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Hecate Enthroned – The Corpse of a Titan, A Lament Long Buried (2026)

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Há bandas que sobrevivem ao tempo. Outras conseguem algo mais difícil: permanecem relevantes sem precisar correr atrás de tendências. O Hecate Enthroned pertence a esse segundo grupo. Formado em Merseyside, na Inglaterra, em 1993, o quinteto sempre carregou o peso de comparações com o Cradle of Filth, algo inevitável diante das semelhanças estéticas dos primeiros anos. No entanto, para quem acompanha o metal extremo há décadas, é evidente que o Hecate Enthroned construiu sua própria identidade, baseada numa combinação singular de black metal melódico, death metal e atmosferas sinfônicas carregadas de grandiosidade.

Após o excelente Embrace of the Godless Aeon (2018), a expectativa em torno de The Corpse of a Titan, A Lament Long Buried era elevada. Sete anos podem parecer uma eternidade no mercado musical atual, mas para bandas veteranas do underground extremo, o tempo costuma ser um aliado quando existe inspiração. Felizmente, este novo trabalho demonstra exatamente isso. Não se trata de uma tentativa desesperada de soar moderno, tampouco de uma reciclagem preguiçosa das fórmulas do passado. O que encontramos aqui é uma banda madura, segura de suas qualidades e plenamente consciente do legado que ajudou a construir dentro do black metal britânico.

A introdução “Adar Rhiannon” surge como uma invocação ancestral. Curta, atmosférica e carregada de mistério, funciona como o abrir dos portões para uma jornada inspirada nos mitos e lendas das Ilhas Britânicas. É um detalhe simples, mas importante para compreender o conceito do disco.

Sem demora, “Spirits Stir Within Our Ancestors Tombs” explode pelos alto-falantes mostrando que o Hecate Enthroned continua dominando a arte de equilibrar brutalidade e melodia. Os riffs possuem aquela característica majestosa que acompanha a banda desde os anos noventa, enquanto os teclados ampliam a sensação épica sem transformar a música em algo excessivamente sinfônico. O resultado é uma composição monumental, daquelas que lembram por que tantas bandas tentaram seguir esse caminho e poucas realmente conseguiram.

“The Arcane Golem” mantém o nível elevado. Aqui o foco recai sobre o peso das guitarras e sobre uma bateria extremamente dinâmica. A música apresenta uma agressividade mais direta, remetendo em alguns momentos à fase intermediária da banda, mas sempre preservando os elementos atmosféricos que fazem parte de sua assinatura.

“Steed of the Still Water” evidencia uma das maiores virtudes do álbum: a capacidade de criar imagens sonoras. É fácil imaginar paisagens antigas, ruínas esquecidas e narrativas mitológicas tomando forma enquanto a música se desenvolve. As melodias são envolventes e demonstram uma maturidade composicional que apenas grupos com décadas de estrada conseguem alcançar.

Uma das grandes surpresas do disco aparece em “Pwca”. Inspirada no folclore galês, a faixa apresenta estruturas menos convencionais e uma atmosfera inquietante. É o tipo de composição que desafia o ouvinte e recompensa aqueles que dedicam tempo a absorver seus detalhes. Em uma época em que muitos lançamentos parecem excessivamente previsíveis, esse tipo de ousadia merece reconhecimento.

“Deathless in the Dryad Glade” reforça o lado mais melancólico da obra. Os arranjos são belíssimos e a combinação entre as camadas de teclados e as guitarras cria momentos genuinamente emocionantes. Não é exagero dizer que esta é uma das músicas mais inspiradas do álbum.

“A Gallery of Rotting Portraits” devolve parte da agressividade ao repertório. Os riffs ganham destaque e a banda entrega uma execução afiada, demonstrando que continua plenamente capaz de produzir black metal extremo sem depender exclusivamente de elementos sinfônicos.

“The Boreal Monastery” representa um dos pontos altos do disco. Existe uma grandiosidade quase cinematográfica permeando toda a composição. Os teclados são utilizados com inteligência, servindo para ampliar a atmosfera sem comprometer o peso. É uma faixa que sintetiza perfeitamente o que o Hecate Enthroned se tornou ao longo de sua trajetória.

O encerramento com “Into a Vale of Endless Snow” é simplesmente magnífico. A composição reúne todos os elementos explorados anteriormente e oferece uma conclusão digna para uma obra construída como uma verdadeira jornada. O sentimento ao final é de contemplação, como se o ouvinte tivesse atravessado um antigo conto sombrio narrado através do metal extremo.

Musicalmente, o álbum encontra-se em algum lugar entre o black metal sinfônico clássico dos anos noventa, o death metal melódico e a tradição épica que sempre acompanhou a banda. As influências estão presentes, mas jamais soam derivativas. Há ecos da velha escola britânica, do black metal europeu e até mesmo de momentos que remetem ao metal extremo escandinavo, porém tudo filtrado pela personalidade própria do Hecate Enthroned.

Outro aspecto digno de elogios é o trabalho da M-Theory Audio. Em um mercado cada vez mais dominado por lançamentos descartáveis e algoritmos, a gravadora tem desempenhado um papel importante na manutenção de nomes históricos do underground e na divulgação de trabalhos que dificilmente receberiam a atenção merecida em grandes selos. A parceria demonstra total sintonia com a proposta artística da banda.

O mais interessante em The Corpse of a Titan, A Lament Long Buried é perceber que o Hecate Enthroned não busca provar nada para ninguém. A banda simplesmente faz aquilo que sabe fazer melhor: criar metal extremo sombrio, épico, sofisticado e profundamente atmosférico. Para quem acompanhou a explosão do black metal sinfônico nos anos noventa, ouvir este disco é quase como reencontrar um velho amigo que envelheceu com dignidade. Para as novas gerações, é uma excelente oportunidade de descobrir por que o nome Hecate Enthroned continua ocupando um lugar de respeito dentro da história do metal extremo.

Num cenário onde muitos veteranos vivem apenas da nostalgia, o Hecate Enthroned demonstra que ainda possui criatividade, inspiração e relevância. The Corpse of a Titan, A Lament Long Buried não é apenas mais um lançamento de uma banda clássica; é uma reafirmação de que a chama do verdadeiro metal extremo continua acesa.

Tracklist
1. Adar Rhiannon
2. Spirits Stir Within Our Ancestors Tombs
3. The Arcane Golem
4. Steed of the Still Water
5. Pwca
6. Deathless in the Dryad Glade
7. A Gallery of Rotting Portraits
8. The Boreal Monastery
9. Into a Vale of Endless Snow

Line-up
Joe Stamps – Vocal
Nige Dennan – Guitarra
Andy Milnes – Guitarra
Dylan Hughes – Baixo
Pete White – Piano/teclados
Matt Holmes – Bateria

Contatos: Instagram | Bandcamp | Facebook

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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