Início Brasil Inferus – Paganus Ancestral: Uma Epopéia Pagã (2020)

Inferus – Paganus Ancestral: Uma Epopéia Pagã (2020)

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O Inferus carrega consigo uma trajetória no submundo underground do brasileiro. Formado em 1995, em Fortaleza, Ceará, posteriormente estabelecido em Recife, Pernambuco, o grupo construiu sua identidade entre o ocultismo, o paganismo e as manifestações mais obscuras do black metal. Após um período de atividades encerrado em 2003, a entidade retornou em 2017, trazendo consigo fragmentos de uma história que jamais repousou completamente. Lançado em 31 de março de 2020 pela Black Hearts Records, Paganus Ancestral – Uma Epopéia Pagã reúne 13 composições, recuperando registros de diferentes períodos e estabelecendo uma conexão entre o passado e a continuidade de uma expressão musical marcada pela devoção ao obscuro.

Os primeiros acordes de “Paganus Ancestral” abrem caminho para uma atmosfera de caráter ritualístico, na qual guitarras ásperas, bateria incisiva e vocalizações carregadas de obscuridade se entrelaçam em uma construção que evoca antigos cultos e cerimônias pagãs. A composição estabelece os alicerces da obra sem perder a força de sua manifestação sonora. “Fallun Profanum” prossegue nessa caminhada, sustentando uma sonoridade ríspida, com riffs que encontram na repetição e na densidade instrumental sua principal força expressiva. Em “Lacrimae (Nas Terras de Aiwass)”, originalmente registrada em 2001, o percurso assume contornos mais evocativos, permitindo que a música respire entre sombras e inquietações. Remasterizada por Joel Lima, no J.A. Studio, em 2018, a faixa preserva parte da atmosfera de sua gravação original, funcionando como uma janela para os primeiros anos da entidade.

Entre os registros recuperados, “Ritos, Marcha e Heresias”, “Lord of Archadia” e “Io Pan” aprofundam a dimensão espiritual e profana que atravessa o repertório. As guitarras conduzem uma paisagem sonora austera, enquanto baixo e bateria sustentam a marcha das composições, conferindo-lhes peso e continuidade. “Cult to the Lord of the Evil Light”, que também nomeia o trabalho de estreia do Inferus, lançado originalmente em 2003, permanece como uma das manifestações mais representativas dessa identidade. A música carrega a aspereza de uma época em que o black metal encontrava no espírito underground uma forma de resistência, sem necessidade de polimentos excessivos ou concessões estéticas. Aqui, a sonoridade permanece ligada à própria natureza de sua concepção, preservando o caráter sombrio que acompanha a história do grupo.

A atmosfera se torna ainda mais incisiva em “Infamous Imperium”, “Guerreiros Pagãos” e “Canto de Satã”, composições que reafirmam a presença do imaginário pagão e satânico na construção temática do Inferus. A última, com letra atribuída a Daimon, apresenta uma dimensão particularmente profana, enquanto os vocais adicionais de Black Poeticus e Inferus, creditados como vozes dos antigos pagãos, acrescentam uma camada cerimonial ao conjunto. A interpretação vocal, marcada pela aspereza e pela expressividade, encontra nas guitarras e na bateria o suporte necessário para sustentar essa atmosfera. Não se trata de ornamentar o obscuro, mas de permitir que ele permaneça presente em cada passagem, como uma manifestação que atravessa o tempo e encontra na música sua própria linguagem.

Quando “I Will Sing to Vênus”, “Sombras” e “Mendes o Sabá” conduzem os momentos finais, o Inferus reafirma a permanência de uma expressão que encontra no ocultismo e na tradição pagã suas principais referências. A diversidade temporal das gravações, compreendendo registros realizados entre 2000, 2001 e 2017, confere à compilação uma dimensão documental, reunindo diferentes capítulos de uma mesma história. A edição física, limitada a 100 exemplares em caixa com duas fitas cassete, adesivo metálico especial e cartão postal, valoriza esse caráter de preservação, enquanto a concepção artística de Inferus e Fiend, as artes de Emerson Maia e o trabalho de layout de Darkhein completam a apresentação. Paganus Ancestral – Uma Epopéia Pagã é, sobretudo, um testemunho de permanência. Entre antigas invocações, registros recuperados e a continuidade de uma entidade que atravessou décadas, o Inferus mantém acesa sua chama subterrânea, deixando que os ecos de sua própria história encontrem abrigo nas sombras do underground brasileiro.

Track list:
Side A
1. Paganus Ancestral
2. Fallun Profanum
3. Lacrimae (Nas Terras de Aiwass)

Side B
1. Paganus Ancestral
2. Fallun Profanum
3. Lacrimae (Nas Terras de Aiwass)

Side B
4. Ritos, Marcha e Heresias
5. Lord of Archadia
6. Io Pan
7. Cult to the Lord of the Evil Light

Side C
8. Infamous Imperium
9. Guerreiros Pagãos
10. Canto de Satã

Side D
11. I Will Sing to Vênus
12. Sombras
13. Mendes o Sabá

Line-up :
Ares (Vulcano) – Baixo
Black Poeticus – Vocal
Darkhein – Guitarras
Frymost K. – Teclados
Harmakyel – Bateria

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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