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Infected Cells – Betrayed by Obedience (2026)

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Tem coisa que não nasce para ser bonita. Nasce para incomodar. “Betrayed by Obedience”, primeiro full-length do Infected Cells, vem exatamente desse lugar. Formado em Simões Filho, na Bahia, o trio carrega uma história iniciada ainda em 2009, quando atendia pelo nome Brain in Flames, até assumir definitivamente a identidade Infected Cells em 2014. Stanley Serravalle (baixo e vocais), Márcio Jordanne (bateria) e Hugo Elias (guitarra) chegam ao primeiro álbum completo depois de anos de estrada, registros anteriores e muita pancada acumulada. E não existe aqui qualquer tentativa de domesticar o som. São nove faixas cuspidas em pouco mais de meia hora, atravessando death e thrash metal com riffs cortantes, bateria pesada e uma atmosfera que fede a ferrugem, concreto e revolta. “Betrayed by Obedience” não entra pela porta da frente. Arromba.

A faixa-título já entrega o veneno. “Betrayed by Obedience” é pesada, agressiva e carregada daquele sentimento de quem cansou de obedecer, acreditar e engolir tudo calado. “Blackened Horizons” mantém o terreno em chamas, com guitarras trabalhando entre velocidade e peso, enquanto “Everything is Shattered”, contando com Iago Hellkiller nos vocais adicionais, transforma a destruição em combustível. A música ganha uma camada extra de violência sem perder a identidade do trio. Depois vem “And the Reek Shall Inherit the Earth”, uma das passagens mais pútridas do disco, conduzindo o ouvinte para um cenário de decomposição, morte e degradação humana. Não há romantização da desgraça. É sujeira jogada na cara. O Infected Cells não precisa construir grandes discursos quando pode simplesmente aumentar o volume e deixar os riffs falarem.

“We are the Outcast” carrega aquele sentimento de quem vive do lado de fora da cerca e já não está interessado em pedir passagem. É uma faixa de confronto, com baixo e bateria empurrando a guitarra para frente enquanto os vocais mantêm o clima de hostilidade. “Inside this Machine” aprofunda a ideia de aprisionamento, como se a própria sociedade fosse uma engrenagem velha mastigando quem está dentro dela. “Futile Existence” desacelera a alma, mas não a brutalidade, trabalhando uma sensação amarga de vazio e desgaste. Já “Tragic Human Condition” amplia o alvo e despeja crítica sobre a estupidez humana, a destruição e o caos produzido pela própria espécie. No encerramento, “Chamber of Torture” não oferece saída. A faixa fecha o disco como uma porta de ferro batendo na cara, pesada, sufocante e agressiva. Cada música possui seu próprio veneno, mas todas parecem sair do mesmo esgoto.

E é na parte instrumental que o Infected Cells mostra que brutalidade também exige controle. Hugo Elias não precisa transformar a guitarra em vitrine de malabarismo; os riffs são construídos para esmagar, criar tensão e manter o disco andando. Márcio Jordanne segura a bateria com firmeza, alternando velocidade, peso e ataques precisos sem deixar a técnica engolir a música. Stanley Serravalle completa o estrago com baixo e vocais ásperos, dando à banda aquela sensação de três sujeitos tocando no limite, mas sabendo exatamente onde querem chegar. A produção, mixagem e masterização ficaram nas mãos do próprio Hugo Elias, e o resultado mantém a sujeira necessária sem transformar tudo numa massa indistinta. Guitarras, baixo, bateria e voz ocupam seus espaços, preservando o impacto. A parte visual também acompanha o clima: Marcelo Bensabath responde pela arte e layout, Isis Barros pela fotografia e Goretti Adebanjo pela assistência lírica. Nada parece colocado ali por acaso. O disco tem uma identidade que começa na capa e termina quando o último riff desaparece.

“Betrayed by Obedience” é daqueles trabalhos que não precisam de maquiagem. É metal feito com experiência, raiva e disposição para continuar cavando mesmo quando o buraco já está fundo demais. O lançamento em CD, realizado em parceria entre o próprio Infected Cells, Abismo Metal Store, Discodelia e Cianeto Discos, mantém aquela velha chama do underground acesa, enquanto a chegada às plataformas digitais em 15 de maio de 2026 coloca essa pancada diante de mais ouvidos. Mas o formato pouco importa quando a música fala por si. O que fica é um álbum bruto, direto e honesto, sem frescura e sem a preocupação de agradar quem espera metal esterilizado. “Betrayed by Obedience” tem cheiro de porão, gosto de ferrugem e uma mensagem simples: ainda existe coisa podre demais por aí para ficar em silêncio. O Infected Cells apenas resolveu transformar esse fedor em música.

Tracklist:
01. Betrayed by Obedience
02. Blackened Horizons
03. Everything is Shattered (feat. Iago Hellkiller)
04. And the Reek Shall Inherit the Earth
05. We are the Outcast
06. Inside this Machine
07. Futile Existence
08. Tragic Human Condition
09. Chamber of Torture

Line-up:
Stanley Serravalle — Baixo e Vocais.
Márcio Jordanne — Bateria.
Hugo Elias — Guitarra.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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