Início Brasil Regurgimentação Necrovaginal Sangrenta – Eviscerated, Skinned and Ripped Under the Ice (2026)

Regurgimentação Necrovaginal Sangrenta – Eviscerated, Skinned and Ripped Under the Ice (2026)

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Vinda de Indaiatuba, São Paulo, a Regurgimentação Necrovaginal Sangrenta já carrega no próprio nome uma declaração de princípios: aqui não existe espaço para delicadeza, concessões ou qualquer preocupação em tornar a coisa palatável. Formada em 2014, a banda construiu sua trajetória dentro do underground brasileiro transitando pelo grindcore, death metal e goregrind, acumulando demo, split, álbum, singles e EP antes de chegar a Eviscerated, Skinned and Ripped Under the Ice, seu segundo full-length, lançado em 10 de março de 2026 de maneira independente e em formato físico e digital. A formação atual reúne Lucas Scalet nas guitarras e vocais, Emanuel Kronéis na bateria e vocais, Dr.D. nos vocais e Juan no baixo, configuração que entrega um ataque compacto e sem firulas. O disco não tenta esconder suas raízes nem suavizar sua proposta. São pouco mais de vinte minutos de música, distribuídos por dez faixas, suficientes para erguer uma parede sonora marcada por brutalidade, velocidade, sujeira e aquele senso de absurdo que faz parte da tradição mais extrema do underground.

A faixa-título, “Eviscerated, Skinned and Ripped Under the Ice”, abre os trabalhos já estabelecendo o clima do massacre sonoro. Guitarras pesadas, bateria acelerada e vocais extremos se atropelam em uma construção curta, agressiva e objetiva, sem espaço para introduções ornamentais ou preparação para o impacto. “Coprophagia” mantém a pancadaria, trabalhando mudanças de velocidade e uma bateria que funciona como verdadeiro motor da composição, enquanto as guitarras permanecem densas e ásperas. Em “Human Pot Pies”, a banda consegue explorar ainda mais o lado caótico do seu repertório, alternando ataques rápidos com passagens mais arrastadas, criando uma sensação de instabilidade que combina perfeitamente com a proposta do disco. As faixas menores, “Enterobius Vermicularis Infestation on the Genital Tract” e “Global Morbidity of Diverting Colostomies Following Surgical Management of Rectal Cancer”, funcionam quase como golpes-relâmpago dentro da estrutura do álbum: entram, destroem o ambiente e desaparecem antes que o ouvinte tenha tempo de respirar. A primeira tem apenas vinte segundos, enquanto a segunda não chega sequer a isso, reforçando a natureza fragmentada e imprevisível do trabalho.

No miolo do álbum, “Joyful Fetus Christian Abort Clinic” amplia o caráter extremo da obra através de uma composição mais desenvolvida, mantendo a bateria nervosa e as guitarras trabalhando em riffs secos e violentos. “Starring at the Face of Death with Eyes Shut Open” segue por uma linha igualmente brutal, mas permite perceber melhor o cuidado existente na dinâmica das guitarras e na condução rítmica. Já “Gore Metal Diabetic Amputation” resume em aproximadamente dois minutos boa parte da identidade musical da banda: velocidade, peso, vocais cavernosos e uma estrutura que não depende de grandes floreios para funcionar. O destaque fica justamente para a interação entre baixo, bateria e guitarras, que cria uma massa sonora compacta, enquanto os vocais assumem diferentes tonalidades dentro da brutalidade proposta. Não há interesse em transformar as músicas em demonstrações técnicas; a técnica aqui está a serviço do impacto. É música construída para atingir diretamente, como uma descarga de ruído extremo, e não para ficar procurando aprovação fora do pequeno universo ao qual pertence.

“The Zombie Easter”, com seus mais de três minutos, é a composição mais extensa do álbum e também uma das que melhor demonstra a capacidade da banda de sustentar uma ideia por mais tempo sem perder a agressividade. Há espaço para alternâncias rítmicas e mudanças de andamento que quebram a previsibilidade, mantendo a faixa em constante movimento. O encerramento chega com “Outro (Necrophagus Larvae)”, faixa de um minuto e vinte e oito segundos que fecha o disco sem qualquer necessidade de grandiosidade. A produção favorece justamente essa estética direta: não existe informação disponível no Metal Archives sobre créditos específicos de produção, mixagem ou masterização, e o lançamento aparece oficialmente como independente, sem selo e em formato digital. Essa ausência de uma grande estrutura por trás acaba combinando com a própria natureza do trabalho, que soa como produto de um underground onde a urgência criativa vale mais do que acabamento luxuoso. A sonoridade prioriza impacto, peso e definição suficiente para que bateria, guitarras, baixo e vocais funcionem como uma única massa destrutiva.

No fim das contas, Eviscerated, Skinned and Ripped Under the Ice é daqueles discos que não chegam pedindo licença. A Regurgimentação Necrovaginal Sangrenta pega a linguagem do goregrind/brutal death, despeja velocidade, sujeira, humor grotesco e uma boa dose de insanidade conceitual, e entrega tudo em pouco mais de vinte minutos. A discografia mostra que não se trata de um projeto recém-chegado ao subterrâneo: depois da demo de 2015, do split com Pigskinner, do full-length Contos de Impulsos Antropofágicos, Mutilações, Desmembramentos e Manifestações de Doenças Crônicas em 2016, além dos lançamentos posteriores, a banda chega a 2026 mantendo sua identidade e aprofundando sua proposta. A capa e o próprio conceito visual caminham na mesma direção da música, reforçando a estética de horror, patologia e absurdo que atravessa o trabalho. Não é um álbum interessado em agradar ou facilitar a digestão; é uma peça de resistência do underground extremo, feita para quem entende que, às vezes, o melhor da música pesada está justamente naquilo que não pede permissão para ser feio, caótico e brutal. Aqui não existe polimento. Existe podridão sonora,  e ela vem em alta velocidade.

Tracklist:
1. Eviscerated, Skinned and Ripped Under the Ice
2. Coprophagia
3. Human Pot Pies
4. Enterobius Vermicularis Infestation on the Genital Tract
5. Joyful Fetus Christian Abort Clinic 02:20
6. Global Morbidity of Diverting Colostomies Following Surgical Management of Rectal Cancer
7. Starring at the Face of Death with Eyes Shut Open
8. Gore Metal Diabetic Amputation
9. The Zombie Easter
10. Outro (Necrophagus Larvae)

Line-up:
Lucas Scalet — Guitarras e Vocais
Emanuel Kronéis — Bateria e Vocais.
Dr. D. — Vocais.
Juan — Baixo.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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