O underground carioca ganha um novo capítulo com Realidade Fictícia, estreia em formato EP do Selvagem, power trio formado em 2022 por Carlos Marques (guitarra), Leonardo Sequeira (bateria) e João Savignon (baixo). Lançado independentemente em 2026, o trabalho apresenta três composições que transitam pelo doom metal, stoner rock e psicodelia, explorando uma sonoridade densa, cadenciada e carregada de atmosfera. A proposta ganha contornos particulares com a participação de Fabrina Villegas, Santiyaguo e Andrea Ruocco, convidados para assumir os vocais em diferentes faixas. A decisão amplia as possibilidades interpretativas do material e evita que as músicas compartilhem uma única identidade vocal. Com bases instrumentais registradas ao vivo no Hanoi Studio e camadas adicionais de guitarras, solos e vozes, o Selvagem aposta na organicidade da execução e na construção de um universo musical próprio.
“Espiral” abre o EP conduzindo o ouvinte por uma sequência de riffs pesados e prolongados, cuja repetição estabelece uma atmosfera hipnótica sem sacrificar as nuances instrumentais. A guitarra de Carlos Marques conduz o percurso, enquanto o baixo de João Savignon reforça a espessura sonora e a bateria de Leonardo Sequeira mantém uma pulsação que sustenta o desenvolvimento da composição. Fabrina Villegas assume os vocais com uma interpretação envolvente, criando um contraste interessante com a densidade instrumental. As referências a vozes misteriosas, contatos imediatos e experiências além da percepção cotidiana encontram correspondência na própria construção musical, que parece caminhar entre o concreto e o desconhecido. Em “Entre os Papéis”, Andrea Ruocco imprime uma interpretação mais dramática, acompanhando uma composição que carrega maior tensão emocional. Os riffs ganham contundência, a bateria reforça os momentos de enfrentamento e a letra aborda feridas, sobrevivência e reconstrução. O refrão surge como afirmação diante das adversidades, enquanto a instrumentação sustenta a intensidade sem perder o caráter arrastado que atravessa o EP.
“Incolor” fecha o registro com uma viagem de mais de oito minutos, aprofundando a dimensão psicodélica da proposta. Santiyaguo participa dessa composição, que trabalha com imagens de temporalidade fragmentada, ausência de identidade e realidades sobrepostas. A guitarra explora passagens prolongadas, enquanto baixo e bateria mantêm uma base sólida para o desenvolvimento dos diferentes momentos instrumentais. A repetição dos motivos musicais ganha um caráter quase ritualístico, ampliando a sensação de deslocamento sugerida pela letra. O Selvagem demonstra paciência na construção da faixa, permitindo que as ideias amadureçam sem recorrer a mudanças abruptas ou soluções previsíveis. Há uma conexão interessante entre a narrativa lírica e o comportamento dos instrumentos, como se a própria música reproduzisse a instabilidade de uma realidade que perde seus contornos. A participação vocal completa a proposta e reforça a diversidade interpretativa que constitui um dos principais atrativos do EP.
Registrado, mixado e masterizado por Perazzo no Hanoi Studio, Realidade Fictícia apresenta uma produção que valoriza a execução instrumental e a interação entre os integrantes. A guitarra ocupa posição central, mas o baixo não desaparece sob as camadas de distorção, contribuindo para a sustentação das frequências graves e para a espessura do conjunto. A bateria mantém presença dinâmica, articulando os diferentes momentos das composições sem comprometer a fluidez. A gravação das bases ao vivo ajuda a preservar uma organicidade importante para a proposta, enquanto os acréscimos posteriores ampliam as possibilidades de textura e interpretação. A participação de três vocalistas constitui uma escolha especialmente acertada, proporcionando contrastes expressivos e evitando a uniformidade. A arte de capa acompanha o conceito de realidade distorcida sugerido pelo título, complementando a atmosfera do lançamento. Mesmo em curta duração, o trabalho apresenta uma direção estética consistente, na qual peso, psicodelia e expressividade encontram espaço para coexistir.
Realidade Fictícia é uma estreia que merece atenção dentro do underground brasileiro. O Selvagem não precisa recorrer a excessos para demonstrar suas possibilidades: encontra força na construção dos riffs, na cadência instrumental e na capacidade de transformar diferentes interpretações vocais em elementos de identidade. O lançamento independente reforça o caráter autônomo dessa iniciativa carioca, que apresenta uma proposta suficientemente definida para despertar interesse pelos próximos passos. As três composições funcionam como diferentes entradas para um mesmo universo, alternando atmosferas hipnóticas, dramaticidade e deslocamento psicodélico. Há espaço para aprofundar essas ideias em um trabalho de maior duração, sobretudo explorando ainda mais as possibilidades instrumentais e as relações entre os vocais. Por enquanto, o trio entrega um registro pesado, envolvente e bem construído, daqueles que encontram seu melhor resultado quando o ouvinte se permite acompanhar cada riff sem pressa. O Selvagem começa sua trajetória com personalidade e deixa a expectativa de que essa realidade ainda tem muito a revelar.
Tracklist:
1. Espiral
2. Entre os Papéis
3. Incolor
Line-up:
Carlos Marques – Guitarra
João Savignon – Baixo
Leonardo Sequeira – Bateria
Fabrina Villegas – Vocais em “Espiral”
Andrea Ruocco – Vocais em “Entre os Papéis”
Santiyaguo – Vocais em “Incolor”









