Diretamente do underground europeu, a Incarcerated abre espaço para contar sua história ao Cangaço Rock. A banda fala sobre o lançamento de Necrosphere, seu processo de composição, influências e os desafios de seguir produzindo death/thrash metal com autenticidade e intensidade.
CR – O Incarcerated nasceu em Londres em 2021 e, em apenas alguns anos, já conseguiu conquistar espaço na imprensa especializada e lançar um álbum extremamente consistente. Como surgiu a ideia de formar a banda e quais foram os principais objetivos desde o início? Existia a intenção de resgatar o Death/Thrash Metal clássico ou a proposta sempre foi criar uma identidade própria utilizando essas influências apenas como ponto de partida?
Incarcerated: A Incarcerated surgiu em um momento pós pandemia onde muitas bandas se dissolveram e muitas pessoas se mudaram de cidade, então todos nós estávamos procurando por novas bandas ou projetos e foi quando nos encontramos através de um anúncio em uma rede social de músicos a procura de bandas e como nós todos tínhamos o objetivo de mesclar Thrash e Death Metal tudo fluiu de forma natural e o fato de nosso som soar mais tradicional ou clássico tem a ver com nossas influências e tudo o que compomos, o objetivo é desenvolver essa identidade própria e trabalhar em uma constante evolução para próximos lançamentos.
CR – O EP lançado em 2022 já havia recebido uma recepção bastante positiva. Olhando para trás, quais vocês consideram terem sido as principais evoluções entre aquele primeiro trabalho e Necrosphere? O que mudou na composição, na forma de trabalhar em estúdio e até mesmo na visão artística da banda?
Incarcerated: O álbum Necrosphere envolveu uma produção muito mais elaborada, planejada e com pessoas mais experientes do que nosso primeiro EP que foi basicamente produzido pela banda e mixado por um amigo do nosso guitarrista na Espanha, já as gravações de bateria e vocais do Necrosphere ficaram a critério de Alessio Garavello um grande vocalista e produtor Italiano radicado em Londres, e a mixagem/masterização foram feitas pelo produtor Flemming Rasmussen no Sweet Silence Studios em Copenhagen onde passamos alguns dias com ele para definir a sonoridade que gostaríamos para o álbum, quanto a composições nós pensamos em um álbum do início ao fim e como gostaríamos que parecesse então construímos as músicas para que encaixassem no nosso conceito.
CR – Um dos pontos mais marcantes do álbum é justamente o equilíbrio entre técnica e agressividade. Em nenhum momento a execução parece exageradamente virtuosa, mas também não deixa de impressionar pela precisão. Como vocês trabalham esse equilíbrio durante o processo de composição? Existe uma preocupação em fazer com que a música sempre fale mais alto do que a técnica?
Incarcerated: Eu acho que a tua pergunta descreve parte dos nossos objetivos como músicos, que a técnica ou virtuosidade não ultrapasse a mensagem de que a música deve transmitir emoções, talvez contar uma história ou descrever um fato seja isso abstrato como um pesadelo ou concreto como um fato histórico e não soar mecânico ou com notas exageradas, não nos preocupamos com velocidade ou técnica elevada, apesar de as vezes soar rápido ou técnico. Queremos soar mais humanos e menos máquinas.
CR – As letras de Necrosphere abordam temas bastante variados, passando por alienação social, manipulação ideológica, religião, desigualdade econômica, guerras e até reflexões existenciais. Como nasceu o conceito do álbum? Vocês já tinham essa linha temática definida antes mesmo das composições ou ela foi surgindo naturalmente conforme as músicas eram sendo escritas?
Incarcerated: A ideia de usar a música Necrosphere como título do álbum veio durante o processo de composição já que é uma música que engloba tudo o que se pode encontrar nas outras músicas em termos de instrumental e acabamos adicionando um versos escritos pelo nosso baixista Andy Butler para a gravação dos vocais, eu escrevo sobre temas variados relacionados ao homem como um ser Biopsicossocial então tudo o que se lê nas letras está relacionado a este tema.

CR – Musicalmente é possível perceber ecos de bandas como Slayer, Kreator, Carcass e outros grandes nomes do Thrash e do Death Metal. Ao mesmo tempo, o álbum possui personalidade suficiente para não soar como mera homenagem aos clássicos. Quais artistas vocês consideram fundamentais na construção da identidade sonora do Incarcerated e quais influências talvez passem despercebidas pelos ouvintes?
Incarcerated: Chuck Schuldiner é minha maior influência, o Death foi uma banda fundamental para o Metal e para nós não é diferente e obviamente temos influência dos clássicos citados na tua pergunta e também passando por Thrash Metal da bay area, a escola alemã, Death metal da Flórida e Swedish Death and Melodic Death Metal mas ouvimos inúmeras outras bandas de outros estilos não incluindo Metal.
CR – O trabalho das guitarras chama bastante atenção pela variedade de riffs e pelas harmonizações muito bem construídas. Como funciona a parceria entre Lander da Silva e Rafael Rojo durante a composição? Os riffs surgem individualmente ou existe um processo bastante colaborativo dentro da banda?
Incarcerated: A maioria dos riffs surgem individualmente já que nos dois procuramos fazer 2 ou 3 versões de cada riff e levamos a melhor para a construção de uma música e então fazemos as modificações finais no ensaio onde a participação é de todos para o produto final.
CR – Outro aspecto bastante elogiável é a produção sonora. O disco apresenta enorme definição sem perder a sensação orgânica que caracteriza os grandes clássicos do Metal extremo. Como foi trabalhar com Alessio Garavello na produção e, principalmente, contar com Flemming Rasmussen na mixagem e masterização? Em algum momento vocês perceberam que o álbum havia alcançado exatamente a sonoridade que imaginavam?
Incarcerated: Durante o processo de mixagem em Copenhagen nós percebemos que o som do album estava ficando como buscávamos, com o máximo de qualidade possível e com clareza, o Alessio e o Andy foram muito competentes quanto a gravação e produção em estúdio e conseguiram extrair com o máximo de qualidade o som que foi enviado para o Flemming que é um profissional muito focado no seu trabalho, com muita experiência e que dispensa apresentações quanto ao seu produto final.
CR – Flemming Rasmussen é um nome que ajudou a moldar parte da história do Heavy Metal através de trabalhos lendários com o Metallica e diversas outras bandas. Como foi receber o material finalizado por alguém com tamanha importância para o gênero? Houve algum comentário ou orientação dele durante esse processo que tenha marcado vocês?
Incarcerated: A importância do Flemming para a música mundial e especialmente para o Metal é indiscutível, nós sabíamos que receberíamos um trabalho de peso e nos esforçamos muito para extrair o máximo das gravações, ele nos recebeu muito bem, nos buscou no aeroporto e no estúdio ouviu nossas ideias para o álbum com muita atenção e fez anotações das ideias que viriam fazer parte da mix final, ele contou muitas histórias sobre bandas em que trabalhou no passado incluindo Evile, Metallica, Morbid Angel, Artillery e estava sempre questionando se estávamos de acordo com o processo.
CR – As músicas apresentam bastante dinâmica, alternando momentos extremamente rápidos com passagens mais cadenciadas e atmosferas que ampliam o impacto das composições. Esse cuidado com os arranjos foi algo planejado desde o início ou surgiu naturalmente durante os ensaios e gravações?
Incarcerated: Algumas coisas foram planejadas tais como estrutura, velocidade, conceito das letras forma de gravar o vocal e outras surgiram no decorrer das composições tais como adicionar vocais extras em algumas partes ou mudar alguns rolos de bateria para preceder o próximo riff e marcar mais alguma parte da música.
CR – “Ocean of Metal” chama atenção por abordar um acontecimento histórico específico, enquanto outras faixas mergulham em questões filosóficas e sociopolíticas. O que desperta esse interesse da banda por temas tão distintos? Existe algum critério para escolher os assuntos que serão transformados em música?
Incarcerated: Para este álbum eu não tive critério para as letras, eu escrevo sobre temas muito variados e isso pode ser uma reflexão pessoal a respeito da própria existência até um fato histórico que mudou o rumo da humanidade como foi o Dia D, operação Overlord foi a resposta do mundo à proliferação do Nazi/Fascismo na Europa descrito na letra de Ocean of Metal.

CR – A arte de capa transmite perfeitamente a atmosfera sombria e decadente presente nas letras. Como foi o processo de desenvolvimento desse conceito visual junto ao artista Ivan Stan? Vocês já tinham uma ideia muito clara do resultado desejado ou deram liberdade para que ele interpretasse musicalmente o álbum?
Incarcerated: A ideia da capa de Necrosphere veio após eu pesquisar sobre arte surrealista principalmente de artistas poloneses como Mariusz Lewandowski e Zdzislaw Beksinski os quais sou muito fã, o conceito de Necrosphere é uma analogia à existência marcada por um ciclo histórico de brutalidade e destruição e foi onde o artista Ivan Stan conseguiu retratar isso na capa do nosso álbum, a parte falada nessa letra foi um verso escrito pelo nosso baixista o Andy Butler.
CR – Vivemos um momento em que o Metal extremo recebe diariamente centenas de lançamentos ao redor do mundo. Na opinião de vocês, quais características tornam Necrosphere um álbum diferente dentro desse cenário extremamente competitivo? O que vocês acreditam que fará o ouvinte retornar ao disco repetidas vezes?
Incarcerated: Eu acredito que ao mesmo tempo que o Metal recebe inúmeros lançamentos existem inúmeros fãs querendo ouvir e estes fãs vão gostar ou não da nossa música e isso depende muito do que as pessoas estão procurando, nós procuramos desde o início investir nosso tempo e nosso trabalho em qualidade, e focar em composições com alma e dinâmica e eu acredito que isso falta muito hoje em dia já que eu ouço muitos álbuns que soam parecidos ou com músicas repetitivas ou mecânicas.
CR – A banda reúne músicos com diferentes experiências e nacionalidades. Essa diversidade cultural influencia diretamente o processo criativo do Incarcerated? Cada integrante traz referências específicas que acabam enriquecendo a sonoridade final?
Incarcerated: Sem dúvida, cada um de nós vem de um país com cultura e história diferentes e isso traz ideias para as composições baseadas nas influências individuais de cada integrante que não são somente relacionadas a música.
CR – Após o lançamento do álbum, vocês iniciaram uma série de apresentações pela Inglaterra, Bélgica e Irlanda. Como tem sido a resposta do público às novas músicas? Existe alguma faixa de Necrosphere que tenha surpreendido vocês pela reação dos fãs durante os shows?
Incarcerated: As pessoas tem diversas reações a respeito do nosso som, se eles não nos conhecem a experiência ao vivo pode ser de surpresa e para quem conhece nosso som assistir ao vivo se torna uma experiência legal também, as faixas preferidas ou mais comentadas são Fatal Fate e Deprived.
CR – Para finalizar, depois de um álbum tão consistente como Necrosphere, naturalmente cresce a expectativa em torno dos próximos passos do Incarcerated. Quais são os planos da banda para os próximos meses? Podemos esperar novas turnês, videoclipes, edições especiais do álbum ou até mesmo o início das composições para um futuro sucessor de Necrosphere?
Incarcerated: Estamos em fase de adaptação com o novo baterista, Hercules Tsekouras que está com nós a menos de um ano e estamos em fase de edição do vídeo de um Live in Studio gravado em Londres no histórico Battery studios e produzido por Alessio Garavello que contará com duas faixas a serem lançadas até o fim do ano em streaming e no YouTube, este lançamento terá uma grande surpresa já que gravamos uma cover de uma banda que é uma das maiores influências para a Incarcerated e para o próximo ano estaremos trabalhando constantemente em músicas para um novo álbum e também continuaremos a divulgar o trabalho do Necrosphere.
CR – Gostaríamos de agradecer pela disponibilidade e pelo excelente bate-papo. Desejamos muito sucesso ao Incarcerated na divulgação de Necrosphere e deixamos este espaço aberto para que vocês enviem uma mensagem aos leitores brasileiros e aos headbangers que acompanham o trabalho da banda.
Incarcerated: Agradeço imensamente essa oportunidade de poder mostrar um pouco do trabalho da Incarcerated e e que mantenhamos contato para futuras entrevistas, abração a todos. We are Incarcerated!









