Início Brasil Malefactor – The Sentinels (2025)

Malefactor – The Sentinels (2025)

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Quase três décadas e meia de estrada não transformam o Malefactor em uma simples peça de arquivo do metal brasileiro. Desde Salvador, em 1991, a banda construiu uma identidade própria dentro do metal extremo, atravessando Death, Black, Heavy e uma forte inclinação épica, sempre alimentada por história, mitologia, fantasia e ocultismo. A trajetória passa pelas demos “Sickness” e “Into the Black Order”, pelo impacto de Celebrate Thy War (1999), pelos trabalhos seguintes e por uma caminhada que levou o grupo inclusive às primeiras incursões europeias de uma banda do Norte/Nordeste brasileiro. Depois de oito anos desde Sixth Legion (2017), The Sentinels surge como uma espécie de retorno às armas: quatro composições novas, pouco mais de vinte e um minutos, mas carregadas daquele senso de grandiosidade que nunca abandonou o grupo. Lord Vlad assume vocais, baixo e guitarras, ao lado de Danilo Coimbra e Jafet Amoêdo nas seis cordas e Daniel Falcão na bateria.

É na faixa-título que o ataque começa a ganhar forma. “The Sentinels” chega veloz, pesada e sem rodeios, sustentada por riffs que empurram a música para frente enquanto os vocais de Lord Vlad imprimem aquele caráter narrativo, quase como se a faixa estivesse contando uma velha história de guerra em meio a ruínas e feitiçaria. O tema mergulha no universo de Robert E. Howard, particularmente em Thulgra Khotan, figura da Stygia, e essa inspiração aparece não apenas na letra, mas na própria atmosfera da composição. A produção favorece as guitarras e mantém o peso sem transformar tudo numa massa indistinta, permitindo perceber os desenhos melódicos que surgem entre os ataques mais agressivos. Já “Baron Samedi” abre espaço para uma construção mais cadenciada e teatral, inspirada no Loa do vodu haitiano. A música alterna momentos mais pesados com passagens vocais diferenciadas e uma condução instrumental que cria uma espécie de procissão profana.

Se “Baron Samedi” mergulha nesse ambiente ritualístico, “Cristozofrenia” prefere atacar de frente. A composição acelera o passo e mergulha em um território mais agressivo, trabalhando riffs rápidos, bateria incisiva e vocais extremos, mantendo, porém, aquelas linhas melódicas que impedem o caos de tomar conta da música. O próprio título já aponta para o conflito entre Cristo, fé e perturbação espiritual, e o Malefactor transforma essa temática em uma faixa compacta e venenosa. Na sequência, “Aghori – Purification and Profanation” apresenta outro lado da banda. A temática dos Aghoris e de sua relação com práticas ascéticas e espaços funerários encontra correspondência numa composição mais atmosférica, melodiosa e cheia de mudanças de dinâmica. As guitarras de Danilo Coimbra e Jafet Amoêdo assumem papel fundamental, alternando peso, melodia e solos sem deixar a música perder sua função narrativa. Daniel Falcão segura a bateria com firmeza, enquanto Lord Vlad transita entre agressividade e passagens mais limpas.

Para quem chegar ao lançamento através da edição física, a experiência ainda ganha outras camadas. Enquanto a versão digital apresenta as quatro músicas novas, o CD acrescenta “Stygian Tomb”, “Medusa”, “War Pigs”, do Black Sabbath, “Angel of Death”, do Slayer, e “The Crimson Mist”, ampliando consideravelmente a duração e o caráter retrospectivo do material. “Medusa”, originalmente apresentada como single durante a pandemia, retorna retrabalhada e com novos arranjos, enquanto “Stygian Tomb” e “The Crimson Mist” ajudam a criar uma espécie de moldura para o conjunto. A presença das versões de Black Sabbath e Slayer também revela referências fundamentais para a formação musical do grupo, embora o Malefactor não dependa delas para definir sua identidade.

E quando o último acorde se desfaz, fica a sensação de que The Sentinels cumpre exatamente aquilo que se propõe: reafirmar a existência de uma banda que há décadas permanece fiel ao próprio caminho. Não existe aqui uma tentativa desesperada de reinventar o Malefactor; existe, antes, a necessidade de reafirmar uma identidade construída durante décadas. Peso, velocidade, melodias marcantes, vocais reconhecíveis e uma obsessão permanente por mundos povoados por guerreiros, entidades, deuses e maldições continuam sendo os elementos centrais dessa caminhada. A maturidade aparece na segurança das composições, no controle dos arranjos e na maneira como cada instrumento encontra seu espaço sem sufocar os demais. É um trabalho curto, mas suficientemente denso para deixar sua marca, especialmente quando “Aghori – Purification and Profanation” encerra o disco em clima grandioso. O Malefactor segue de pé, carregando consigo a memória de uma cena construída longe dos grandes centros e provando que certas chamas, quando alimentadas por convicção, simplesmente se recusam a morrer.

Tracklist:
1. The Sentinels
2. Baron Samedi
3. Cristozofrenia
4. Aghori – Purification and Profanation

Line-up:
Lord Vlad — Guitarra, Vocais e Baixo.
Danilo Coimbra — Guitarra.
Jafet Amoêdo — Guitarra.
Daniel Falcão — Bateria.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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