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ENTREVISTA – Prophetic Age

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Crédito Foto: Wagner Caetano

Persistência, identidade e dedicação definem a trajetória do Prophetic Age. Em uma conversa exclusiva com o Cangaço Rock, a banda aborda o lançamento de Evolution’s Decay, relembra momentos marcantes da carreira e discute o presente e o futuro do Heavy Metal nacional.

CR – Trinta anos de atividade representam uma conquista que poucas bandas conseguem alcançar, especialmente dentro do underground. Quando vocês observam toda essa caminhada, quais momentos consideram decisivos para que o Prophetic Age permanecesse ativo e fiel à própria identidade, mesmo diante das constantes mudanças no cenário do Metal extremo?
Sferatu: Desde o início da banda carregamos uma proposta clara: construir um metal extremo sombrio, bem executado e genuíno, que transita livremente entre o black, o doom e o death metal sem se prender a fórmulas. Essa liberdade criativa sempre foi o nosso grande sustentáculo. Se temos que destacar momentos decisivos, o lançamento dos dois primeiros álbuns — “Prophetic Age” e “Forged in The Blackest of Metals” — nos anos 2000 foi fundamental para estabelecer nossa identidade na cena brasileira de metal extremo, mas também alguns fatos marcantes como termos sido a primeira banda de Metal Extremo a assinar um contrato com uma gravadora mainstream (Hellion Records), termos feito as aberturas do primeiro show do Behemoth no Brasil e também o primeiro show do Marduk no Brasil… além de muitas outras coisas que acabaram nos diferenciando lá no começo. O EP “Desolated Landscape”, em 2022, representou outro ponto de virada: foi o sinal de que o Prophetic Age, mesmo após um hiato, continua brutal, relevante e com muito a dizer. E agora, com “Evolution’s Decay”, sentimos que chegamos ao nosso momento mais maduro. A fidelidade à identidade sempre venceu as pressões externas — e acreditamos que o público percebe isso.

CR – Desde os primeiros registros da banda até Evolution’s Decay, é possível perceber uma evolução natural na forma de compor e desenvolver as atmosferas características do Prophetic Age. Ao revisitar a própria discografia, quais elementos vocês fazem questão de preservar até hoje e quais transformações surgiram de maneira espontânea com o passar dos anos?
Rheiss: A agressividade e as melodias marcantes sempre foram elementos intocáveis para nós. Desde o início, o Prophetic Age nunca abriu mão de compor com brutalidade real sem perder o senso melódico — essa tensão entre o caos e a estrutura é o que nos define. O que surgiu de forma natural ao longo dos anos foi o aprofundamento das atmosferas. Em “Evolution’s Decay”, por exemplo, a presença do teclado de Brahms Kermanns expande as camadas sonoras, uma característica antiga do Prophetic Age que foi aprimorada com o passar do tempo. Criando dimensões ambientais mais ricas sem abandonar o peso característico do nosso estilo. A composição continua sendo um trabalho coletivo do Prophetic Age, com as letras a cargo do Sferatu. Essa divisão sempre funcionou bem para nós: a música evolui organicamente entre todos os membros, enquanto as letras mantêm uma voz e uma visão de mundo coerentes de álbum para álbum.

CR – O Symphonic Black Metal sempre ofereceu inúmeras possibilidades de construção musical, mas também acabou sendo um estilo frequentemente associado a fórmulas repetitivas. Como vocês trabalham para que os elementos sinfônicos ampliem a atmosfera das composições sem que se tornem apenas um recurso estético ou um excesso de ornamentação?
Sferatu: Não gostamos muito da expressão Symphonic Black Metal… não achamos que esse rótulo deveria existir… Existem bandas de heavy metal com vocais rasgados (esse é o grupo que esperamos não estar) e existem bandas de black metal e metal extremo, (algumas delas são fundadoras do estilo) que fazem uso de teclado e de melodias complexas e mais elaboradas que são rotuladas dessa forma… É questão de opinião, mas a nossa é coerente… Você diria que Emperor, Bathory e Rotting Christ são bandas de Symphonic Black Metal? Provavelmente não… Não gostamos de melodias melosas, super virtuosas, líricas ou felizes… procuramos evitar isso a todo custo. O que nos guia é a atmosfera. As letras exploram temas como a decadência da civilização, o vazio cósmico, a escuridão como força equilibradora e o colapso inevitável da humanidade. Os elementos sinfônicos precisam dialogar com essa visão de mundo — quando fazem isso, ganham peso e significado. Quando não fazem, viram exatamente o tipo de excesso ornamental que mencionou.

CR – Evolution’s Decay transmite uma sensação de unidade muito forte, tanto musicalmente quanto em sua identidade visual e temática. Em que momento surgiu o conceito central do álbum? As músicas nasceram em torno dessa ideia ou o conceito foi sendo construído naturalmente durante o processo de composição?
Sferatu: O conceito de “Evolution’s Decay” foi se revelando ao longo do processo criativo, não surgiu como um plano fechado desde o início. À medida que as composições avançavam, as temáticas foram se conectando naturalmente. A faixa-título resume bem esse percurso conceitual: ela traça uma linha da humanidade primitiva, batendo tambores para o trovão, até a autodestruição moderna com fábricas, guerras e explosões nucleares. Essa ideia — de que o progresso humano é, na verdade, uma trajetória de decadência — acabou funcionando como fio condutor de todo o álbum. As outras faixas dialogam com esse núcleo de formas distintas: “Visitors” explora o colapso provocado por forças externas; “The Living Dead” usa os mortos-vivos como metáfora social; “Abomination” questiona a relevância humana diante do cosmos; “Dark End Storm” enaltece o metal extremo como manifestação artística e seu propósito. A unidade que o ouvinte percebe é real — ela emergiu naturalmente, o que, para nós, é sempre o melhor sinal de que o trabalho é genuíno.

CR – O disco apresenta uma dinâmica bastante equilibrada entre agressividade, passagens atmosféricas e momentos mais melódicos. Durante a produção, houve alguma preocupação em criar uma experiência de audição contínua, pensando o álbum como uma obra completa, ou cada faixa seguiu seu próprio caminho antes de formar esse conjunto?
Rheiss: Ambos os caminhos coexistiram. Cada faixa tem sua própria personalidade — “Doomsday Clock” abre o álbum em apenas 1 minuto e 5 segundos, funcionando quase como uma declaração de intenções antes da tempestade; “Ravenous” é brutalidade direta; “Dive Into Darkness” e “Abomination” exploram territórios mais atmosféricos, flertando com o Doom em alguns momentos. Cada uma seguiu sua lógica interna durante a composição. Ao mesmo tempo, quando o repertório foi consolidado, houve um cuidado claro com a sequência e o fluxo geral. A produção de Rogério Wecko — que assinou a engenharia de som, a mixagem e a masterização — foi decisiva para garantir que essas músicas, com personalidades tão distintas, formassem um conjunto coeso. O resultado é um álbum de 43 minutos e 25 segundos que funciona tanto como experiência contínua quanto faixa a faixa. Essa versatilidade reflete bem o que é o Prophetic Age hoje.

CR – Depois de tantos anos compondo e gravando, inevitavelmente cada integrante desenvolve uma maneira própria de enxergar o processo criativo. Como funciona atualmente a construção das músicas dentro do Prophetic Age? Existe um compositor principal ou o álbum é resultado de uma colaboração constante entre todos os membros?
Rheiss: “Evolution’s Decay” é inteiramente uma obra do Prophetic Age enquanto banda. Todas as músicas são compostas pelo grupo, todas as letras escritas por Sferatu. No final, o processo é colaborativo. Cada membro traz suas referências e perspectivas para a mesa, e as composições se constroem a partir desse diálogo. Sferatu, além de vocal, é o responsável por todas as letras, toca guitarra e compõe — o que cria uma consistência temática que perpassa todo o álbum. Todos os teclados são compostos por Brahms Kermanns. Usualmente Sferatu, Rheiss e Gregor constroem as bases rítmicas e melódicas, que depois são trabalhadas nos demais instrumentos, Miction Mastemas nas baterias e Brahms Kermanns nos teclados. Isso nos faz entender que as composições são de todos em conjunto. As ideias centrais trazem um ponto de partida, mas o todo só é possível quando cada um traz a sua parte. Isso expande e articula o resultado final. Não há um único compositor que dita as regras. O Prophetic Age sempre funcionou como um organismo coletivo, e é exatamente isso que garante que o álbum soe como uma obra de uma banda e não como o projeto solo de alguém.

CR – Ao longo dessas três décadas, o underground passou por profundas transformações, desde a forma de gravar e distribuir música até a relação entre bandas e público. Na visão de vocês, quais mudanças fortaleceram a cena e quais acabaram afastando parte da essência que caracterizava o Metal extremo em seus anos de formação?
Sferatu: A democratização do acesso à gravação e à distribuição foi, sem dúvida, a maior transformação positiva. Hoje uma banda do underground brasileiro pode gravar um álbum com qualidade profissional — como fizemos com o Rogério Wecko no Dual Noise Studio — e distribuí-lo globalmente via plataformas digitais. Isso seria impensável nos anos 1990, quando o alcance dependia quase exclusivamente de fanzines, fitas K7 e redes de correspondência por carta. Por outro lado, o excesso de conteúdo criou um paradoxo: há mais música disponível do que qualquer pessoa poderia consumir em uma vida, o que torna mais difícil para bandas se destacarem dentro dessa imensidão de lançamentos. A atenção se fragmentou, e parte da liturgia do underground — a descoberta demorada, o investimento emocional no álbum físico — foi se diluindo. Porém, temos ciência de que muitas pessoas ainda valorizam o contato com um material físico, o que nos motivou a fechar com a UBL para esse lançamento em CD. O que preserva a essência, na nossa visão, são bandas que compõem por convicção, não por tendência. O underground sobrevive porque existe um público que ainda busca isso.

CR – Muitos grupos acabam revisitando o próprio passado quando alcançam datas simbólicas de carreira. Em nenhum momento Evolution’s Decay soa como um exercício de nostalgia. Essa foi uma decisão consciente desde o início? O Prophetic Age prefere olhar sempre para frente, mesmo carregando uma história tão consolidada?
Sferatu: Sempre fomos uma banda de vanguarda, mesmo no final dos anos 1990 queríamos ser disruptivos, é nossa essência. Então isso sempre foi uma decisão consciente. “Evolution’s Decay” é um álbum para o presente e o futuro — traz reflexões sobre o que a humanidade está construindo, ou melhor, destruindo. Trazer nostalgia para nossos trabalhos nunca foi uma intenção, salvo quando gravamos um ou outro cover, o que traz um propósito de homenagem, claro… Carregamos nossa história com orgulho: um dos pioneiros no black metal brasileiro, com uma discografia que inclui dois álbuns nos anos 2000 e o EP “Desolated Landscape” em 2022. Mas essa história é o alicerce, não o destino. Quando Sferatu escreve sobre a decadência da evolução ou sobre o colapso civilizatório, não há espaço para saudosismo — há urgência. O Prophetic Age sempre olhou para frente. Trinta anos de existência nos deram perspectiva, não paralisia. “Evolution’s Decay” soa como um álbum de banda no seu melhor momento justamente porque preferimos olhar pra frente e adicionar toda a maturidade que adquirimos nesses 30 anos.

CR – Observando toda a discografia da banda, existe algum álbum ou composição que vocês acreditam não ter recebido o reconhecimento que merecia na época de seu lançamento? Se pudessem reapresentar um trabalho antigo ao público de hoje, qual seria e por quê?
Rheiss: Cada lançamento teve seu papel e alcance em sua época e sempre alcançaram pontos além das nossas expectativas, então, não, não temos essa sensação. No lançamento do debut álbum em 2001 tivemos um alcance abrangente no cenário nacional, tendo resenhas em todas as principais revistas e zines da época, e o CD se esgotou muito rapidamente. Já no “Forged in the Blackest of Metals”, lançado pela Hellion, nos levou a outro patamar, sendo convidados a participar de programas de rádio e do incrível programa de TV Stay Heavy, além do convite para tocar com as bandas Marduk e Behemoth em suas primeiras passagens pelo Brasil. Um trabalho que podemos destacar para o público mais novo é a versão da música “Egypt”, do grande Dio — gravada em 2005 — que foi lançada como bônus no relançamento do debut álbum em versão CD duplo e que nunca disponibilizamos no streaming, então talvez esse seja nosso lançamento mais “exclusivo”, que talvez seja lançado nas plataformas digitais algum dia, mas não regravado.

CR – Trinta anos certamente representam um marco importante, mas também parecem abrir um novo capítulo na trajetória da banda. Depois de Evolution’s Decay, quais são os próximos objetivos do Prophetic Age? Podemos esperar novos lançamentos, apresentações ao vivo ou outras surpresas para dar continuidade a essa fase tão significativa da carreira?
Sferatu: Com certeza o público pode esperar por novos lançamentos. Possuímos muitas composições para trabalharmos em um futuro material. Mas, claro, que nesse momento nosso foco total está na divulgação do álbum “Evolution’s Decay” em sua versão física, digital e na realização de shows.

CR – As letras do Prophetic Age sempre caminharam lado a lado com a atmosfera criada pela música, transmitindo uma sensação de decadência, reflexão e obscuridade. Em Evolution’s Decay, quais temas ganharam maior destaque? Existe um conceito filosófico ou uma mensagem central que une as composições, ou cada faixa explora uma perspectiva própria dentro desse universo?
Sferatu: As letras de “Evolution’s Decay” constroem um panorama sombrio da existência humana. Há uma mensagem central que atravessa o álbum: a ideia de que o progresso da humanidade é, em sua essência, uma trajetória autodestrutiva, de que a humanidade se perdeu no caminho. Cada faixa explora uma perspectiva diferente dentro desse universo. “Evolution’s Decay” traça esse arco histórico da caverna ao colapso nuclear. “Visitors” inverte a fantasia do contato extraterrestre — os alienígenas chegam não como salvadores, mas como fim: “nossos sonhos de amigos de longe tornaram-se um pesadelo que não conseguimos vencer”. “The Living Dead” usa a metáfora do morto-vivo para descrever uma sociedade que “se alimentará de si mesma, apodrecerá enquanto vive, sem raciocínio ou bom senso”. “Abomination” coloca o ser humano diante do vazio cósmico e o confronta com sua própria insignificância. Faixas como “Ravenous”, “Dive Into Darkness” e “None of the Weak Will Stand” exploram o lado individual dessa equação — o fascínio pela escuridão como força legítima e o distanciamento radical de uma civilização percebida como fraca e ilusória. No conjunto, o álbum é uma reflexão filosófica sobre poder, decadência, cosmos e colapso — sem romantismo, sem consolação.

CR – Depois de trinta anos dedicados ao underground, o nome Prophetic Age atravessou diferentes gerações de ouvintes. Que legado vocês esperam deixar quando alguém descobrir a banda pela primeira vez, seja através dos primeiros lançamentos ou de Evolution’s Decay? E que conselho dariam às novas bandas que desejam construir uma trajetória longa sem abrir mão da própria identidade?
Sferatu: O legado que esperamos deixar é simples: a prova de que é possível fazer metal extremo genuíno, no Brasil, por décadas, sem abrir mão de nada. Sem concessões ao mercado, sem modas, sem fórmulas. Quem descobrir o Prophetic Age pelo debut dos anos 2000 ou por “Evolution’s Decay” vai perceber que é a mesma voz — mais madura, mais densa, mas reconhecidamente a mesma. Fomos pioneiros no black metal brasileiro e continuamos aqui, não por inércia, mas por convicção e atitude. Isso, acreditamos, fala por si. Para as novas bandas, o conselho é brutal na sua simplicidade: saibam por que estão fazendo isso. Se a resposta for “para ter sucesso” ou “para agradar o público”, a identidade vai se perder no primeiro obstáculo. Se a resposta for “porque não consigo não fazer”, então vocês têm a matéria-prima certa. E trabalhe duro, sempre, seja melhor hoje do que ontem no que você está fazendo… O retorno em qualquer coisa que você possa fazer na vida só vem com trabalho duro e incansável, persistência e insistência. A arte recompensa a autenticidade — talvez não com rapidez, mas recompensa. Trinta anos de Prophetic Age são a prova disso.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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