Em uma época em que boa parte dos lançamentos parece nascer com prazo de validade determinado pelos algoritmos e pela velocidade das plataformas digitais, encontrar um álbum que convida à audição atenta tornou-se algo cada vez mais raro. Enquanto muitas bandas apostam em fórmulas imediatistas para conquistar relevância instantânea, outras seguem trilhando caminhos mais longos, construindo suas carreiras sobre consistência, identidade e respeito à própria arte.
É justamente nesse grupo que se encaixa o Cova Rasa. Desde sua formação em São Paulo, a banda vem desenvolvendo uma trajetória pautada pela valorização do heavy metal tradicional, sem abrir mão de personalidade própria e de uma abordagem temática que transita entre o horror, a história e o imaginário popular. Depois de dois trabalhos que ajudaram a consolidar seu nome no underground brasileiro, o grupo alcançou em Another Time não apenas seu lançamento mais ambicioso, mas também o disco que melhor sintetiza sua evolução artística.
Lançado em abril de 2025, o terceiro álbum do Cova Rasa permanece relevante mesmo após um ano de seu lançamento. Mais do que um conjunto de músicas bem executadas, trata-se de uma obra que demonstra maturidade composicional, excelência na produção e uma compreensão clara daquilo que a banda deseja representar dentro do heavy metal contemporâneo.
A história do grupo começou em 2016, quando o guitarrista Jayme Danko e o tecladista Collins Freitas decidiram transformar em realidade uma proposta fortemente alicerçada nos pilares clássicos do heavy metal. Desde o início, a banda encontrou uma identidade própria ao abordar em suas letras temas ligados ao horror, lendas urbanas, acontecimentos históricos e personagens reais cercados por mistério e violência. Essa característica ficou evidente em Deadline (2018), álbum de estreia cantado integralmente em português, e foi aprofundada em Cruzando Infernos (2020), trabalho que ampliou o escopo narrativo da banda ao explorar episódios marcantes da história brasileira.
Mas foi com Another Time que o Cova Rasa encontrou seu ponto de equilíbrio. A adoção do inglês nas letras abriu portas para uma comunicação mais ampla sem comprometer a essência construída nos trabalhos anteriores. Pelo contrário: a mudança parece ter ampliado o alcance da proposta artística da banda, permitindo que suas histórias ganhassem uma dimensão ainda mais cinematográfica.
A formação responsável pelo disco reúne Ivan Martins nos vocais, Jayme Danko nas guitarras, Caio Caruso no baixo e Theo Machado na bateria. A chegada de Ivan, conhecido por seu trabalho à frente do Salário Mínimo, trouxe uma nova dinâmica ao grupo. Sua interpretação confere personalidade às composições e funciona como um elo entre o heavy metal clássico e a identidade própria que o Cova Rasa vem desenvolvendo ao longo dos anos.
A experiência começa com “The Red Mansion”, uma breve introdução instrumental que estabelece a atmosfera do álbum. Longe de funcionar apenas como uma abertura protocolar, a faixa cria um clima sombrio que conduz diretamente à excelente “Borley Rectory”. Inspirada na famosa construção inglesa conhecida por suas histórias sobrenaturais, a música apresenta alguns dos principais elementos que definem o trabalho: riffs marcantes, linhas vocais fortes, refrão memorável e uma narrativa que prende a atenção do início ao fim.
A sequência formada por “King of Ghouls” e “Black Shadow” reforça a consistência do álbum. Enquanto a primeira aposta em uma abordagem mais direta e agressiva, a segunda amplia o aspecto melódico da banda, revelando um trabalho de arranjos bastante cuidadoso. É nesse momento que fica evidente o crescimento do grupo como compositor. As músicas não se limitam a reproduzir fórmulas clássicas do gênero; existe uma preocupação constante em construir atmosferas e desenvolver narrativas capazes de sustentar o interesse do ouvinte.
Ao atingir sua parte central, Another Time mantém o alto nível criativo sem demonstrar qualquer sinal de desgaste. “Dr. Death” exemplifica bem essa consistência. Baseada na história de Marcel Petiot, a faixa combina peso, melodia e narrativa de forma bastante equilibrada, evidenciando o cuidado da banda na construção dos arranjos. O trabalho instrumental funciona como alicerce para uma composição que prende a atenção não apenas pelo tema abordado, mas também pela maneira como suas diferentes camadas sonoras são desenvolvidas ao longo da execução, resultando em um dos momentos mais sólidos de todo o álbum.
Na sequência, “Reaper’s Rival” mantém o alto nível sem recorrer à repetição de fórmulas. O álbum segue avançando com segurança até chegar a “Heartbreakers’ Hunter”, faixa que conta com a participação especial de Antonio Araújo. A presença do guitarrista acrescenta ainda mais densidade ao trabalho sem comprometer a identidade da banda. Pelo contrário, a colaboração surge de forma orgânica e contribui para enriquecer a composição.
A atmosfera sombria retorna com força em “Countess of Blood”, inspirada na figura histórica de Elizabeth Báthory. Aqui, o Cova Rasa demonstra mais uma vez sua habilidade para transformar personagens históricos em narrativas musicais envolventes. O equilíbrio entre peso, melodia e ambientação torna a faixa uma das mais representativas do conceito desenvolvido ao longo do álbum.
“Devil’s Road” surge como uma espécie de preparação para o grande encerramento da obra. É uma música que mantém a tensão elevada e funciona como ponte para “The Flying Dutchman”, composição épica que ultrapassa os onze minutos de duração. Diferentemente de muitas faixas extensas que acabam sacrificando objetividade em nome da grandiosidade, o Cova Rasa utiliza cada minuto de forma inteligente. A narrativa evolui naturalmente, os arranjos ganham novas camadas e a participação de Gui Calegari acrescenta ainda mais riqueza ao resultado final. Trata-se de uma conclusão ambiciosa e extremamente bem executada, encerrando o álbum de forma memorável.
Outro aspecto que merece reconhecimento é a produção conduzida pelo próprio Jayme Danko no Dual Noise Studio, com engenharia de áudio e gravação assinadas por Rogério Wecko. O trabalho alcança um equilíbrio admirável entre clareza e peso. Cada instrumento possui espaço próprio na mixagem, permitindo que os detalhes dos arranjos sejam percebidos sem comprometer o impacto sonoro. Em tempos de produções excessivamente comprimidas e artificiais, Another Time aposta em uma sonoridade orgânica e dinâmica, valorizando a execução dos músicos.
Embora lançado de forma independente, o álbum contou com um importante trabalho de divulgação e gestão de carreira desenvolvido pela Som do Darma. A atuação da empresa tem sido fundamental para ampliar a visibilidade do grupo dentro da cena nacional, promovendo shows, divulgação especializada e oportunidades que permitiram ao Cova Rasa alcançar novos públicos. Em um cenário underground onde muitas vezes a qualidade artística não é suficiente para garantir exposição, esse suporte desempenha papel decisivo na consolidação da banda.
O grande mérito de Another Time está justamente em sua capacidade de dialogar com a tradição sem parecer preso ao passado. O Cova Rasa demonstra profundo respeito pelas raízes do heavy metal, mas utiliza essas influências como ponto de partida para construir algo que possui personalidade própria. O resultado é um álbum que consegue agradar tanto aos apreciadores mais tradicionais quanto aos ouvintes que buscam composições bem estruturadas e carregadas de identidade.
Se Deadline representou o nascimento da proposta artística da banda e Cruzando Infernos consolidou seus alicerces, Another Time surge como a obra que eleva definitivamente o Cova Rasa a um novo patamar dentro do heavy metal brasileiro. É um disco que resiste ao teste do tempo, recompensa audições repetidas e demonstra que ainda há espaço para trabalhos concebidos com dedicação, coerência e visão artística. Em um mercado cada vez mais orientado pela velocidade, o Cova Rasa entrega justamente o contrário: um álbum feito para durar.
Tracklist:
1.The Red Mansion
2. Borley Rectory
3. King of Ghouls
4. Black Shadow
5. Dr. Death
6. Reaper’s Rival
7. Heartbreakers’ Hunter
8. Countess of Blood
9. Devil’s Road
10. The Flying Dutchman
Line-up:
Caio Caruso – Baixo
Douglas Oliveira – Bateria
Ivan Martins – Vocais
Jayme Danko – Guitarras
Flavio Sallin – Teclados








