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ENTREVISTA – Brutal Morticínio

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Memória, resistência, ancestralidade e o fogo que ainda arde no underground brasileiro

CR: O Brutal Morticínio surgiu em 2006, atravessou diferentes formações, mudanças na própria maneira de produzir e consumir música e chegou a 2026 carregando uma identidade que continua reconhecível. Olhando para esses vinte anos de trajetória, quando vocês percebem que a horda deixou de ser apenas uma banda de Black Metal para se transformar também em um registro histórico de uma determinada geração do underground brasileiro?
Tormento: Primeiramente eu gostaria de agradecer pela participação na entrevista e pela parceria que temos ao longo de anos. Também gostaria de elogiar o trabalho desenvolvido pela Cangaço Rock. Desde a fundação da Brutal Morticínio temos feito o trabalho pelo underground. Tentamos de certa forma expor as nossas influências e participar o mais ativamente possível, para isso tentamos nos reinventar sem perder a essência seja ela no campo sonoro, seja ela no campo lírico.

CR: O Brutal Morticínio nasceu em uma época em que o underground ainda possuía uma relação muito forte com demos, CDs, fitas, cartas, zines e divulgação praticamente artesanal. Hoje, a música está a um clique de distância e uma banda pode alcançar ouvintes do outro lado do planeta sem sair de casa. O que vocês acreditam que foi perdido nessa transição para o mundo digital e, por outro lado, o que foi conquistado?
Tormento: O processo de produção tem um acesso muito mais democrático. Você tem também acesso a bandas de outras partes do planeta e cantos que se produz a música extrema à sua maneira, mas também tudo se pulverizou, são muitas produção, algumas muito boas, reais e outras que deixam bastante a desejar e pelo volume, muitas coisas boas acabam ficando no ostracismo e muitas bandas antigas acabam tendo um holofote muito maior para trabalhos que são bastante medianos na minha opinião.

CR: Recentemente, Despertar dos Chacais… O Outono dos Povos e Obsessores Espíritos das Florestas Austrais passaram a integrar oficialmente o catálogo digital. São registros que pertencem a momentos distintos da trajetória do Brutal Morticínio, mas que agora retornam à circulação em outro contexto, sob outras formas de escuta e diante de um público que não necessariamente acompanhou seu nascimento. Quando uma banda decide colocar novamente em circulação obras que já carregam sua própria história, ela está apenas disponibilizando o passado ou também oferecendo uma nova possibilidade de leitura para esses álbuns? O que vocês esperam que seja reencontrado nesses dois trabalhos agora que eles voltam a respirar fora do tempo em que foram concebidos?
Tormento: É bem interessante o seu ponto de vista. As coisas fluíram de uma maneira mais natural, houve o pedido por parte de pessoas que curtem a banda para que disponibilizássemos nos streamings, afinal a maneira como você ouve música acabou mudando, mas essa questão da ressignificação das músicas e de quem terá os primeiros contatos com isso é muito interessante e talvez a gente nem consiga compreender até o momento, será preciso um pouco mais de distanciamento histórico para verificarmos isso.

CR: Despertar dos Chacais… O Outono dos Povos carrega uma força documental muito particular. É um álbum que olha para o passado, mas também tenta estabelecer uma relação com o presente. Depois de quase duas décadas, vocês ainda enxergam aquele disco da mesma maneira ou o tempo modificou a interpretação que fazem das próprias composições? Existe alguma faixa que hoje adquiriu um significado diferente para vocês?
Tormento: O Despertar é sem dúvida o momento mais bem acabado da época em que escrevemos. Ele tem uma representatividade dessa particularidade histórica nossa e da cena em que convivíamos de uma maneira geral, carrega de certa forma, toda a revolta e de certa forma uma inocência. A música “Estúpido e Podre Homem Branco Cristão” e “E a Morte Triunfa” (que são músicas que ainda hoje executamos nos shows) tem algumas peculiaridades que tem interpretações diversas dependendo da cena e da época em que são discutidas. Pra mim elas sempre foram bem diretas, mas em algumas interpretações tiveram contornos ainda mais profundos do que pensamos originalmente e que nos surpreendeu positivamente.

CR: Obsessores Espíritos das Florestas Austrais, lançado em 2014, representa outro momento da horda. Ao revisitá-lo atualmente, vocês identificam ali elementos que antecipavam caminhos que o Brutal Morticínio posteriormente desenvolveria? Há alguma coisa naquele álbum que hoje vocês fariam de maneira completamente diferente?
Tormento: Acredito que em cada trabalho tentamos nos aprimorar, evoluir, não apenas tecnicamente, porque isso é irrelevante. Acho que a evolução deve se dar no sentido de que a música enquanto arte consiga expressar a angústia, revolta, indignação, enfim, o “espírito do tempo”. Acredito que cada trabalho tentamos nos aproximar disso. O álbum “Obsessores Espíritos…” foi gravado entre os anos de 2013 e 2014, com músicas que já existiam há algum tempo. As nossas influências eram outras e também tínhamos outra formação e no fim, o álbum sempre é uma construção coletiva. Não acho que o álbum seja perfeito, nem perto disso, mas ele expressa uma época da banda.

CR: A temática do Brutal Morticínio sempre esteve profundamente ligada à memória, aos povos originários, às guerras, à colonização, à ancestralidade e ao choque entre culturas. Entretanto, existe uma diferença enorme entre utilizar a história como decoração estética e realmente transformá-la em matéria-prima artística. Como vocês pesquisam, interpretam e transformam acontecimentos históricos em música sem transformar a história em simples cenário para o Black Metal?
Tormento: Eu sou historiador e tenha uma especialização em cultura indígena e afro-brasileira. Este é apenas o ponto de partida, pois como disse anteriormente o álbum sempre é uma construção coletiva e acho que deve expressar também no campo lírico ideias em comum dos membros da banda. Tenho tentado ultimamente fazer parcerias de fora da banda, inclusive nessa parte das letras, para que seja um pouco mais diversos.
Você tem razão, ter o passado apenas para se construir um mito ou algo idealizado nunca foi o objetivo da banda, pelo contrário sempre foi esse olhar para o passado para refletirmos sobre as mazelas e contradições atuais de nossa sociedade e nossa cena. Por exemplo essa figura do “banger conservador” que na minha opinião é um contrassenso, uma interpretação equivocada do que é o metal, mas que sempre esteve por aí. Acho que apenas os nossos tempos jogaram uma luz sobre essas questões. Sempre teve muita gente (aqui no sul) que se abraçava no separatismo ou passava um pano para o NSBM.

CR: Em várias entrevistas antigas, vocês defenderam o uso predominante do português como uma forma de aproximar a música da própria realidade cultural. Em um cenário atual em que muitas bandas brasileiras utilizam o inglês pensando em uma possível internacionalização, o português continua sendo uma escolha estética e ideológica fundamental para o Brutal Morticínio? Ou hoje vocês enxergam essa questão de maneira diferente?
Tormento: Sim, mantemos essa mesma convicção. No fim das contas o som é feito, preferencialmente para a cena nacional. Em algum momento precisamos fazer alguma referência em outro idioma, seja ele inglês, espanhol ou algum idioma nativo, mas sempre usaremos fundamentalmente o português.

CR: A formação atual reúne Tormento, Chris Podreira, Necro e Scussel. Depois de tantas mudanças ao longo da trajetória, como a formação atual interfere no processo criativo? Existe hoje uma divisão mais definida de funções na composição ou as músicas continuam surgindo de maneira espontânea, como acontecia nos primeiros anos?
Tormento: Com certeza o processo produtivo é algo coletivo. Cada um acaba imprimindo a sua marca, seja ele na parte sonora ou na parte lírica. Não há nada de muito específico de divisões, todos podem contribuir, seja com a letra e seja com a música. Atualmente o Chris tem se encarregado de organizar a parte da música em si e eu fico mais com a parte da organização das letras. Tenho tentado cada vez mais buscar parcerias para ambas as partes porque acho que expande o nosso “universo” deixando-o mais rico e diverso.

CR: Ao longo de sua trajetória, o Brutal Morticínio atravessou diferentes formas de materializar a música, do K7 e CD ao digital, enquanto o próprio underground também se transformava junto com esses formatos. An Indigenous War Black Metal Front, por exemplo, nasceu no ambiente digital e posteriormente ganhou sua versão em fita, invertendo de certa maneira o caminho tradicional de um registro. Para vocês, o formato altera a maneira como uma obra é vivenciada e preservada? E existe algum suporte que, pela sua dimensão simbólica, ainda represente melhor a essência do Brutal Morticínio?
Tormento: A maneira de ouvir música vem mudando. Como foram as transições para outras mídias. Na minha opinião o ponto não é esse. Acho que o rock ‘n’ roll de maneira mais geral atravessa uma crise pesada, refletindo em “valores sociais”. Quer dizer, a rebeldia da juventude, que estava ligada ao questionamento do sistema foi substituída por um conservadorismo e um moralismo. Não curto esse papo de criticar as novas gerações, longe de mim essas bizarrices. Acredito que seja algo pensado e orquestrado para capturar grande parte dessa juventude, quer dizer você canaliza a revolta para coisas idiotas como essa estupidez de Red Pill e outras idiotices. O fortalecimento do underground, no meu ponto de vista, torna-se ainda mais importante, até mesmo como contraponto. Nesse sentido não podemos nos pegar em coisas pequenas como o formato. Muitos ainda estão profundamente apegados ao CD e estranham que algo seja lançado por streaming, mas esse sim acredito que é um curso mais “natural” das coisas.

CR: Depois de vinte anos, existe uma pergunta inevitável: o que ainda incomoda vocês? O que ainda desperta aquela necessidade de pegar uma guitarra, escrever uma letra ou entrar em estúdio e dizer “isso precisa virar música”? O que mantém o Brutal Morticínio vivo depois de duas décadas?
Tormento: Acho que hoje, mais do que nunca, o que cantávamos nestes 20 anos e outras bandas por ainda mais tempo está desnudado. Os cristãos, falsos moralistas, patriotas que odeiam o Brasil e outros que destilam o puro ódio de classe estão na rua com toda a sua agressividade. Aquilo que há tempo denunciávamos e que de certa forma os havia colocado na defensiva acabou. Estão por tudo e tem o discurso quase hegemônico. Mais do que nunca é hora de agirmos, por meio da música e do underground denunciarmos e além disso, partirmos para uma ação mais concreta. Não podemos mudar a ideia das pessoas, mas podemos agir de modo que racistas, preconceituosos e cristãos voltem para o esgoto de onde nunca deveriam ter saído.

CR: A trajetória do Brutal Morticínio reúne registros importantes como Despertar dos Chacais… O Outono dos Povos, Obsessores Espíritos das Florestas Austrais e An Indigenous War Black Metal Front, este último lançado originalmente como EP em 2019. Existe atualmente material novo sendo composto ou algum projeto para um próximo álbum? Se houver, vocês podem revelar alguma coisa sobre a direção musical, temática ou conceitual desse possível novo trabalho?
Tormento: O nosso novo álbum ainda não tem um nome. A parte musical deve ser uma continuidade, aproximando um pouco mais da pegada do Despertar dos Chacais… O Outono dos Povos. Fizemos no nosso Instagram uma prévia. Devemos nas próximas semanas estar lançando um single. Na parte lírica ainda teremos a questão dos povos originais, mas a abordagem central será sobre o Sul. Somos do RS e a cultura gaúcha é rica e diversa, mas infelizmente, tem se moldado a partir de questões de misoginia e de racismo. Neste sentido o álbum será uma ode e uma crítica ao sulismo. O álbum terá faixas que falam dos povos originais, da atual violência urbana, da cultura afro e outras abordagens, que eu diria pouco usuais quando falamos no sul do Brasil.

CR: Se um novo álbum estiver vindo, existe alguma preocupação em fazer algo diferente ou a prioridade continua sendo aprofundar a identidade construída ao longo dos anos? Vocês pretendem levar o Brutal Morticínio para territórios sonoros ainda não explorados ou acreditam que a verdadeira evolução da horda está em radicalizar aquilo que ela já sabe fazer?
Tormento: Acredito que, de certa forma, o Brutal Morticínio já acabou criando uma identidade própria. Dentro da temática Black metal tentamos buscar outras sonoridades e até mesmo temas que destoam um pouco da ideia original, mas a maneira como executamos as músicas e o nosso entrosamento acaba fazendo com que o som fique com uma cara bem característica.

CR: Olhando para o underground brasileiro em 2026, o cenário mudou radicalmente desde 2006: redes sociais, streaming, festivais maiores, profissionalização de assessorias, novas mídias e uma quantidade enorme de bandas produzindo material. Na opinião de vocês, o underground brasileiro está mais forte ou apenas mais acessível? E o que ainda falta para que bandas extremas brasileiras tenham maior reconhecimento fora do país sem perder a essência underground?
Tormento: Eu acho que de uma maneira geral o underground encolheu. No caso do metal extremo nós temos uma parcela de culpa. A renovação com a gurizada sempre gerou atrito. De certa forma alguns dos mais jovens se encheram e simplesmente abandonaram, apenas escutam o som em casa. Por outro lado há uma proliferação de bandas novas o que é muito positivo com ideias muito diferentes sobre o metal extremo. Há uma pulverização geral das bandas, acho que não é um caso apenas no cenário nacional. O que eu sinto falta é de não termos uma integração maior com os países da América do Sul. Acho que poderíamos ter mais trocas com as bandas e com a cena dos outros países sul-americanos. Seria muito positivo ao Brasil e os demais países.

CR: O tempo transforma pessoas, cenas e até aquilo que um dia parecia impossível de desaparecer. Algumas bandas simplesmente passam; outras deixam registros que continuam ecoando muito depois de seu primeiro ruído. O Brutal Morticínio já atravessou duas décadas de underground e sua história permanece em movimento, entre aquilo que foi vivido, aquilo que ainda está sendo criado e aquilo que sequer encontrou forma.
Tormento: O Brutal Morticínio é o que nos mantém numa certa sanidade. É a nossa maneira de expressão de Arte sobre as coisas que no nosso ponto de vista estão erradas. Não é uma simples válvula de escape da realidade. Tentamos dar voz a um grupo de pessoas que pensa de maneira semelhante, influenciando e sendo influenciado constantemente. Nada de messianismo ou de estrelismo é a pura necessidade mesmo. As letras do Brutal Morticínio têm uma perspectiva pessimista de nossa realidade e futuro, mas não são nada em comparação com esse moedor de carne humana que é a realidade da classe trabalhadora no país. Infelizmente muitos estão entorpecidos e enxergam uma realidade distorcida. Agradecemos ao Brutal Morticínio pela disposição em revisitar sua trajetória e dividir conosco não apenas histórias sobre música, mas também algumas das ideias, inquietações e memórias que sustentam essa caminhada. Que os próximos capítulos continuem sendo escritos com a mesma intensidade, independência e convicção. Nos agradecemos por poder participar da entrevista. Considero que as entrevistas são um complemento para que possamos clarear ainda mais as ideias, conhecer mais profundamente os sons e a dimensão que eles representam e consequente como essas coisas são elaboradas e em que sentido. Mais uma vez o nosso muito obrigado pela parceria já de alguns anos.

CANGAÇO ROCK: PORQUE O UNDERGROUND TAMBÉM PRECISA DE MEMÓRIA.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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