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Decrépito – Decrépito (2026)

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Decrépito chega em 2026 com seu primeiro registro homônimo, um EP de seis faixas lançado de forma independente em 6 de junho, reunindo pouco mais de 19 minutos de material. Formado em Osasco, São Paulo, o grupo trabalha dentro de uma proposta assumidamente ligada ao black/thrash metal e, sobretudo, às raízes da primeira onda do black metal. A formação reúne Blasphemic Razor nas guitarras e baixo, Satanizer Piledriver na bateria e Nauhr Cunt Sodomizer nos vocais, combinação que resulta em uma sonoridade seca, agressiva e deliberadamente desprovida de qualquer preocupação com acabamento excessivamente limpo.

Não é preciso muito tempo para entender a proposta do Decrépito. Logo nos primeiros ataques de “Invocação Profana”, o EP abre as portas de um ambiente tomado por riffs ásperos, bateria veloz e vocais carregados de uma sujeira que parece ter sido arrancada diretamente de algum porão esquecido. A faixa funciona como uma verdadeira apresentação da estética da banda, alternando passagens mais aceleradas com momentos em que as guitarras assumem um caráter quase ritualístico, sustentadas por uma bateria que não busca floreios, mas impacto. “Clava de Satã” aprofunda essa direção com uma estrutura ainda mais direta e hostil, baseada em riffs cortantes, mudanças de andamento pontuais e uma condução que privilegia o peso da execução. É justamente nessa economia de recursos que o som encontra sua força: nada parece colocado ali para enfeitar. O baixo de Blasphemic Razor ajuda a engrossar a massa sonora, enquanto Satanizer Piledriver mantém a pancadaria funcionando com precisão suficiente para que o caos não perca o rumo.

“Velhos Mestres” talvez seja um dos momentos mais representativos da proposta conceitual do lançamento, funcionando como uma ode ao próprio espírito do metal negro e às figuras que ajudaram a moldar esse imaginário. A música carrega uma energia mais cadenciada em determinados trechos, permitindo que os riffs ganhem maior presença antes de voltar a acelerar, enquanto a guitarra trabalha com timbres crus e certa aspereza proposital. “Baphomet”, por sua vez, desloca o EP para uma atmosfera mais obscura e esotérica. Há uma preocupação maior com a construção de clima, fazendo com que os riffs assumam um caráter mais sinuoso sem abandonar a agressividade. A música cresce justamente pela repetição de determinadas ideias e pela insistência de sua atmosfera, como se a banda estivesse menos interessada em criar uma composição convencional e mais empenhada em estabelecer um transe profano. O vocal de Nauhr Cunt Sodomizer permanece áspero e frontal, funcionando como mais uma camada de sujeira dentro da sonoridade, sem buscar uma interpretação excessivamente teatral.

“Metal e Álcool” quebra parcialmente a atmosfera ritualística das faixas anteriores e aposta em uma postura mais boêmia, irreverente e diretamente ligada à cultura de bar, amizade e celebração do próprio metal. Musicalmente, a faixa mantém a sujeira característica do EP, mas apresenta uma pegada mais solta, com riffs que parecem feitos para acompanhar uma roda de headbangers em algum boteco obscuro. A temática é simples e assumidamente underground, servindo quase como um manifesto de camaradagem dentro da cena. O encerramento fica por conta de “Decrépito”, faixa-título que resume boa parte da identidade construída ao longo do trabalho. Aqui, as guitarras voltam a assumir uma postura mais afiada, a bateria ganha velocidade e o vocal aparece ainda mais agressivo, criando uma conclusão que não tenta suavizar absolutamente nada. O resultado é uma faixa que funciona como síntese estética do EP: riffs diretos, atmosfera profana, velocidade, peso e uma atitude que coloca a essência do metal acima de qualquer preocupação com tendências.

Gravado durante março de 2026 no Manillar Studios, o material foi produzido e mixado por Cláudio e Orlando, e essa escolha de produção conversa perfeitamente com a proposta musical. O som não procura transformar a banda em uma produção moderna e excessivamente cristalina; pelo contrário, preserva certa aspereza nos instrumentos, permitindo que as guitarras mantenham suas arestas e que a bateria continue soando física e agressiva. O baixo não desaparece completamente dentro da mixagem, ajudando a sustentar a densidade das guitarras, enquanto a bateria permanece suficientemente evidente para conduzir as mudanças de velocidade. O resultado é cru, mas não desorganizado. Existe uma diferença importante entre uma gravação propositalmente rústica e uma gravação simplesmente mal executada, e o Decrépito consegue permanecer do lado certo dessa linha. A arte de capa, desenvolvida por Tatiana T. Bellini, da Satvrnvs Noctvrna Art, complementa essa identidade ao reforçar visualmente o caráter ocultista, decadente e agressivo apresentado pela música.

No fim, o primeiro Decrépito é um EP que sabe exatamente o que pretende ser. Não existe aqui tentativa de modernizar artificialmente a proposta, suavizar sua aspereza ou transformar a música em algo mais palatável. São seis atos curtos, diretos e carregados de uma devoção evidente ao lado mais primitivo, sujo e transgressor do metal extremo. A banda ainda está em seu começo, oficialmente formada em 2026, mas já apresenta uma identidade suficientemente clara para não soar como um simples exercício de nostalgia. “Invocação Profana”, “Clava de Satã”, “Velhos Mestres”, “Baphomet”, “Metal e Álcool” e “Decrépito” formam um conjunto coeso, onde cada faixa cumpre uma função dentro da pequena liturgia profana construída pelo grupo. É material para quem entende que, no underground, nem sempre é necessário inventar alguma novidade mirabolante: às vezes basta tocar alto, sujo, com convicção e sem pedir licença. O Decrépito faz exatamente isso em seis faixas, quase vinte minutos e nenhuma intenção de pedir desculpas pelo barulho.

Tracklist:
1. Invocação Profana
2. Clava de Satã
3. Velhos Mestres
4. Baphomet
5. Metal e Álcool
6. Decrépito

Line-up:
Blasphemic Razor — Baixo, Guitarras.
Satanizer Piledriver — Bateria.
Nauhr Cunt Sodomizer — Vocais.

Contatos: Instagram | Bandcamp| Spotify

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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