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Morphin – Chrysanthemum (2026)

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Existe uma espécie de peso que não vem apenas da distorção, dos graves ou da velocidade, mas daquilo que a música consegue carregar emocionalmente, e é justamente nesse território que o Morphin constrói Chrysanthemum. Formado em Pindamonhangaba, São Paulo, o projeto surgiu originalmente em 2017 sob o nome Alivium, passando a utilizar Morphin a partir de 2020 e consolidando uma proposta voltada ao Melodic Death/Doom Metal. Em seu segundo full-length, lançado de forma independente em 1º de agosto de 2026, Matheus Leonel assume todos os instrumentos e os vocais, conduzindo sozinho uma obra de 51 minutos marcada por riffs monumentais, atmosferas sombrias e composições extensas, nas quais o peso do death metal encontra a melancolia, a lentidão e o caráter contemplativo do doom. O próprio conceito do álbum gira em torno de quatro formas de perda de esperança, confiança, fé e vida , mas o Morphin não trata esses elementos como simples conceitos abstratos. Cada faixa parece abrir uma nova ferida, conduzindo o ouvinte por um caminho de abandono, decadência e escuridão, onde a solidão deixa de ser apenas sentimento e passa a assumir uma forma quase física. Há algo de perverso nessa jornada, como se cada riff arrastasse um pouco mais o ouvinte para dentro de um ambiente sufocante, onde a fé apodrece, a esperança se desfaz e aquilo que um dia sustentou a existência lentamente se transforma em ruína. É nesse terreno sombrio e corrosivo que o álbum encontra sua verdadeira força.

The End So Far abre o trabalho de maneira grandiosa e paciente, utilizando seus quase quatorze minutos para estabelecer imediatamente a atmosfera de Chrysanthemum. A composição caminha entre passagens pesadas e momentos de maior abertura melódica, fazendo com que os riffs tenham espaço para respirar e adquirir dimensão. As guitarras assumem papel central, alternando peso e melodia sem deixar que a música perca sua identidade sombria, enquanto os vocais reforçam a sensação de abandono presente na narrativa. A faixa cresce gradualmente, como se estivesse presa a um ciclo do qual não consegue escapar, e sua duração deixa de parecer excessiva justamente porque a estrutura trabalha com transições e mudanças de dinâmica. Em seguida, Lies mantém essa perspectiva, mas desloca o foco para a perda da confiança e para as marcas deixadas por relações construídas sobre falsidade e exploração. Musicalmente, existe uma sensação ainda mais pesada, com riffs que parecem arrastar o ouvinte para dentro da própria narrativa, enquanto as melodias funcionam como uma espécie de memória que insiste em permanecer. O contraste entre momentos mais densos e passagens melódicas é particularmente eficiente aqui, criando uma música que não depende apenas do peso para transmitir sofrimento, mas utiliza também espaço, repetição e atmosfera.

Em Atonement, o Morphin entra talvez no ponto mais introspectivo do álbum. Com pouco mais de dez minutos, a faixa trabalha a ideia de culpa, ausência e arrependimento através de uma construção menos preocupada com impacto imediato e mais interessada em desenvolver uma sensação contínua de desgaste. As guitarras carregam melodias sombrias que se encaixam naturalmente sobre a base pesada, enquanto a bateria e os elementos programados sustentam o andamento sem retirar da composição seu caráter orgânico. Há uma sensação de caminhada lenta, quase como se cada riff representasse mais um passo dentro de uma lembrança difícil de abandonar. O resultado é uma das passagens mais atmosféricas do disco, especialmente porque a música consegue equilibrar melodia e densidade sem transformar o doom em simples recurso de lentidão. Fechando o álbum, Dead Footprints surge como uma espécie de conclusão inevitável para toda a narrativa. Seus quase quatorze minutos retomam elementos presentes anteriormente, mas agora com uma carga emocional ainda maior. A música desenvolve a ideia de ausência definitiva e utiliza o inverno, a solidão e as marcas deixadas por alguém que já não está presente como imagens para construir um encerramento profundamente melancólico. Os riffs possuem peso suficiente para sustentar o clima, enquanto as melodias ampliam a sensação de vazio, fazendo com que a faixa funcione não apenas como encerramento musical, mas como ponto final conceitual.

Instrumentalmente, Chrysanthemum impressiona principalmente pela capacidade de Matheus Leonel de construir um álbum que não soa como simples exercício de um único músico. Guitarras, baixo, bateria programada e vocais são organizados de maneira a criar camadas suficientes para que as composições tenham profundidade, e o fato de todas as partes estarem concentradas nas mãos de uma única pessoa acaba reforçando o caráter pessoal do trabalho. A produção também contribui bastante para isso: gravado no D.E.M.O. Records Studio, o álbum foi produzido por Deco Oliveira e Morphin, com mixagem e masterização realizadas por Deco Oliveira. O resultado favorece a percepção dos riffs e das atmosferas, preservando a densidade necessária ao estilo sem transformar o conjunto em uma massa sonora indistinta. A própria arte, com fotografia de Talessa S.S., dialoga com esse universo de perda e contemplação, funcionando mais como extensão do sentimento do disco do que como simples elemento decorativo. É uma produção independente, mas longe de transmitir qualquer sensação de precariedade; existe cuidado na maneira como os instrumentos ocupam seu espaço e principalmente na forma como a dinâmica é utilizada para sustentar músicas tão longas.

No fim, Chrysanthemum é um daqueles trabalhos que pedem tempo para serem absorvidos, não necessariamente por sua duração, mas porque suas músicas foram construídas para desenvolver sentimentos em vez de simplesmente apresentá-los. The End So Far, Lies, Atonement e Dead Footprints funcionam como capítulos de uma mesma narrativa, cada qual explorando uma forma diferente de perda até chegar ao último instante do álbum, quando resta apenas a sensação de que algumas ausências não deixam espaço para recomeços fáceis. O Morphin encontra sua força justamente nessa combinação entre riffs pesados, melodias melancólicas, vocais carregados e estruturas longas, criando uma identidade que transita naturalmente entre o death metal melódico e o doom sem ficar presa a fórmulas. Chrysanthemum não é um disco preocupado em oferecer respostas ou aliviar o peso que apresenta; pelo contrário, ele mergulha na solidão, na culpa, no abandono e na memória e transforma tudo isso em música. É uma obra independente, pessoal e bastante coesa, construída com paciência e consciência de atmosfera. Para quem acompanha o underground brasileiro e procura trabalhos que ainda entendem o álbum como uma experiência completa, Chrysanthemum merece atenção, principalmente porque, por trás de toda a densidade sonora, existe algo que permanece depois que a última nota desaparece: a sensação incômoda de ter atravessado uma história que, de alguma forma, poderia ter sido nossa.

Tracklist:
1. The End So Far
2. Lies
3. Atonement
4. Dead Footprints

Line-up:
Matheus Leonel — Todos os instrumentos.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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