Há discos que chegam fazendo barulho; outros chegam carregando uma atmosfera. “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais”, do Brutal Morticínio é daqueles que começam a criar seu ambiente antes mesmo de mostrar toda a sua força. A banda gaúcha, formada em Novo Hamburgo em 2006, construiu sua identidade dentro do Pagan Black Metal, trazendo para suas composições temas ligados à história, ancestralidade, povos originários e ao processo de violência e imposição religiosa ocorrido no continente americano. Lançado em 2014, o álbum apresenta uma sonoridade crua, carregada e deliberadamente distante de qualquer polimento excessivo. A guitarra de Tormento concentra boa parte dessa personalidade, enquanto o baixo de Mielikki e a bateria de André Rodrigues dão sustentação a uma música que alterna velocidade, peso e passagens mais atmosféricas. O resultado é um trabalho que respira underground do primeiro ao último instante, sem transformar sua temática em mero adereço.
Basta a “Intro” cumprir seu papel para que “Não Darei a Outra Face” entre como uma rajada de resistência. As guitarras aparecem ásperas, com riffs que carregam melodia sem perder a sujeira necessária ao estilo, enquanto os vocais rasgados imprimem uma sensação de confronto permanente. “Para o Eterno Sofrimento de Cuathemóc” mergulha ainda mais fundo nessa atmosfera, utilizando mudanças de andamento e linhas de guitarra mais carregadas para criar uma sensação quase ritualística. É em “Evocando os Espíritos Obsessores das Florestas Austrais”, faixa que combina agressividade e ambientação de maneira particularmente eficiente, deixando as guitarras respirarem entre momentos de maior violência. “Vingança Ancestral” recupera a velocidade e transforma seus riffs em golpes secos, enquanto “Anacrônico Tempo, Obsolescência da História” aparece como uma passagem instrumental curta, funcionando quase como uma sombra entre os blocos do repertório.
Quando o disco avança para “Densas Nevoas das Profundezas”, percebe-se uma faceta mais envolvente do Brutal Morticínio. A composição trabalha uma atmosfera pesada, permitindo que as guitarras criem camadas de tensão antes de retomarem a agressividade. Já “Estúpido e Podre Homem Branco Cristão” encerra o conjunto com uma postura mais direta e provocadora, deixando evidente que a banda não pretende esconder sua crítica atrás de metáforas excessivamente elaboradas. Musicalmente, o álbum se sustenta em uma combinação de riffs velozes, melodias sombrias, bateria marcada e vocais abrasivos. Há ecos do Black Metal tradicional e da própria tradição extrema brasileira, mas eles aparecem apenas como matéria-prima para uma identidade que pertence ao Brutal Morticínio. O disco possui uma dinâmica própria, alternando momentos mais violentos com passagens em que a atmosfera ganha espaço, evitando que as faixas se tornem simplesmente uma sequência de ataques.
Por trás dessa sonoridade existe também uma preocupação evidente em fazer com que música e conceito caminhem juntos. A temática histórica não está separada dos instrumentos; ela parece alimentar a própria construção das composições. O português utilizado nas letras reforça essa característica e dá ao álbum uma personalidade ainda mais particular dentro do Black Metal nacional. A produção realizada no Estúdio Nitro, em Caxias do Sul, por Roger Fingle, mantém o instrumental suficientemente definido para que guitarras, baixo e bateria possam ser percebidos sem eliminar a aspereza que combina com a proposta. Não há aquela busca por uma sonoridade excessivamente cristalina. Pelo contrário: existe uma sujeira controlada, adequada ao caráter hostil do material. A arte e o conceito geral também trabalham em favor dessa atmosfera, apresentando o álbum como uma obra preocupada em recuperar símbolos, memórias e conflitos históricos através de uma linguagem extrema.
O que permanece depois da última faixa é justamente a sensação de ter atravessado um registro que possui algo a dizer além da música. “Obsessores Espíritos das Florestas Austrais” não depende de virtuosismo ou de uma produção grandiosa para funcionar; sua força está na identidade, na temática e na maneira como o Brutal Morticínio transforma esses elementos em Black Metal ríspido, sombrio e carregado de personalidade. É um álbum que conserva aquele espírito de material feito para circular entre poucos, com suas guitarras cortantes, bateria firme e vocais que parecem surgir de dentro da própria névoa criada pelo instrumental. Agora disponível oficialmente nas plataformas de streaming, o registro ganha uma nova possibilidade de alcance sem perder aquilo que o tornou relevante dentro do underground: sua capacidade de transformar história, ancestralidade e revolta em música extrema. Aqui, o passado não está morto. Ele continua ecoando entre riffs, ruídos e sombras.
Tracklist:
1. Intro
2. Não Darei a Outra Face
3. Para o Eterno Sofrimento de Cuathemóc
4. Evocando os Espíritos Obsessores das Florestas Austrais
5. Vingança Ancestral
6. Anacrônico Tempo, Obsolescência da História
7. Densas Nevoas das Profundezas
8. Estúpido e Podre Homem Branco Cristão
Line-up:
Tormento — Guitarras e Vocais.
Mielikki — Baixo.
André Rodrigues — Bateria.
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