Há algo de extremamente fascinante quando uma banda consegue soar como uma cápsula do tempo sem cair na simples reprodução nostálgica. É justamente esse espírito que move o Mortuário A.D., projeto solo de Victor Skullcrusher surgido em Fortaleza, Ceará, em 2023. Atuando de forma independente, o músico vem construindo uma discografia curta, mas bastante prolífica, mergulhada na tradição mais primitiva do metal extremo brasileiro. Entre demos e EPs, o projeto consolidou uma identidade baseada na violência sonora e na devoção à velha escola.
Depois dos EPs Bloodshed e Rites of Mayhem, lançados em 2025 e 2026, respectivamente, Bloody Destruction surge como o primeiro álbum completo do projeto, consolidando uma identidade que já vinha sendo esboçada nos trabalhos anteriores. Se antes o Mortuário A.D. demonstrava uma clara devoção ao período mais embrionário do Sepultura, neste trabalho a proposta permanece intacta, mas aparece mais madura e consistente. As composições são mais coesas, sem abrir mão da sujeira e da agressividade características.
A faixa de abertura, “Bloody Destruction”, deixa claro desde os primeiros segundos qual será o terreno percorrido ao longo do álbum. O Death/Thrash Metal apresentado remete diretamente aos primórdios de Sepultura, Sarcófago, Vulcano e Mutilator, carregando também aquela energia selvagem encontrada nos primeiros registros do Possessed. Os vocais rasgados e os riffs simples, porém eficientes, fazem da música uma verdadeira homenagem aos dias mais caóticos do underground da década de 1980.
Em “American Werewolf in London”, o Mortuário A.D. reforça sua ligação com o universo do cinema de horror. A composição é rápida, direta e carregada por uma energia quase punk, lembrando certas bandas obscuras da primeira metade dos anos 80. A temática inspirada no clássico filme de terror acrescenta uma atmosfera divertida e macabra ao disco, demonstrando que Victor Skullcrusher também sabe explorar o lado mais tradicional da relação entre heavy metal e filmes de horror.
“Maximum Carnage” aparece como um dos pontos mais fortes do trabalho. A música apresenta riffs mais encorpados e alguns momentos cadenciados que ampliam o peso da composição. Há ecos evidentes do primeiro Kreator e do Death em sua fase inicial, enquanto a atmosfera remete ao velho underground sul-americano. É uma faixa que demonstra um refinamento maior na construção das músicas em comparação aos lançamentos anteriores, sem comprometer a espontaneidade do projeto.
Na sequência, “Kill and Destroy” retoma a velocidade e reafirma uma característica importante do álbum: a objetividade. Não existem passagens desnecessárias ou tentativas de impressionar por meio da técnica. Tudo é construído para gerar impacto imediato, exatamente como ocorria nos clássicos mais primitivos do Thrash e do Death Metal. Essa simplicidade acaba se tornando uma das maiores qualidades do disco, que mantém um ritmo intenso praticamente do início ao fim.
“Die in Pain” traz uma atmosfera mais obscura e pesada, aproximando-se em alguns momentos da sonoridade encontrada em Scream Bloody Gore, obra fundamental do Death. A composição apresenta uma densidade maior e evidencia que o Mortuário A.D. consegue explorar diferentes nuances dentro de sua proposta old school. Trata-se de uma das faixas mais interessantes do álbum e talvez uma das que melhor revelam o potencial criativo do projeto para trabalhos futuros.
O encerramento com “Jason Returns from Hell” funciona como mais uma celebração do imaginário dos filmes slasher dos anos 80. A ligação entre terror e metal extremo sempre foi um elemento importante para inúmeras bandas do underground mundial, e Victor Skullcrusher demonstra compreender perfeitamente essa tradição. O resultado é uma música carregada de atmosfera, encerrando o disco de maneira coerente e mantendo o espírito sanguinário que permeia todo o trabalho.
Comparado aos EPs Bloodshed e Rites of Mayhem, Bloody Destruction revela uma evolução perceptível. Se os lançamentos anteriores possuíam uma abordagem mais próxima de demos, marcadas pela urgência e pela crueza absoluta, o debut apresenta maior unidade entre as faixas e uma identidade mais consolidada. Ainda há a sujeira e a espontaneidade características do projeto, mas agora elas aparecem acompanhadas de uma composição mais segura e equilibrada.
Mais do que um exercício de nostalgia, o Mortuário A.D. demonstra ser um legítimo continuador da tradição do metal extremo brasileiro. Em vez de buscar tendências modernas, Victor Skullcrusher prefere reverenciar a escola formada por Sepultura, Sarcófago, Vulcano, Sextrash e Mutilator, mantendo vivo um legado que ajudou a transformar o Brasil em uma referência mundial dentro do underground. Essa devoção às raízes soa sincera e distante de qualquer tentativa artificial de revivalismo.
Em tempos de produções excessivamente limpas e de um metal cada vez mais técnico, Bloody Destruction surge como uma manifestação genuína do espírito underground. Violento, cru e apaixonado pelas origens do gênero, o álbum não pretende reinventar nada, mas cumpre com eficiência sua missão de preservar a essência mais selvagem do metal extremo. E justamente por essa honestidade e fidelidade à velha escola, o debut do Mortuário A.D. se destaca como um dos lançamentos mais interessantes do underground cearense em 2026.
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