Com uma trajetória que atravessa décadas, o Eternal Sacrifice construiu uma identidade bastante particular dentro do Black Metal brasileiro. Formada em 1993, em Salvador, Bahia, a horda desenvolveu uma proposta musical profundamente relacionada ao ocultismo, ao paganismo e às manifestações simbólicas presentes em diferentes tradições esotéricas. Ao longo dos anos, manteve uma postura artística voltada à elaboração de composições extensas, atmosferas ritualísticas e estruturas instrumentais que transitam entre agressividade e passagens épicas. Em Hierophant, essa identidade ganha novos contornos, reunindo sete composições que ultrapassam os 50 minutos de duração. O álbum sucede Inclinavit Se Ante Altare Diabolvs Est Scriptor… Regere Sinister (2023) e apresenta uma sonoridade marcada por guitarras pesadas, teclados atmosféricos e uma condução musical que valoriza tanto a intensidade quanto a construção de ambientes sombrios. Lançado em CD pela Brazilian Ritual Records, sob o catálogo BRR099, o trabalho reafirma a importância dessa entidade baiana na história do Metal extremo nacional.
A primeira investida de Hierophant já apresenta a dimensão musical que acompanha o restante da obra. “Os Tres Aneis de Vara (In Frontibvs Ardes, o Serpens Splendide XVIII)”, com seus mais de dez minutos, abre o álbum com uma construção elaborada, alternando passagens agressivas, linhas melódicas e momentos de maior densidade atmosférica. As guitarras assumem posição central, desenvolvendo riffs encorpados e arranjos que contribuem para o caráter épico da composição. Em “Toth’s Letters (Clavem Ritvvm In Verbo Occvlto Dedi Tibi XX)”, a atmosfera ocultista ganha ainda mais evidência, com os teclados acrescentando profundidade às estruturas e estabelecendo interessantes contrastes com a agressividade instrumental. Já “The Lord of Time (Cvm Deo et Cvltore Nihil Svm, et Me Non Vident XXI)” apresenta uma condução imponente, explorando mudanças de andamento e passagens melódicas que ampliam a dimensão da composição. São músicas que demonstram a preocupação da banda com os arranjos e com a construção de uma identidade sonora que não depende exclusivamente da velocidade.
Dando continuidade à jornada sonora proposta pelo álbum, “Verscicle XI (Semper Est Sol et Ipsa Lvna, Semper Ales Flamma Est et Ipsa Est Cvrvvm Stellarvm XVI)” apresenta novas possibilidades dentro da atmosfera construída pela horda. A composição trabalha diferentes texturas instrumentais, com os teclados reforçando o caráter cerimonial enquanto as guitarras sustentam os momentos de maior intensidade. Em seguida, “Under the Shroud (Corpvs Tvvm Nvdvm in Calcvlo et Calice Meo Abvndans Tvo Immacvlato Sangvine DCLXVI)” surge como um dos momentos mais expressivos do registro. Com pouco mais de nove minutos, a faixa apresenta alternâncias de andamento, passagens mais arrastadas, riffs pesados e intervenções melódicas que enriquecem sua estrutura. A faixa-título, “The Hierophant (Omnia Ivdicia, Omnia Verba et Signa, in Oriente ad Deorvm Aeqvinoctivm Svmpsit Accentvm XLIX)”, reforça a dimensão conceitual do trabalho, preservando a atmosfera solene e obscura que percorre as composições. O encerramento com “Thargirion (The Highest Scale of the Tree of Death, the One Who Opposes Tiphareth)” mantém a intensidade e explora referências relacionadas à Árvore da Morte e à simbologia cabalística, encerrando a audição dentro do universo esotérico que orienta a obra.
Por trás dessa construção sonora, existe um trabalho instrumental que merece atenção. Magister Templi Lhorde Haadaas Naberius conduz as vocalizações, imprimindo à interpretação uma característica sombria e compatível com a proposta ritualística do álbum. Charles Lucxor Persponne demonstra desenvoltura nas guitarras, explorando riffs, solos e linhas melódicas que contribuem para a diversidade dos arranjos. O baixo de Frater Nigrvm Ayangá Ilasha acompanha as estruturas com consistência, enquanto Kastiphas, nos teclados, acrescenta camadas atmosféricas fundamentais para a identidade das composições. Na bateria, Chemosh Persponne apresenta uma execução que transita entre passagens velozes, mudanças de andamento e momentos de maior sustentação rítmica. Sua contribuição também se estende aos processos criativos e aos arranjos. A produção, realizada no Live Evil Studio, procura valorizar as diferentes camadas instrumentais, preservando o peso e a dimensão atmosférica do conjunto. Embora os créditos técnicos disponíveis não permitam especificar individualmente os responsáveis pela mixagem e masterização, a apresentação sonora acompanha satisfatoriamente a proposta musical. A arte de capa, assinada por Rubens Azoth, com layout de Morada, complementa o conceito do lançamento por meio de uma identidade visual alinhada ao universo ocultista e simbólico explorado pelo Eternal Sacrifice. A edição física pela Brazilian Ritual Records também merece registro, especialmente pela importância que o formato em CD ainda representa para a circulação da produção underground.
Quando os últimos acordes de Hierophant chegam ao fim, fica evidente o compromisso do Eternal Sacrifice com uma proposta musical construída ao longo de mais de três décadas. O álbum reúne elementos que acompanham a trajetória da horda, mas apresenta uma abordagem que valoriza ainda mais a densidade instrumental, as atmosferas elaboradas e a dimensão épica de suas composições. As sete faixas possuem características próprias, evitando que a extensão das músicas comprometa a diversidade do repertório. As guitarras, os teclados e a bateria encontram espaço para desenvolver diferentes possibilidades dentro de uma mesma identidade estética, enquanto o conceito ocultista estabelece uma conexão entre música e apresentação visual. Hierophant é um registro consistente, que reafirma a personalidade de uma das manifestações mais particulares do Pagan Black Metal brasileiro. Uma obra que merece espaço na coleção dos apreciadores da música extrema nacional e, sobretudo, daqueles que acompanham a resistência do underground brasileiro.
Tracklist:
1. Os Tres Aneis de Vara (In Frontibvs Ardes, o Serpens Splendide XVIII)
2. Toth’s Letters (Clavem Ritvvm In Verbo Occvlto Dedi Tibi XX) 07:57
3. The Lord of Time (Cvm Deo et Cvltore Nihil Svm, et Me Non Vident XXI)
4. Verscicle XI (Semper Est Sol et Ipsa Lvna, Semper Ales Flamma Est et Ipsa Est Cvrvvm Stellarvm XVI)
5. Under the Shroud (Corpvs Tvvm Nvdvm in Calcvlo et Calice Meo Abvndans Tvo Immacvlato Sangvine DCLXVI)
6. The Hierophant (Omnia Ivdicia, Omnia Verba et Signa, in Oriente ad Deorvm Aequinoctivm Svmpsit Accentvm XLIX)
7. Thargirion (The Highest Scale of the Tree of Death, the One Who Opposes Tiphareth)
Line-up:
Magister Templi Lhorde Haadaas Naberius – Vocal
Charles Lucxor Persponne – Guitarras
Frater Nigrvm Ayangá Ilasha – Baixo
Kastiphas – Teclados
Chemosh Persponne – Bateria









