o trabalho evidencia o cuidado não apenas com a música, mas com a experiência completa oferecida ao ouvinte e ao colecionador.

Musicalmente, Ocean’s Rage apresenta uma sonoridade madura e extremamente bem equilibrada entre agressividade e riqueza melódica. As guitarras desenvolvem riffs consistentes e envolventes, alternando momentos de maior impacto com passagens carregadas de ambientação, enquanto a cozinha formada por baixo e bateria mantém firmeza, dinâmica e precisão durante toda a execução. A presença marcante da gaita de fole galega continua sendo um dos grandes diferenciais da banda, funcionando como parte integrante das composições e jamais como mero ornamento. Os vocais de Roberto Opus carregam a intensidade necessária para conduzir as narrativas, ao mesmo tempo em que os backing vocals ampliam a imponência dos refrães e das passagens épicas. A produção preserva a organicidade dos instrumentos, entregando uma mixagem limpa, onde cada elemento encontra seu espaço sem comprometer a atmosfera sombria que define o álbum, enquanto a masterização garante peso, clareza e excelente equilíbrio entre as frequências.

A abertura com “O Conxuro” funciona como um verdadeiro ritual de invocação, preparando o terreno para o universo conceitual do disco antes da explosão de “Ancient Akelarre”, que combina velocidade, melodias tradicionais e riffs vigorosos de maneira bastante natural. “Last Sight of a Dead Man” intensifica o caráter sombrio do álbum através de mudanças rítmicas bem construídas e linhas melódicas que ampliam sua dramaticidade. Em seguida, “A Compaña de Ánimas” mergulha profundamente no imaginário folclórico galego, conduzindo o ouvinte por uma atmosfera carregada de misticismo, onde os elementos folclóricos dialogam perfeitamente com a agressividade do metal extremo. Já a faixa-título, “Ocean’s Rage”, representa um dos momentos mais grandiosos do trabalho, desenvolvendo sua narrativa com excelente construção dinâmica, alternando peso, ambientações e melodias marcantes que evidenciam a maturidade composicional alcançada pelo grupo.

Na reta final, “Perperam Regnum” reforça o caráter épico do álbum através de riffs densos e uma execução extremamente coesa, preparando o caminho para “The Siren of Sálvora (The Horse’s Island)”, composição que explora com sensibilidade a atmosfera marítima presente no conceito do disco, equilibrando momentos contemplativos e explosões de intensidade. O encerramento fica por conta de “Negra Sombra”, adaptação de um dos mais conhecidos poemas galegos, transformado em uma conclusão melancólica, introspectiva e profundamente emocional, demonstrando que o Opus Tenebrae não se limita ao peso, mas também sabe explorar nuances e construir atmosferas carregadas de significado. Ao longo das oito faixas, percebe-se uma sequência muito bem estruturada, sem momentos de queda, onde cada composição contribui para fortalecer a identidade conceitual do álbum.

Visualmente, a arte de capa dialoga perfeitamente com a proposta musical ao evocar o oceano, a escuridão e os elementos mitológicos presentes nas composições, funcionando como uma extensão natural da experiência sonora. A opção por lançar uma edição física especial, acompanhada de pôster, encarte com letras e acabamento de alto padrão, reforça a preocupação da banda em valorizar o formato físico em tempos dominados pelo streaming. Ocean’s Rage é resultado de mais de duas décadas de persistência, evolução e fidelidade à própria identidade.

“Ocean’s Rage” deixa claro que autenticidade continua sendo um dos maiores patrimônios do underground. O Opus Tenebrae entrega um disco consistente, tecnicamente sólido e artisticamente honesto, reafirmando seu espaço entre os nomes mais autênticos do metal extremo nacional e provando que a dedicação à própria identidade continua produzindo obras de grande relevância.

Tracklist:
1. O conxuro
2. Ancient Akelarre
3. Last Sight of a Dead Man
4. A compaña de animas
5. Ocean’s Rage
6. Perperam Regnum
7. The Siren of Sálvora (The Horse’s Island)
8. Negra sombra

Line-up:
Marcelo Soutullo – Gaita de fole galega, vocais de apoio.
Alexi Ruiz – Guitarras.
Roberto Opus – Vocais, tambor celta.
Pedro Clark – Baixo, vocais de apoio.
Daniel Crivello – Guitarras, vocais de apoio.
Reginaldo Tavares – Bateria.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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