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Hibria – On The Shortness of Life (2026)

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Chegar ao oitavo álbum de estúdio de uma banda com três décadas de estrada é, por si só, motivo suficiente para prestar atenção, principalmente quando se trata do Hibria, nome que construiu uma identidade bastante particular dentro do heavy metal brasileiro. Formado em Porto Alegre em 1996, o grupo atravessou diferentes formações, mudanças de direcionamento e períodos distintos de sua carreira sem abandonar a característica essencial de trabalhar peso, velocidade, melodia e precisão instrumental. “On the Shortness of Life” surge justamente nesse ponto de maturidade, apresentando uma formação renovada com Abel Camargo e Velles nas guitarras, Ângelo Parisotto nos vocais, William Schuck na bateria e o retorno de Benhur Lima ao baixo. O próprio conceito do disco aponta para uma reflexão sobre a brevidade da existência, escolhas e a maneira como lidamos com o tempo, dando ao material uma dimensão que vai além do simples exercício de técnica. Não é um álbum preocupado em provar que seus músicos sabem tocar; isso já está estabelecido. A preocupação aqui parece ser utilizar essa capacidade para construir músicas que tenham dinâmica, impacto e personalidade.

“Undying” abre o trabalho de maneira bastante segura, com guitarras firmes, bateria precisa e uma construção melódica que imediatamente coloca o ouvinte dentro da proposta do disco. A faixa tem aquele equilíbrio entre agressividade e clareza que sempre foi importante na identidade do Hibria, mas ganha uma abordagem ligeiramente mais madura, principalmente pela maneira como os arranjos são organizados. Ângelo Parisotto conduz os vocais com segurança, alternando força e melodias bem encaixadas, enquanto Abel Camargo e Velles trabalham as guitarras em uma combinação que valoriza tanto riffs quanto passagens mais elaboradas. “Fire Away” mantém a energia elevada, mas acrescenta uma sensação mais dinâmica ao repertório, enquanto “Pulse” trabalha justamente essa ideia de movimento, fazendo baixo e bateria assumirem papel importante na sustentação da música. “Persist” aparece com uma construção mais progressiva em determinados momentos, deixando os instrumentos respirarem antes de retomar o peso, e “Melting Alive”, com seus pouco mais de cinco minutos, aproveita melhor os espaços para desenvolver mudanças de andamento e variações de intensidade. São músicas que não dependem exclusivamente de velocidade para funcionar; existe preocupação com transições, encaixe dos instrumentos e criação de climas dentro de uma estrutura essencialmente pesada.

É a partir de “Against the Wall”, entretanto, que o álbum parece ampliar de maneira mais evidente suas possibilidades. A faixa, com mais de seis minutos, possui espaço suficiente para explorar diferentes momentos e acaba funcionando como uma das peças centrais do disco. O instrumental ganha corpo, as guitarras alternam momentos mais diretos com passagens trabalhadas e a bateria de William Schuck mostra uma atuação que não se limita a acompanhar os riffs, ajudando a conduzir as mudanças de direção. “Animus” retoma uma postura mais incisiva, com uma combinação interessante entre peso e melodia, enquanto a faixa-título, “On the Shortness of Life”, encerra o percurso em formato mais ambicioso. Dividida em cinco movimentos: “Adiaphora”, “Prohairesis”, “Apatheia”, “Ataraxia” e “Eudaimonia”, a composição funciona como uma espécie de síntese conceitual do álbum, permitindo que o Hibria desenvolva atmosferas diferentes dentro de uma única peça. A referência ao pensamento estoico não aparece apenas como decoração conceitual: os próprios títulos remetem a ideias relacionadas àquilo que está além do nosso controle, à capacidade de escolha, à ausência de perturbação e à busca por uma vida plena. Musicalmente, isso dá à faixa final uma função importante, transformando o encerramento em uma conclusão mais contemplativa e elaborada.

Na parte técnica, “On the Shortness of Life” apresenta uma produção que favorece justamente aquilo que o Hibria tem de mais forte: a execução dos músicos. A produção ficou sob responsabilidade de Renato Osorio, no Dry House Studio, enquanto Benhur Lima cuidou da mixagem e da masterização no Angry Pick Studio. O resultado mantém as guitarras presentes e definidas, sem transformar o baixo em mero elemento de fundo; pelo contrário, o instrumento de Benhur possui participação perceptível na estrutura das músicas. A bateria também recebe tratamento que permite compreender bem suas diferentes camadas, dos ataques mais rápidos aos momentos de maior sustentação, enquanto os vocais permanecem encaixados no conjunto sem perder presença. A produção não tenta esconder a complexidade das composições atrás de efeitos excessivos, e isso acaba funcionando a favor do disco. Visualmente, a proposta gráfica acompanha o caráter reflexivo do lançamento, reforçando a atmosfera conceitual construída pelas próprias músicas e pelos temas ligados à existência e à passagem do tempo. A edição japonesa também ganha atenção especial, dentro de uma relação que já faz parte da própria história do Hibria, banda que realizou diversas turnês no país e mantém ali uma ligação construída ao longo de décadas.

No fim das contas, “On the Shortness of Life” é um disco que encontra sua força justamente no equilíbrio entre experiência e renovação. O Hibria não precisa abandonar sua essência para mostrar que ainda possui algo a dizer, e talvez esse seja um dos méritos mais interessantes deste lançamento. “Undying”, “Fire Away”, “Pulse”, “Persist”, “Melting Alive”, “Against the Wall”, “Animus” e a extensa faixa-título formam um conjunto que mantém o peso e a precisão esperados, mas permite que a banda trabalhe novas nuances sem transformar a experiência em uma simples repetição do passado. Há técnica, claro, e bastante, mas existe também composição, dinâmica e intenção. Três décadas depois de sua formação, o Hibria entrega um álbum que olha para a própria trajetória sem ficar preso a ela, utilizando a experiência acumulada para construir uma obra contemporânea, vigorosa e suficientemente coesa para ser apreciada tanto pela atenção aos detalhes instrumentais quanto pela audição completa, do primeiro acorde de “Undying” aos movimentos finais de “Eudaimonia”.

Tracklist:
1. Undying
2. Fire Away
3. Pulse
4. Persist
5. Melting Alive
6. Against the Wall
7. Animus
8. On the Shortness of Life

Line-up:
Abel Camargo — Guitarra.
Benhur Lima — Baixo.
Velles — Guitarra.
William Schuck — Bateria.
Ângelo Parisotto — Vocais.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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