Peso, misticismo e memória ancestral encontram um ponto de equilíbrio em Transmutação, estreia da paulista Ürütaü. Lançado em 10 de julho de 2026, o álbum apresenta um Doom Metal cadenciado, sombrio e profundamente conectado ao imaginário brasileiro, onde riffs arrastados dividem espaço com flautas, maracás, vocais limpos e letras cantadas em português. Formada em 2024 por Ale Galliard (vocal, baixo e maracás), Lari Death (guitarra, backing vocals e maracás) e J. L. Índio (bateria, flautas e maracás), a banda constrói sua identidade sem esconder as referências setentistas e a tradição do Doom, mas também sem transformar esses elementos em simples reprodução de fórmula. O próprio nome Ürütaü, inspirado no urutau, ave cercada por histórias e mistérios do folclore sul-americano, já aponta para o universo explorado pelo trio. Ao longo das sete faixas, a banda transita por lendas, entidades, ancestralidade, violência, degradação ambiental e resistência dos povos originários, mantendo uma sonoridade pesada e hipnótica. É um disco que entende o peso não apenas como volume, mas como atmosfera, repetição e tensão.
“Canto da Morte” abre o disco com o pé no freio e a cabeça dentro de uma história de horror. O riff pesado aparece sem pressa, criando uma marcha escura que combina com a narrativa da entidade que seduz para matar. Ale Galliard mantém o baixo firme enquanto a guitarra de Lari Death trabalha entre peso e atmosfera, sem transformar a faixa numa vitrine de virtuosismo. “Ticê” segue pela mesma estrada, mas coloca mais tensão na composição, trazendo Anhangá e a figura da feiticeira para dentro desse universo de assombração e misticismo. Já “Necrochorume” pisa em terreno diferente: é uma das faixas mais diretas do álbum e transforma a podridão dos cemitérios, a contaminação e o abandono em combustível para uma música agressiva. J. L. Índio mostra aqui uma bateria que sabe ser pesada sem precisar correr o tempo inteiro. “Canibais do Tempo” retoma a cadência arrastada e trabalha a ideia do tempo como predador, consumindo tudo pelo caminho. A guitarra ganha espaço para criar tensão, enquanto o baixo mantém a música presa ao chão.
“Psicose Sabática” é uma das pancadas mais interessantes do disco. A música coloca no centro uma mulher perseguida por uma moral religiosa que tenta controlar sua existência, e a banda responde com uma composição carregada, sombria e desconfortável. A voz limpa ajuda a criar esse clima de narrativa, enquanto os instrumentos constroem uma parede de peso sem engolir completamente os detalhes. “Mapinguari”, com seus 6 minutos e 22 segundos, é o grande monstro do álbum. A faixa usa o tempo a seu favor e deixa a atmosfera crescer aos poucos, apresentando uma sonoridade que parece sair de dentro da mata. A presença das flautas e dos maracás ganha importância, principalmente porque não quebra o peso do Doom: pelo contrário, coloca outra camada dentro dele. A figura do Mapinguari aparece como força de punição diante da destruição da natureza, e a música transforma esse imaginário em uma longa viagem de riffs lentos, percussão e tensão. Então chega “Pindorama”, com apenas 1 minuto e 22 segundos, mas funcionando como golpe final. A narração de Vagner Fist abandona a estrutura tradicional de uma canção e transforma o encerramento em manifesto sobre invasão, violência contra povos originários, destruição ambiental e resistência. Curta no relógio, enorme dentro da proposta do álbum.
O grande mérito instrumental de Transmutação está justamente em não deixar o formato power trio limitar o disco. Ale Galliard segura baixo e vocal com presença, além de incorporar os maracás à construção das músicas; Lari Death assume as guitarras e backing vocals, entregando riffs que privilegiam clima, peso e construção; J. L. Índio divide a bateria com flautas e percussões, ampliando consideravelmente o espectro sonoro da banda. A combinação desses elementos dá ao álbum uma personalidade que não depende de velocidade ou excesso técnico. Aqui o peso vem da repetição dos riffs, da cadência, do silêncio entre as pancadas e da maneira como os instrumentos tradicionais entram no arranjo. A produção e a mixagem realizadas no Sounder Studios, com Sander Iguchi, preservam essa proposta sem transformar o disco numa massa sonora indistinta. Guitarra, baixo e bateria permanecem reconhecíveis, enquanto flautas e maracás aparecem como componentes efetivos da música.
A arte de Thiago Boller fecha esse universo visual com o mesmo espírito sombrio que atravessa as músicas, colocando o urutau como figura central de uma identidade construída entre floresta, morte, misticismo e ancestralidade. O próprio logotipo, desenvolvido por J. L. Índio, reforça esse caráter artesanal que combina tão bem com uma banda ainda no começo da caminhada. Transmutação não tenta reinventar o Doom Metal e nem precisa disso. O que interessa aqui é a forma como a Ürütaü pega uma linguagem pesada conhecida e coloca dentro dela elementos brasileiros, histórias ancestrais e problemas que continuam muito presentes. O resultado é um disco que anda devagar, mas não fica parado. Cada faixa acrescenta uma peça ao ritual, até “Pindorama” fechar a porta e deixar o ouvinte sozinho com o eco da mensagem. É uma estreia com identidade, peso e personalidade. A Ürütaü ainda está começando sua história, mas já encontrou uma maneira própria de fazer barulho. E no underground, isso vale muito.
Tracklist:
1. Canto da Morte
2. Ticê
3. Necrochorume
4. Canibais do Tempo
5. Psicose Sabática
6. Mapinguari
7. Pindorama
Line-up:
Ale Galliard – Vocais, baixo e maracás.
Lari Death – Guitarra, backing vocals e maracás.
J. L. Índio – Bateria, flautas e maracás.
Vagner Fist – Narração na faixa “Pindorama” (Participação especial).
Gravadora: Impaled Records.









