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Armadilha – Além do Limite Astral (2026)

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O Heavy Metal não precisa pedir licença para continuar existindo. Ele simplesmente acontece, alto, pesado e fiel às suas raízes. É nessa perspectiva que o Armadilha apresenta “Além do Limite Astral”, seu terceiro álbum, colocando novamente o peso tradicional do gênero a serviço de uma identidade construída ao longo de anos de estrada. Formado em 2010, o grupo paulistano chega a este trabalho carregando a experiência de “Choque Elétrico” (2013) e “Sangue de Ferro” (2021), além de uma trajetória marcada pela valorização do Metal brasileiro e pela aproximação cada vez maior com a cena latino-americana. A faixa-título abre o disco sem rodeios, sustentada por guitarras marcantes, baixo presente e uma bateria que empurra a música para frente, enquanto os vocais de Pedro Zupo dão o tom combativo que atravessa boa parte do repertório. “Sangue por Sangue” mantém essa pegada e aumenta a sensação de urgência, preparando o terreno para “Velhos e Eternos”, uma das composições centrais do álbum e uma homenagem direta aos pioneiros do Heavy Metal brasileiro. Aqui, tradição não aparece como peça de museu: vira combustível para uma banda que ainda está na ativa e quer fazer barulho no presente.

A segunda metade do repertório mostra um Armadilha confortável em diferentes velocidades e possibilidades sem perder unidade. “Ataque” carrega uma dinâmica mais urgente, com guitarras e bateria trabalhando para criar impacto imediato, enquanto “Hermandad de Acero” amplia o discurso para além das fronteiras brasileiras. A música reúne músicos de diferentes países da América Latina e transforma o Heavy Metal em linguagem de aproximação, reforçando a proposta da chamada NLHMLA, movimento do qual a banda participa. “Headbanger”, por sua vez, assume sem rodeios o espírito de celebração da própria cultura metálica, com uma construção que privilegia os riffs, a força vocal e o caráter coletivo da composição. Já “Erga Seus Punhos ou Baixe Sua Voz” possui uma postura de enfrentamento bastante característica do Armadilha, enquanto “Xeque Mate” fecha o bloco autoral com peso, tensão e uma construção que evidencia o cuidado maior empregado nos arranjos. Não existe aqui aquela preocupação em parecer moderno a qualquer custo. O grupo sabe exatamente onde pisa e trabalha dentro do Heavy Metal tradicional com guitarras bem definidas, baixo sustentando a estrutura, bateria forte e vocais que carregam as músicas com personalidade. É justamente essa segurança que impede o álbum de soar como mera reprodução de uma fórmula antiga.

E quando chega “Born in the Streets”, a escolha do cover do Hirax faz sentido dentro da proposta do disco. A faixa mantém o espírito de rua e a agressividade necessária, funcionando como uma extensão natural da identidade do Armadilha e não como um simples intervalo entre as composições próprias. A edição ampliada ainda apresenta “Devil on My Roof”, do Vulcano, e “Motín en Occidente”, do venezuelano Arkangel, além de outras versões, aprofundando essa ponte entre referências que ajudaram a construir o Heavy Metal brasileiro e latino-americano. O repertório deixa evidente que as influências do Armadilha não estão ali como decoração histórica. Elas aparecem na maneira de construir riffs, na valorização do português, na postura vocal e principalmente na compreensão do Heavy Metal como cultura de resistência e identidade. “Além do Limite Astral” não precisa recorrer a excessos técnicos para demonstrar competência. E é justamente no encerramento que o álbum amplia novamente sua perspectiva: “¿500 años de qué?”, cover de Hugo Giménez Agüero, surge como a última faixa e fecha o trabalho estabelecendo uma conexão direta com a identidade latino-americana. A escolha funciona como ponto final de um repertório que atravessa diferentes referências sem perder a personalidade do Armadilha. O mérito está na maneira como os músicos trabalham juntos, com duas guitarras ocupando espaços complementares, baixo e bateria dando sustentação pesada e Pedro Zupo conduzindo os vocais com uma interpretação que mantém o caráter visceral do material. A formação atual reúne Pedro Zupo nos vocais, Gregório Bondezam e Denys Garcia nas guitarras, Pedro Cavichiollo no baixo e Marcelo S.O.S. na bateria.

Na parte técnica, o disco ganha outro ponto importante com Val Santos responsável pela produção, mixagem e masterização. O trabalho foi entregue ao produtor com as gravações previamente organizadas pela própria banda, que concentrou esforços na definição das guitarras e na força da bateria, enquanto Gregório Bondezam coordenou as cordas, participou das gravações de baixo e da coprodução de áudio; os arranjos vocais também foram trabalhados coletivamente antes da finalização de Pedro Zupo. O resultado é uma sonoridade pesada, orgânica e suficientemente limpa para permitir que cada instrumento cumpra sua função sem retirar do álbum aquela aspereza necessária ao Heavy Metal. A guitarra permanece no centro da produção, a bateria aparece com presença física e o baixo não fica perdido no conjunto. A arte segue a mesma lógica de envolvimento direto da banda: capa e slipcase foram desenvolvidos pelo próprio Pedro Zupo, reforçando o caráter artesanal do lançamento. Até nisso existe coerência: o Armadilha não terceiriza sua identidade. Música, imagem, conceito e discurso caminham na mesma direção.

“Além do Limite Astral” é, acima de tudo, um disco de afirmação. Não tenta reinventar o Heavy Metal nem precisa fazê-lo. Sua força está em compreender que tradição também pode significar movimento, que respeitar os pioneiros não exige viver preso ao passado e que a cena latino-americana possui uma história própria que merece ser celebrada. Da abertura da faixa-título ao impacto de “Sangue por Sangue”, da homenagem de “Velhos e Eternos” à união continental de “Hermandad de Acero”, passando pela atitude de “Headbanger”, pelo confronto de “Erga Seus Punhos ou Baixe Sua Voz”, pelo peso de “Xeque Mate” e pela escolha certeira de “Born in the Streets”, o álbum mantém uma linha estética coesa e uma personalidade reconhecível. É Heavy Metal de quem conhece a própria história, entende a importância da cena e ainda tem disposição para colocar o som na rua. O Armadilha chega ao terceiro álbum mais maduro, mais consciente de sua identidade e, principalmente, sem perder aquilo que realmente importa: riffs, atitude, volume alto e vontade de continuar fazendo Metal porque é exatamente isso que a banda sabe fazer.

Tracklist:
1. Além do limite astral
2. Sangue por sangue
3. Velhos e eternos
4. Ataque
5. Hermandad de acero
6. Headbanger
7. Erga seus punhos ou baixe sua voz
8. Xeque mate 04:40
9. Born in the Streets (Hirax cover)
10. Devil on My Roof (Vulcano cover)
11. Motín en Occidente (Arkangel cover)
12. ¿500 años de qué? (Hugo Giménez Agüero cover)

Line-up:
Gregório Palhano Bondezam – Baixo.
Pedro Zupo – Vocais.
Denys Garcia – Guitarra.
Marcelo S.O.S. – Bateria.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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