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ENTREVISTA – Diabállein

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O verdadeiro Black Metal nunca precisou de aprovação, apenas de convicção. Em entrevista exclusiva ao Cangaço Rock, o DIABÁLLEIN revela a filosofia, o caos e a devoção que moldam sua trajetória, reafirmando sua posição entre as expressões mais autênticas da escuridão nacional.

CR – O Diabállein chega a Anti Sacra depois de uma trajetória construída de forma sólida dentro do underground. Quando vocês olham para a banda que nasceu em 2011 e a comparam com a que lança este novo trabalho, quais são as principais transformações que aconteceram ao longo desse caminho? O amadurecimento veio de forma natural ou foi resultado de escolhas conscientes sobre a direção musical que pretendiam seguir?
Jean Misfortune: Sempre buscamos fazer nossas composições de maneira instintiva, sem pensar em validação. Principalmente nos últimos tempos, fazemos música de forma egoísta para provocar uma catarse, colocar para fora o que sentimos. O Anti Sacra é reflexo desse contexto. Claro que hoje obtemos mais experiência para compor e estruturar as músicas através desses anos.

CR – Mais do que um simples título, Anti Sacra transmite a sensação de um manifesto. Existe um conceito central costurando todas as composições ou cada música representa uma visão específica dentro dessa proposta? Até que ponto o álbum foi pensado como uma obra única, em vez de apenas um conjunto de faixas?
Jean Misfortune: O álbum é um grito filosófico para exprimir a realidade tocável do mundo, expurgando conceitos metafísicos e abstratos que procuram respostas místicas em mundos inventados pelo temor da finitude da existência — um exemplo seria o sagrado, que dá conforto às pessoas. As músicas são conectadas, pois falam da condição humana, admitindo de maneira corajosa a finitude da vida. Ele ecoa a celebração da morte, e essa celebração é a valorização da existência na sua profundidade mais intrínseca, na criação de valores autênticos.

CR – O disco apresenta uma dinâmica muito interessante entre momentos de extrema agressividade e passagens carregadas de atmosfera. Como funciona o processo de composição dentro do Diabállein? As músicas surgem a partir de um riff específico, de uma ideia conceitual ou o desenvolvimento acontece de forma coletiva durante os ensaios?
Jean Misfortune: Como foi dito acima, as músicas são feitas de maneira instintiva, levando em consideração o momento em que estamos vivendo; os riffs nascem junto com as letras. Não fazemos música apenas por fazer arte pela arte ou com o intuito comercial de abranger um grande número de pessoas. Fazemos isso porque é a nossa vida, e aproveitamos cada instante quando estamos ensaiando com entusiasmo. Fazemos pouquíssimos shows, pois a maioria deles exige um esforço incondicional das bandas na realidade brasileira, e sem muito retorno. Diante dessa conjuntura, somos felizes ao nosso modo.

CR – Um aspecto que chama bastante atenção é a construção dos riffs. Eles não servem apenas como elemento de impacto, mas conduzem toda a narrativa das músicas. Existe uma preocupação em criar composições que permaneçam marcantes mesmo após várias audições, ou vocês preferem deixar que esse resultado aconteça naturalmente durante o processo criativo?
Jean Misfortune: Acho que não. Não existe preocupação; há, sim, algumas pequenas mudanças de vez em quando, mas nada que danifique a estrutura da música radicalmente. Então, as coisas acontecem mais naturalmente, apenas com pequenas lapidadas.

CR – Em Anti Sacra, a sensação é de que técnica e atmosfera caminham lado a lado. Em nenhum momento o virtuosismo parece se sobrepor à essência do Black Metal. Como vocês encontram esse equilíbrio entre execução precisa e intensidade emocional sem comprometer a identidade da banda?
Jean Misfortune: As técnicas foram adquiridas através do tempo de modo empírico, mas isso não sobrepõe nossa essência, que na realidade é o entusiasmo de fazer acontecer. Então, é nessa essência nossa que reside esse entusiasmo, possibilitando tirar alegrias das profundas tristezas, das tragicidades da vida, e assim seguimos fortes e íntegros no que fazemos.

CR – A produção do álbum alcança um equilíbrio interessante entre definição e crueza. Hoje, muitos discos extremos acabam perdendo personalidade por conta de produções excessivamente polidas. Como foi encontrar o ponto ideal para que Anti Sacra soasse pesado, orgânico e fiel à proposta do Diabállein?
Jean Misfortune: Não fazemos uso de metrônomo para não deixar as músicas mecânicas. Gravamos do modo antigo. Para você ter uma ideia, na música “Eternal Vortex”, eu e meu irmão, Ivan Phobos, saímos no soco, literalmente, para acertar o andamento da música. Depois que a briga se encerrou, eu com o nariz sangrando e ele com o olho roxo, nos olhamos e ele disse: “Agora vamos acertar a música”. Sem ressentimentos, pois o ressentimento é algo próprio dos espíritos fracos.

CR – A arte de capa dialoga diretamente com o universo construído pelo álbum. Qual foi o processo de desenvolvimento desse conceito visual? Houve uma troca constante entre a banda e o artista responsável para que a identidade gráfica refletisse exatamente a atmosfera das composições?
Jean Misfortune: Sim, passamos nossas ideias a ele, toda a atmosfera que queríamos e, a partir daí, o Rubens Snitram colocou sua criatividade de maneira autêntica, pintando uma das melhores artes do Black Metal, na minha opinião. Essa arte será reconhecida um dia; ela é póstuma. Ele também está elaborando a nova arte do próximo álbum.

CR – O Black Metal sempre carregou uma forte carga filosófica e simbólica. Na visão de vocês, esse aspecto ainda possui a mesma relevância nos dias atuais ou a música passou a ocupar um papel mais importante do que a própria mensagem dentro da cena extrema?
Jean Misfortune: Nos dias atuais, a maioria das pessoas, inclusive dentro da chamada cena, não está preocupada nem sequer com as próprias músicas em si, quem dirá com a filosofia. As músicas, para a maioria, só servem como trilhas sonoras para documentarem vidas fúteis e patéticas nas redes sociais. As pessoas estão cada vez mais irrelevantes: não leem livros e usam o Spotify enquanto ficam rolando as telas de seus celulares. Por isso, pregamos a misantropia, como um eremita que deixou a multidão e se retirou em busca de sabedoria; talvez essa seja a simbologia mais fiel daquilo que estamos fazendo no Diabállein.

CR – O underground brasileiro vive um momento bastante produtivo, com inúmeras bandas lançando trabalhos de alto nível. Ao mesmo tempo, a visibilidade ainda representa um grande desafio. Como vocês enxergam o cenário atual? O que mudou desde o início da trajetória do Diabállein e quais obstáculos continuam praticamente os mesmos?
Jean Misfortune: O underground brasileiro sempre teve esses desafios, principalmente o de levar o público aos eventos. Muitos brasileiros, ainda com complexo de vira-lata, preferem se endividar para assistir a bandas do exterior, mas não tenho nada com isso; cada um faz suas escolhas. Em contrapartida, muitos eventos devem se profissionalizar para garantir às bandas e ao público uma experiência única. Nós mesmos já tocamos em lugares com estrutura e equipamentos de som péssimos, sem retorno algum, e amplificadores tão ruins que davam vontade de abandonar o palco. Sabendo desses grandes problemas que existem, nós do Diabállein não esperamos nada de ninguém.

CR – Depois de tantos anos de estrada, existe algum momento da trajetória do Diabállein que vocês consideram decisivo para a consolidação da banda? Alguma dificuldade?
Jean Misfortune: Temos apenas a vontade de persistir e não deixar que nada interfira em nossa banda. As dificuldades são bem-vindas nesse processo. Ter uma banda é saber que as coisas não serão fáceis; temos essa consciência. Prezamos muito pela liberdade de compor e produzir nossas canções, o que é sinônimo da vontade de prosseguir, de viver cada instante da vida sem ficar se queixando. Moramos em uma pequena cidade, longe das capitais. É o que temos para fazer. Todos têm seus respectivos trabalhos e não ganhamos nada no sentido econômico com o Diabállein; pelo contrário, colocamos dinheiro para fazer as coisas acontecerem. A sensação de terminar um álbum e tê-lo nas mãos é muito gratificante.

CR – A mudança de formação ou experiência específica que tenha redefinido a maneira de enxergar o projeto?
Jean Misfortune: Sempre encaramos isso como um desafio a ser superado. Na vida, as coisas não ocorrem como idealizamos, mas sempre levamos em consideração a superação como parte integral da banda, seja econômica, existencial ou de qualquer outra forma. Atualmente, estamos com uma formação bem comprometida, contando com o baixista Maicon Alastor e Olavo na guitarra, e essas mudanças nos trouxeram um novo tipo de firmamento.

CR – O Black Metal frequentemente desperta interpretações equivocadas por parte de quem observa o gênero apenas superficialmente. Na opinião de vocês, quais aspectos do estilo continuam sendo incompreendidos pelo público de fora da cena e que mereceriam uma reflexão mais profunda?
Jean Misfortune: Por mim, eles podem continuar interpretando errado, não fazemos o que fazemos esperando agradar às massas. A maioria das pessoas não consegue interpretar uma simples frase; o analfabetismo funcional impera no mundo. Mas posso deixar uma mensagem para eles: fiquem longe, somos uma ameaça à moral e às convenções sociais.

CR – Se vocês pudessem escolher apenas uma faixa de Anti Sacra para representar toda a essência do Diabállein, qual seria e por quê? O que essa composição possui que melhor sintetiza a identidade construída pela banda ao longo dos anos?
Jean Misfortune: Cada música tem sua importância, mas “Windows and Solitude”, a última faixa, expressa o perfil da banda ao encarar a solidão como uma oportunidade de crescimento, e não como um mal a ser evitado. Trata-se de um estado que leva o indivíduo a aceitar a vida em sua plenitude, sem a dependência de subterfúgios morais e sem pedir licença a um deus ou aos deuses; trata-se de apenas viver de acordo com os sentimentos que elevam o ser humano a um patamar mais importante, como senhor de sua própria criação. Além disso, essa música foi uma homenagem a um amigo que tocou na banda como baixista, encontrado morto em sua residência quatro dias após o seu falecimento.

CR – Após o lançamento de Anti Sacra, qual é o próximo capítulo da história do Diabállein? A banda pretende levar esse material para os palcos com maior intensidade, já existem novas composições em andamento ou o foco agora é permitir que o álbum siga seu próprio caminho junto ao público?
Jean Misfortune: Vamos levando na medida do possível. Não fazemos muitos shows, mas, sempre que possível, enviamos esse material para zines, revistas e canais sérios. Não posso mensurar o tamanho da obra “Anti Sacra” no momento; não tenho expectativas sobre essas coisas, pois isso causa ilusão. No entanto, tenho uma perspectiva forte quanto a mim e à banda. Todo esse tempo continuamos porque nos sentimos bem com o que fazemos. Criamos uma entidade e prosseguimos compondo novas canções no intuito de afirmar a tragicidade da vida. Agora, se o público vai gostar ou não, isso não está sob o nosso controle. Talvez um dia esse álbum se transforme em um clássico, então deixamos o álbum seguir seu fluxo natural.

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CR – Para encerrarmos, deixamos o espaço aberto para que o Diabállein envie uma mensagem aos leitores da Cangaço Rock, aos apreciadores do Metal Extremo e àqueles que continuam fortalecendo o underground através da música, dos zines, das produtoras independentes e da resistência cultural.
Jean Misfortune: Agradeço muito pela oportunidade que o Cangaço Rock nos concedeu. A mensagem que deixo é que sigam seu próprio caminho sem esperar agradar a ninguém; esse é um ato de resistência. Assumam o seu próprio egoísmo e continuem firmes e fortes. Obrigado.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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