Início Brasil Poeticus Severus – Pactvs (2026)

Poeticus Severus – Pactvs (2026)

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Três décadas de underground não se comemoram com discurso bonito. Comemora-se colocando um disco na rua e deixando o barulho falar. É exatamente isso que o Poeticus Severus, nome consolidado dentro do Epic Black Metal brasileiro, faz em PACTVS, trabalho que chega em 2026 carregando a história construída por Cesar Severus desde a segunda metade dos anos 90. A banda surgiu em 1997 com uma proposta que sempre transitou pelo metal extremo, atmosferas épicas, lirismo sombrio e conceitos ligados à Arte e à Ciência Hermética, elementos que ajudaram a moldar sua identidade dentro do underground nacional. De lá para cá vieram demo, participações em coletâneas, registros independentes, o full length Ser Guerreiro é a Nossa Lei! Se não for a alegria do mundo, a nossa será!, além de Fulgor Sombrio, O Rugir da Ira e o EP Severos Sigilos da Guerra. PACTVS é resultado dessa trajetória construída no faça-você-mesmo, sem abandonar a personalidade da banda. Cesar Severus assume vocais e guitarra principal, Alexandre Dias ocupa a segunda guitarra, Cecília Katrini acrescenta baixo, piano e vocais líricos, enquanto Mkult assume a bateria. É uma formação que dá ao som uma dimensão mais encorpada, mas sem retirar aquela sensação de metal feito para existir longe das vitrines.

“Sigilos da Guerra” abre o disco com quase dez minutos e já deixa claro que aqui não existe pressa para entregar tudo de uma vez. A faixa trabalha peso, atmosfera e tensão dentro de uma construção longa, conduzida por guitarras que sustentam o caráter sombrio da composição enquanto os vocais empurram a narrativa para um cenário de batalha, símbolos e confronto. “Para além do Inferno” vem mais curta e direta, mas conserva a mesma densidade, carregando imagens de guerra, morte e travessia. A letra é de Luiz Carlos Pereira de Oliveira, o Luiz Bardus, e mantém aquela linguagem carregada que combina com a proposta do Poeticus Severus. Depois vem “Pactvs”, com quase treze minutos, a faixa que concentra boa parte da essência do álbum. É longa, pesada e construída sem preocupação com fórmulas rápidas. A música avança, alternando força e atmosfera, deixando as guitarras ocuparem espaço e fazendo do tempo uma ferramenta para construir o clima. Não é faixa para ouvir correndo. “Vórtice do Eu” muda o foco da guerra externa para o conflito interno, trabalhando identidade, vazio e dissolução em uma composição igualmente carregada. É quando o disco deixa de olhar apenas para espadas e batalhas e encara o sujeito diante do próprio abismo.

Se a primeira metade estabelece o campo de batalha, “A Lei do Ferro” entra rasgando. A faixa recupera o imaginário de guerra, força, sangue e resistência, com uma construção que combina agressividade e solenidade. O ferro aqui não é apenas imagem: torna-se princípio, peso e regra. “Quando o Caos Explode” amplia essa sensação e transforma o caos em força destrutiva. A composição ganha espaço para desenvolver sua atmosfera durante quase oito minutos, enquanto a letra trabalha ruína, matéria, abismo e ausência de ordem. As duas guitarras ajudam a engrossar o corpo do disco, enquanto baixo e bateria dão sustentação para que as passagens mais atmosféricas não percam peso. Cecília Katrini, além do baixo, coloca o piano e os vocais líricos dentro dessa arquitetura, criando contrastes que aparecem sem descaracterizar a aspereza do conjunto. “O Altar da Dissolução” segue por uma estrada ainda mais escura, falando de queda, dogma, desolação e ruptura. É uma das faixas em que o lado ritualístico do Poeticus Severus fica mais evidente. O som continua pesado, mas existe espaço para a atmosfera respirar.

“Armorial” chega como uma velha conhecida do universo da banda, agora apresentada em versão 2026. A faixa traz de volta o imaginário de batalha, irmandade, conquista e liberdade, funcionando quase como uma declaração de princípios dentro do álbum. Não é uma composição deslocada do passado, mas uma peça que ganha novo contexto ao lado desse repertório. A história de “Armorial” remonta aos primeiros registros promocionais do grupo e sua presença reforça uma característica importante do Poeticus Severus: recuperar elementos da própria trajetória sem simplesmente viver de nostalgia. Fechando o trabalho, “Mortalha III” aparece como faixa bônus e instrumental, composta por Cecília Katrini. São pouco mais de dois minutos que funcionam como uma espécie de saída silenciosa depois de toda a pancadaria conceitual anterior. A produção de PACTVS ficou nas mãos de Cesar Severus, responsável também pela mixagem e masterização no Gruta Estúdio, em maio de 2026, enquanto a bateria foi registrada por Mkult no Estúdio HCR, em abril. A capa e o projeto gráfico seguem a mesma lógica artesanal do restante da obra: Cesar assume arte, layout e finalização, enquanto Cecília Katrini responde pelas ilustrações da capa e de páginas do encarte.

PACTVS não tenta parecer outra coisa. E isso já diz bastante. É um álbum que assume suas raízes, suas obsessões e sua maneira particular de construir o metal. Guerra, caos, morte, força, dissolução e simbolismo aparecem espalhados pelas nove faixas, mas o disco não depende apenas das letras para funcionar. Existe uma preocupação evidente com arranjos, atmosferas e dinâmica, principalmente na maneira como guitarras, bateria, baixo, piano e vozes são colocados dentro das composições mais extensas. A produção também não busca apagar as marcas do underground; ao contrário, mantém a identidade de uma banda que há décadas constrói seu próprio caminho. Lançado em 1º de setembro de 2026 pelos selos Mutilation Records, Misanthropic Records, Ihells Productions, Eclipsys Lunarys Productions e Gruta do Bode Produções, PACTVS chega como registro de trinta anos de uma história que começou na independência e continua apostando em uma estética própria. Não é disco feito para agradar todo mundo, nem precisa ser. É material para quem ainda entende o metal como expressão, identidade e resistência cultural. Trinta anos depois, o Poeticus Severus continua levantando sua bandeira no underground. E PACTVS é mais um capítulo dessa guerra.

Tracklist:
1. Sigilos da Guerra
2. Para além do Inferno
3. Pactvs
4. Vórtice do Eu
5. A Lei do Ferro
6. Quando o Caos Explode
7. O Altar da Dissolução
8. Armorial
9. Mortalha III

Line-up:
Cesar Severus – Vocais e Guitarra.
Alexandre Dias – Guitarra.
Cecília Katrini – Vocais, baixo e piano.
Mkult – Bateria.

Gravadora: Mutilation Records, Misanthropic Records, Ihells Productions, Eclipsys Lunarys Productions e Gruta do Bode Produções.

Contatos: Instagram | Bandcamp | Spotify | Facebook

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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