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Besta Fera – Lua de Sangue (2025)

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A trajetória da Besta Fera vem sendo construída com personalidade dentro do underground potiguar desde sua fundação, em Natal (RN), em 2021. Apostando em um death/black metal de essência antiga, mas conduzido por uma identidade própria, o quinteto transforma influências clássicas em uma linguagem marcada pela agressividade, pelo peso e por uma atmosfera obscura que encontra na língua portuguesa um diferencial importante. Lançado em 29 de novembro de 2025, Lua de Sangue representa um passo consistente nessa caminhada, revelando uma banda mais madura na composição e na construção de ambiências. Com produção, mixagem e masterização assinadas por Adriano Sabino, o EP preserva uma sonoridade orgânica, sem excessos de polimento, permitindo que cada instrumento mantenha sua aspereza natural. A arte de capa dialoga diretamente com o conceito do trabalho, antecipando visualmente a sensação de decadência, escuridão e ritual que percorre toda a audição.

A breve “Intro” cumpre exatamente o papel de abrir um portal para o universo concebido pela banda. Não se trata apenas de uma introdução atmosférica, mas de uma preparação para o impacto que virá em seguida. Logo depois, “Regente do Abismo” explode em riffs densos e cortantes, sustentados por uma bateria firme de Sérgio Tapajós, que alterna momentos de intensidade extrema com passagens mais cadenciadas, ampliando o peso da composição. A interpretação de Fred transmite convicção e agressividade, conduzindo letras carregadas de simbolismo sombrio sem perder a clareza da proposta. As guitarras de Abílio Lins e Lucas Alves trabalham em perfeita sintonia, equilibrando bases robustas e intervenções melódicas discretas, enquanto o baixo de Enelyne Maia reforça o corpo sonoro com presença constante, preenchendo os espaços com profundidade e consistência.

A faixa-título, “Lua de Sangue”, concentra boa parte da identidade do EP. Seu desenvolvimento alterna momentos de violência sonora com passagens de atmosfera quase contemplativa, criando uma tensão permanente que acompanha o ouvinte até os últimos acordes. Os riffs carregam uma aura soturna que remete ao espírito do black/death metal clássico sem soar meramente nostálgica, enquanto a construção rítmica evita a previsibilidade ao explorar mudanças de andamento que enriquecem a narrativa musical. As letras ampliam essa experiência ao abordar temas ligados ao colapso da existência, à ruptura espiritual e à decadência humana, reforçando a sensação de ritual profano que permeia toda a obra. A produção valoriza essa dinâmica ao manter a crueza dos instrumentos sem comprometer a definição das camadas sonoras.

Na sequência, “Feras da Terra” assume uma postura ainda mais direta e agressiva. A composição concentra alguns dos momentos mais intensos do EP, evidenciando uma banda segura em sua execução e consciente da força de seus arranjos. O trabalho das guitarras ganha destaque pela construção de riffs marcantes, enquanto a bateria imprime velocidade e precisão sem transformar a música em um exercício meramente técnico. O vocal mantém a mesma intensidade do início ao fim, transmitindo o sentimento de revolta e inconformismo presente nas letras. Encerrando a experiência, a “Outro” não funciona apenas como uma despedida, mas como a conclusão natural desse percurso sombrio, prolongando a atmosfera criada ao longo das faixas e deixando uma sensação de continuidade, como se o ritual permanecesse ecoando mesmo após o silêncio.

Lua de Sangue confirma que a Besta Fera atravessa um momento de evidente amadurecimento artístico. Mais do que reunir boas composições, o EP demonstra coerência entre conceito, execução e identidade, permitindo que cada elemento contribua para uma experiência sólida e envolvente. O desempenho coletivo da formação atual revela equilíbrio entre técnica e expressão, sem transformar a música em mera demonstração de virtuosismo. Há autenticidade na forma como a banda trabalha suas influências e as converte em uma linguagem própria, reforçada pela escolha do português como ferramenta de impacto e aproximação. É um lançamento que carrega o espírito do underground em sua forma mais honesta: intenso, obscuro, visceral e comprometido com uma visão artística que privilegia a atmosfera acima de qualquer convenção, consolidando a Besta Fera como um nome que merece atenção dentro da cena extrema nacional.

Tracklist:
1. Intro
2. Regente do Abismo
3. Lua de Sangue
4. Feras da Terra
5. Outro

Line-up:
Sérgio Tapajós – Bateria.
Fred – Vocais.
Enelyne Maia – Contrabaixo.
Abílio Lins – Guitarra solo.
Lucas Alves – Guitarra base.

Contatos: Instagram | Spotify| Bandcamp| YouTube

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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