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Velho – Vingando as Bruxas (2025)

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Formada em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, o Velho carrega desde 2009 uma proposta de black metal crua, obscura e assumidamente subterrânea, construída em torno de temas como ocultismo, misantropia, filosofia e ódio. Em Vingando as Bruxas, lançado originalmente em março de 2025, a banda reúne oito faixas em pouco mais de 35 minutos, mantendo uma formação composta por Caronte nos vocais e guitarra, Død na guitarra, Rafael Lopes no baixo e Splatter na bateria. O disco saiu em formato digital de maneira independente e também ganhou edição limitada em vinil vermelho pela Red n’ Black Terror, com apenas 300 cópias e embalagem gatefold. Desde os primeiros segundos, fica evidente que o Velho não está interessado em polir sua identidade para torná-la mais confortável: há uma aspereza deliberada na construção das músicas, uma atmosfera de ritual noturno e uma poesia caótica que atravessa todo o trabalho. A própria banda define sua música como um black metal cru e intransigente, marcado por uma descarga intensa de poesia caótica e escuridão existencial, com letras integralmente em português.

A abertura com “Retornando ao Caos Primevo” estabelece imediatamente esse universo, trabalhando a ideia de retorno ao vazio primordial por meio de uma composição que combina agressividade, repetição hipnótica e sensação de ancestralidade. Destruindo os Mandamentos” amplia essa postura, transformando a música em um manifesto de ruptura contra dogmas e estruturas impostas, enquanto as guitarras assumem uma função particularmente importante na criação de uma parede sonora áspera, sem abandonar completamente a percepção das linhas instrumentais. “Reunindo as Matilhas”, mais curta e direta, ganha força pelo caráter predatório de seus riffs e pelo andamento que parece conduzir a música para dentro de uma floresta imaginária, sob uma atmosfera lunar e ameaçadora. Já “Renascendo pelo Ódio”, uma das peças mais extensas do primeiro lado, trabalha melhor as mudanças de dinâmica e cria um sentimento de transformação, como se o disco passasse de uma simples declaração de princípios para uma narrativa de renascimento e ruptura. As letras reforçam esse percurso, recorrendo a imagens de caos, noite, antigos ritos, ruptura e transformação.

No segundo momento, “Alinhando Estrelas Mortas” abre uma dimensão mais cósmica e delirante, abandonando parcialmente a ambientação terrestre para mergulhar em imagens de impérios esquecidos, dimensões obscuras e forças interestelares. É uma faixa curta, mas bastante eficiente justamente por condensar sua atmosfera sem prolongá-la além do necessário. “Matando” retoma a violência temática e o peso ritualístico, sustentada por bateria firme, baixo encorpando a base e guitarras que mantêm o caráter ríspido do conjunto. Em seguida, “Adentrando a Noite Eterna” desacelera a percepção do álbum e funciona como um dos seus momentos mais atmosféricos: a faixa ganha uma dimensão quase fúnebre, tratando a noite como passagem, esquecimento e descanso depois de uma longa trajetória de sofrimento. É justamente nessa alternância entre velocidade, peso, repetição e momentos mais cadenciados que o Velho encontra uma dinâmica própria. A bateria de Splatter não está ali apenas para acelerar; ela funciona como eixo de sustentação, enquanto Caronte e Død constroem nas guitarras o ambiente áspero que caracteriza o registro, com Rafael Lopes completando a massa sonora pelo baixo.

O encerramento com “Vingando as Bruxas” funciona quase como a síntese conceitual de tudo aquilo que veio antes. A faixa recupera elementos e ideias presentes nas composições anteriores, o caos primordial, a destruição dos mandamentos, a reunião das matilhas, o renascimento pelo ódio, as estrelas mortas e a noite eterna, transformando o próprio álbum em uma espécie de ciclo fechado. Musicalmente, a faixa-título não precisa recorrer a excessos para cumprir essa função: ela concentra a identidade do disco em uma composição que soa como conclusão de um ritual iniciado na primeira faixa. A produção favorece justamente essa característica mais orgânica e agressiva, deixando a música respirar dentro de uma sonoridade que preserva a sujeira necessária ao black metal de proposta underground. Não há aqui uma busca evidente por uma apresentação excessivamente cristalina; a prioridade está na atmosfera, na energia coletiva do quarteto e na manutenção de uma textura que combina com a proposta estética. A própria trajetória da formação aparece consolidada nesse trabalho, e a força dessa união também se confirma ao vivo: apresentações recentes destacaram a coesão do quarteto, a potência da bateria, a presença de Caronte e uma sonoridade que alterna velocidade, passagens mais punk e cadências marcantes.

Vingando as Bruxas é, portanto, um álbum que entende muito bem o que pretende ser. Não tenta transformar o black metal em produto domesticado, nem abandona a linguagem do subterrâneo em busca de uma produção excessivamente limpa. Seu mérito está justamente na coerência: conceito, letras, instrumentação, atmosfera e apresentação caminham na mesma direção. A edição em vinil pela Red n’ Black Terror reforça esse caráter de objeto de culto underground, enquanto o formato digital disponibilizado pela própria banda permite que o trabalho seja ouvido em alta qualidade. O Velho constrói uma experiência marcada por escuridão, inconformismo e uma espécie de poesia ritualística que atravessa o álbum do começo ao fim. Vingando as Bruxas permanece assim como um registro genuinamente subterrâneo: áspero quando precisa ser, atmosférico quando encontra espaço para respirar e, acima de tudo, fiel à identidade de uma banda que segue fazendo black metal sem pedir licença. Comprem os discos, apoiem as bandas e mantenham o underground vivo.

Tracklist:
1. Retornando ao Caos Primevo
2. Destruindo os Mandamentos
3. Renuindo as Matilhas
4. Renascendo Pelo Òdio
5. Alinhando Estrelas Mortas
6. Matando
7. Adentrando a Noite Eterna
8. Vingando as Bruxas

Line-up:
Splatter — Bateria.
Caronte — Guitarras e Vocais.
Rafael Lopes — Baixo.
Død — Guitarras.

Contatos: Bandcamp| YouTube | Spotify

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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