Início Brasil Empire Of Souls – “Revenge Circle” (2003)

Empire Of Souls – “Revenge Circle” (2003)

31
0

Formada em 1995 na cidade de Santos, litoral paulista, a Empire Of Souls construiu sua trajetória dentro do underground brasileiro atravessando diferentes momentos até encontrar no Black Metal sua identidade mais definida. Antes de “Revenge Circle”, a horda já havia deixado registros como “Mr. Fear” (1996), “Mystic Lands” (1998) e “Triumph of Death” (2000), mostrando uma evolução gradual de uma sonoridade inicialmente ligada ao Doom Metal para uma abordagem cada vez mais extrema, incorporando elementos de Death e Black Metal. É justamente nesse processo de amadurecimento que surge “Revenge Circle”, lançado em 2003 pela Nocturnal Age Records em CD, com uma tiragem de mil cópias e também participação da Imperial Records na coedição. O disco reúne sete faixas em pouco mais de 41 minutos e apresenta a formação de Rogério no baixo, Paulo na bateria, Cléber nas guitarras e composição, e Mário César nos vocais e letras. O resultado é um trabalho que carrega aquela atmosfera típica de um underground ainda muito distante da produção excessivamente polida, mas que compensa qualquer limitação com personalidade, agressividade e uma evidente vontade de transformar ideias sombrias em música.

“Mysteries of the Moon” abre o álbum estabelecendo imediatamente esse clima carregado, com guitarras que alternam peso, melodia e passagens mais arrastadas, enquanto a bateria conduz a composição com uma dinâmica que evita que o material se torne simplesmente uma sequência de ataques rápidos. A faixa-título “Revenge Circle” mantém essa tensão, trabalhando riffs mais diretos e uma condução pesada que dá espaço para a guitarra assumir diferentes nuances ao longo da música. “Sentences of Armageddon”, com seus mais de seis minutos, amplia o caráter épico e sombrio do disco, explorando mudanças de andamento e uma construção mais paciente, enquanto “Masturbate With the Cross” parte para uma abordagem mais curta, agressiva e frontal, reforçada pelo caráter abertamente anticristão presente no universo lírico da banda. A guitarra de Cléber é fundamental nesse percurso, pois não se limita ao papel de sustentação dos riffs: existem melodias, variações e pequenos detalhes que aparecem entre as camadas de distorção, dando movimento às composições. O baixo de Rogério trabalha de maneira mais discreta, porém importante para engrossar a base, e Paulo mantém a bateria como força propulsora, alternando momentos velozes com conduções mais cadenciadas.

A segunda metade do álbum ganha uma atmosfera ainda mais obscura. “Dark Prophecies of a New Cosmic Cycle” apresenta uma combinação interessante entre agressividade e clima, enquanto “Memories of the Autumn Tears” desacelera o ímpeto e aposta mais fortemente na melancolia, criando uma espécie de respiro sombrio antes da longa “Disgrace”, que ultrapassa os dez minutos e funciona como o grande fechamento do álbum. É nessa faixa que a banda consegue explorar melhor a ideia de desenvolvimento, permitindo que os riffs se alonguem e que a música construa sua própria atmosfera antes de chegar ao final, onde ainda existe uma faixa escondida, “Necromantical Screams”, cover do Celtic Frost. Mário César apresenta uma interpretação visceral, marcada pelos vocais rasgados e por variações que acompanham o caráter dramático das composições, enquanto as guitarras permanecem como o elemento mais expressivo do conjunto. Há uma certa aspereza na execução que, neste caso, funciona a favor do disco: “Revenge Circle” não parece interessado em esconder suas entranhas, e justamente por isso transmite a sensação de um registro feito por músicos profundamente envolvidos com aquilo que estavam criando. O material também revela influências que passam pelo Black Metal mais atmosférico e sombrio, mas sem abandonar completamente o peso e as estruturas herdadas do Death e do Doom que acompanharam a evolução da banda.

Na parte técnica, o álbum foi gravado e mixado no RMX Studio entre novembro e dezembro de 2002, com Marcelo Cruz creditado como produtor, responsável pela gravação e mixagem, enquanto a própria Empire Of Souls aparece como coprodutora. A sonoridade mantém certa crueza, com guitarras dominantes, bateria bastante presente e vocais colocados de maneira agressiva dentro do conjunto, característica que combina com o espírito do lançamento e com a realidade de uma produção independente daquele período. A arte e o layout ficaram a cargo de Flpiresdesign, com fotografia de Manuel, compondo a identidade visual de um trabalho que não depende de grandes recursos para estabelecer sua atmosfera. “Revenge Circle” também ganhou uma nova vida muitos anos depois, quando a própria banda disponibilizou o álbum digitalmente, em 2017, através do Bandcamp. A disponibilização digital é importante porque permite que um álbum originalmente limitado fisicamente a mil cópias continue circulando e alcançando ouvintes muito além de seu primeiro momento.

“Revenge Circle” permanece, acima de tudo, como um registro de uma fase importante da Empire Of Souls e do underground paulista: um disco que não busca perfeição técnica, mas identidade, clima e impacto. A trajetória posterior da banda teve uma interrupção em 2009, seguida pelo retorno às atividades em 2014, quando a horda voltou aos palcos e posteriormente lançou o single “Si Vis Pacem, Para Bellum”, em 2015, mostrando que o espírito daquele primeiro full-length continuava presente. Hoje, independentemente dos períodos de atividade ou hiatos que marcaram sua história, é impossível olhar para “Revenge Circle” apenas como mais um CD de Black Metal lançado no começo dos anos 2000: existe aqui uma fotografia sonora de uma banda que vinha de anos de experimentação, encontrou sua linguagem e registrou sete composições carregadas de obscuridade, crítica religiosa, agressividade e melodia. O disco tem suas imperfeições, mas são justamente elas que ajudam a preservar seu caráter de peça underground, fazendo de “Revenge Circle” um daqueles trabalhos que merecem ser revisitados não pela promessa de uma produção impecável, mas pela força de sua atmosfera e pela convicção com que a Empire Of Souls colocou sua própria marca na escuridão.

Tracklist:
1. Mysteries of the Moon
2. Revenge Circle
3. Sentences of Armageddon
4. Masturbate with the Cross
5. Dark Prophecies of a New Cosmic Cycle
6. Memories of the Autumn Tears
7. Disgrace

Line-up:
Rogerio – Baixo.
Paulo – Bateria.
Cleber – Guitarras e composição.
Mario Cesar – Vocais e letras.

Contatos: Bandcamp| YouTube | Facebook

Artigo anteriorBlasfemador – Malleus Maleficarum (2026)
Próximo artigoDuo Cavernose Morfética ataca com Thrash/Punk brutal no single de estreia “Necroexpectador”
Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui