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Rhegia – The Mirror of Light (2026)

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O terceiro álbum da Rhegia, The Mirror of Light, chega como o capítulo final de uma trilogia que a banda paraense vem construindo desde Shadow Warrior (2019) e The Battle of Deliverance (2023), fechando um ciclo conceitual que parte da ancestralidade amazônica para imaginar o futuro de uma região constantemente ameaçada pela exploração. Surgida em Belém, em 2017, a Rhegia consolidou uma identidade muito própria dentro do metal brasileiro ao aproximar peso, elementos de power e progressive metal, referências mitológicas e uma forte consciência territorial. Se os trabalhos anteriores olhavam mais diretamente para as histórias, lendas e batalhas dos povos originários, aqui o grupo desloca esse imaginário para uma paisagem distópica, onde máquinas, inteligência artificial e uma natureza artificializada ocupam o espaço antes dominado pela floresta. O resultado é um disco que não abandona suas raízes, mas procura justamente colocá-las diante de um futuro inquietante. A formação atual, com Bianca Palheta nos vocais, Saulo Caraveo nas guitarras, Naoto Shibata no baixo, Amanda Alencar nos vocais e violoncelo e Michel Machado na bateria, demonstra uma banda mais segura de sua proposta e interessada em ampliar sua linguagem sem perder o peso que sustenta sua identidade. É um álbum de nove faixas, produzido, mixado e masterizado por Guilherme de Siervi em Belém, com arte, capa e encarte concebidos por Romulo Dias, reforçando a ideia de que som e imagem fazem parte de uma mesma narrativa.

“Voices of Time” funciona como uma espécie de portal para essa história, um prelúdio que prepara o terreno para a viagem entre passado, presente e futuro. Não é apenas uma introdução decorativa: sua função é estabelecer o clima e criar a sensação de passagem temporal que será fundamental para o restante do álbum. A faixa-título entra então como uma declaração de intenções, trazendo uma Rhegia mais moderna e atmosférica, mas ainda sustentada por guitarras pesadas e uma base rítmica vigorosa. A mudança mais evidente está nos vocais guturais de Amanda Alencar, que assumem papel definitivo nessa nova fase e acrescentam uma dimensão mais agressiva ao repertório. “Amazon’IAs” leva o conceito para seu ponto mais tecnológico, imaginando uma Amazônia submetida ao domínio das inteligências artificiais, enquanto “Artificial Lights” talvez seja uma das composições que melhor sintetizam a proposta do álbum: árvores artificiais, natureza sintética e até um sol artificial transformam aquilo que deveria representar vida em uma espécie de cenário construído pela própria ganância humana. Na construção sonora, há espaço para atmosferas mais eletrônicas e texturas modernas sem que a guitarra perca protagonismo, criando um contraste interessante entre o orgânico e o mecânico.

“Black Earth” muda novamente o foco e recupera uma imagem mais ancestral, apresentando uma Amazônia construída a partir da matéria orgânica, enquanto “Other Voices” aumenta a tensão com os vocais agressivos de Amanda e uma abordagem que representa o confronto entre entidades amazônicas e aqueles que invadem territórios sagrados. É justamente nessa alternância entre contemplação, peso e agressividade que o disco encontra boa parte de sua personalidade. “Two Sides of a Life” assume uma dimensão mais reflexiva ao tratar de amadurecimento, conhecimento e evolução espiritual, permitindo que o álbum respire antes de avançar para “Satellites”, composição que questiona o olhar distante lançado sobre a Amazônia e sobre aqueles que vivem efetivamente em seu território. A presença dos povos indígenas e das comunidades ribeirinhas não aparece apenas como elemento folclórico, mas como parte essencial da mensagem. A banda consegue, assim, fazer com que o conceito futurista não apague o passado: pelo contrário, quanto mais tecnológica fica a paisagem imaginada pela Rhegia, mais evidente se torna a necessidade de preservar aquilo que é ancestral.

“Songs of Glory” encerra o percurso com uma mensagem de esperança, resistência e transformação, funcionando como contraponto ao cenário devastado apresentado anteriormente. É um fechamento coerente porque a Rhegia não entrega uma narrativa simplesmente pessimista; existe uma espécie de resistência espiritual atravessando o álbum, como se a memória e a identidade fossem justamente as forças capazes de sobreviver ao avanço da artificialização. A performance instrumental acompanha essa construção com competência: Saulo Caraveo conduz as guitarras entre riffs, melodias e atmosferas, Naoto Shibata garante o peso necessário no grave, enquanto Michel Machado imprime dinâmica e força às mudanças de andamento. Amanda, além do violoncelo, amplia consideravelmente sua participação vocal, e Bianca Palheta mantém a presença que ajuda a equilibrar as diferentes faces do repertório. A produção de Guilherme de Siervi, realizada em Belém, favorece essa combinação de elementos tradicionais e modernos, permitindo que o peso das guitarras e da bateria conviva com as texturas mais atmosféricas sem transformar o disco em uma massa sonora indistinta. Há uma preocupação clara em fazer com que cada camada tenha função dentro do conceito, algo importante em um trabalho que pretende ser ouvido também como narrativa.

No fim das contas, The Mirror of Light funciona justamente porque não tenta apenas repetir aquilo que a Rhegia já fez: ele leva a identidade construída pela banda para outro território. O álbum mantém a Amazônia no centro, mas troca o olhar puramente ancestral por uma ficção de futuro, utilizando máquinas, inteligência artificial e natureza sintética como símbolos para discutir exploração, afastamento da humanidade em relação ao ambiente e perda de memória. A capa e o encarte de Romulo Dias completam essa proposta visualmente, reforçando o caráter conceitual do lançamento, enquanto a produção realizada em Belém dá ao trabalho uma dimensão ainda mais significativa: é uma banda falando de sua própria terra a partir de dentro dela. Depois de quase uma década de trajetória, de um EP de estreia que apresentou sua proposta e de um primeiro álbum conceitual que ampliou sua repercussão, a Rhegia chega ao encerramento dessa trilogia com uma obra que demonstra amadurecimento sem abrir mão do espírito de banda independente. The Mirror of Light é pesado, atmosférico e conceitual, mas acima de tudo é um disco que entende que falar da Amazônia também é falar de memória, território, futuro e sobrevivência. E talvez seja justamente aí que esteja sua maior força: no reflexo entre aquilo que fomos, aquilo que somos e aquilo que ainda podemos nos tornar.

Tracklist:
1. Voices of Time
2. The Mirror of Light
3. Amazon’ias
4. Artificial Lights
5. Black Earth
6. Other Voices
7. Two Sides of a Life
8. Satellites
9. Songs of Glory

Line-up:
Bianca Palheta – Vocais.
Saulo Caraveo – Guitarra.
Naoto Shibata – Baixo.
Amanda Alencar – Vocais e Violoncelo.
Michel Machado – bateria.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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