Início Brasil Epitaph – Digital Screams (2026)

Epitaph – Digital Screams (2026)

42
0

Atravessar mais de duas décadas de estrada sem abrir mão da própria identidade é um feito reservado a poucas bandas. Desde sua formação em Porto Alegre, no ano 2000, a Epitaph construiu sua trajetória com dedicação ao heavy metal tradicional, acumulando apresentações, consolidando um repertório consistente e desenvolvendo uma personalidade que nunca se acomodou ao passado. Digital Screams, lançado em 2026, representa justamente essa maturidade. O quinteto preserva a essência clássica que moldou sua carreira, mas amplia seu horizonte ao incorporar nuances de thrash metal e hard rock de maneira natural, sem descaracterizar sua proposta. A produção de Lucas Santorum valoriza o impacto das composições com uma mixagem equilibrada, guitarras encorpadas, baixo sempre perceptível e uma bateria que privilegia peso e dinâmica, enquanto a masterização entrega volume e definição sem sacrificar a organicidade da execução. A arte de capa dialoga diretamente com o conceito do álbum, refletindo o caos tecnológico e a alienação contemporânea abordados nas letras, funcionando como uma extensão visual da narrativa construída pela banda.

Logo na abertura, “Loser’s Life” estabelece o tom do disco com riffs marcantes, bateria pulsante e um refrão de fácil assimilação, apresentando um heavy metal vigoroso que alia melodia e agressividade. Na sequência, “The Girl Who Loved the Dead” explora uma atmosfera mais obscura, alternando momentos cadenciados com passagens de maior intensidade, evidenciando o cuidado dos guitarristas Marlon Steindorff e André Carvalho “Canhoto” na construção de harmonias e solos expressivos. A faixa “Epitaph”, que leva o nome da banda, funciona quase como uma declaração de princípios, sintetizando a identidade musical construída ao longo dos anos através de riffs diretos, linhas vocais marcantes de Joe F. Louder e uma base rítmica sólida formada por Fabio Figueiredo e César Five, reforçando o equilíbrio entre técnica e energia que caracteriza o trabalho do grupo.

Na segunda metade do álbum, “Road of Fire” acelera o ritmo com uma abordagem mais agressiva, aproximando-se discretamente do thrash metal sem abandonar a estrutura tradicional do heavy metal. Em seguida, a extensa “Digital Screams”, faixa-título e centro conceitual do disco, desenvolve sua narrativa de maneira envolvente, alternando climas, mudanças de andamento e excelentes diálogos entre as guitarras. A participação especial de Gustavo Demarchi acrescenta ainda mais personalidade à composição, enriquecendo os contrastes vocais e ampliando a força dramática da música, cuja crítica à dependência tecnológica e às transformações da sociedade contemporânea sintetiza a principal proposta lírica do álbum.

A reta final mantém o alto nível apresentado desde o início. “National Guard” aposta em uma condução mais direta, sustentada por riffs pesados e uma bateria precisa que imprime sensação constante de urgência. Já “Something Better Than God chama atenção pela construção melódica e pelo teor provocativo de sua letra, evidenciando a tradição da Epitaph em desenvolver composições críticas sem abrir mão da musicalidade. Encerrando o trabalho, “Blue Cave” apresenta uma atmosfera mais reflexiva e expansiva, permitindo que os músicos explorem diferentes texturas sonoras e concluam o álbum de forma consistente, deixando uma impressão duradoura após a última nota.

Em Digital Screams, a Epitaph demonstra que experiência e evolução podem caminhar lado a lado. A performance de Joe F. Louder transmite segurança durante toda a execução, enquanto as guitarras entregam riffs sólidos, solos bem construídos e excelente entrosamento. Fabio Figueiredo e César Five sustentam a base com firmeza, proporcionando peso sem comprometer a fluidez das composições. O resultado é um álbum coeso, tecnicamente refinado e carregado de personalidade, que reafirma a relevância da banda dentro do heavy metal brasileiro. Sem recorrer a fórmulas previsíveis, a Epitaph entrega um trabalho maduro, crítico e musicalmente envolvente, capaz de dialogar tanto com admiradores da tradição quanto com ouvintes que buscam um metal atual, consistente e repleto de identidade.

Tracklist:
1. Loser’s Life
2. The Girl Who Loved the Dead
3. Epitaph
4. Road of Fire
5. Digital Screams
6. National Guard
7. Something Better Than God
8. Blue Cave

Line-up:
Joe F. Louder — Vocais.
Marlon Steindorff — Guitarra.
André Carvalho “Canhoto” — Guitarra.
Fabio Figueiredo — Baixo.
César Five — Bateria.

Contatos: Instagram | Spotify | YouTube | Facebook

Artigo anteriorBesta Fera – Lua de Sangue (2025)
Próximo artigoSHITAI: grupo confirma show no ‘Várzea em Chamas – Metal Fest’ ao lado do Darkness Crow e do Morte Subta
Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui