O Dimmu Borgir voltou. E voltou pesado. Oito anos depois de Eonian, Grand Serpent Rising chega sem pedir licença e encontra uma banda ainda disposta a trabalhar o black metal em escala monumental. Formado na Noruega em 1993 por Silenoz e Shagrath, o grupo atravessou diferentes fases do gênero sem abandonar a combinação entre agressividade, atmosfera sombria e grandiosidade sinfônica que se tornou sua assinatura. Aqui, essa identidade aparece novamente, mas com uma abordagem menos carregada de camadas do que em trabalhos anteriores. O disco reúne 13 faixas e cerca de 69 minutos, construindo uma sequência que alterna violência, melodias soturnas, teclados, passagens orquestrais e momentos de maior contenção. Tridentium funciona como uma abertura cinematográfica, preparando o terreno para Ascent, que entra rasgando com guitarras afiadas, bateria veloz e vocais de Shagrath em primeiro plano. A música tem aquela combinação característica de velocidade e dramaticidade, mas não soa como simples repetição de uma fórmula conhecida. O trabalho de Silenoz nas guitarras é particularmente importante nesse início, criando riffs que sustentam tanto a brutalidade quanto os momentos melódicos.
Aqui, o negócio começa a ficar mais interessante. Nas faixas seguintes, o álbum encontra diferentes maneiras de trabalhar sua atmosfera sem transformar tudo em uma massa homogênea. As Seen in the Unseen expande a dimensão atmosférica, utilizando os teclados e as camadas sinfônicas para criar uma sensação de amplitude sem engolir as guitarras. The Qryptfarer trabalha melhor as mudanças de andamento, começando de maneira mais envolvente antes de abrir espaço para riffs mais agressivos e detalhes de teclado que ajudam a quebrar a estrutura convencional. Já Ulvgjeld & Blodsodel ganha força justamente pela presença do norueguês, recuperando uma dimensão mais ligada às raízes da banda, enquanto o instrumental combina peso, melodia e uma atmosfera quase ritualística. Repository of Divine Transmutation é uma das composições mais densas do conjunto, com duração suficiente para desenvolver suas ideias sem depender exclusivamente da velocidade. Na bateria, Daray conduz as faixas com precisão e força, alternando ataques rápidos, viradas e momentos de maior sustentação, enquanto Victor Brandt mantém uma base grave que ajuda a dar corpo às guitarras. Em Slik Minnes en Alkymist, novamente em norueguês, o álbum assume uma postura mais introspectiva, permitindo que a atmosfera tenha tanto peso quanto a própria agressividade.
Chegando à segunda metade, o disco não perde a mão. Grand Serpent Rising não depende apenas de velocidade ou de uma produção gigantesca para sustentar seu peso. Phantom of the Nemesis possui uma atmosfera particularmente sombria, com teclados criando um clima quase de trilha de filme de horror antes de a guitarra assumir o controle. The Exonerated volta a acelerar o passo e coloca Daray em evidência, com uma bateria que empurra a composição para frente enquanto Shagrath mantém os vocais ásperos e ameaçadores. Recognizant segue por uma linha igualmente pesada, mas encontra espaço para melodias e mudanças que impedem a faixa de se tornar previsível. At the Precipice of Convergence é mais compacta e funciona como uma passagem de tensão antes de Shadows of a Thousand Perceptions, uma das peças em que a dimensão sinfônica aparece de maneira mais expressiva. O encerramento com Gjǫll retoma a atmosfera instrumental de abertura e fecha o álbum com uma sensação cinematográfica, como se todo o percurso retornasse ao ponto de partida. O mérito está justamente nessa organização: mesmo com treze faixas e quase uma hora e dez minutos, existe uma preocupação clara com dinâmica, transição e contraste.
No som, a coisa também merece atenção. Por trás desse resultado está uma produção que procura equilibrar grandiosidade e organicidade. As gravações, mixagem e masterização foram realizadas no Studio Fredman, em Gotemburgo, com Fredrik Nordström responsável por esse trabalho, enquanto a pré-produção se estendeu desde 2018. A presença da Bratislava Symphony Orchestra em Tridentium, As Seen in the Unseen e Ulvgjeld & Blodsodel, além dos coros registrados em Oslo, acrescenta dimensão ao disco sem transformar cada segundo em uma parede orquestral. Essa escolha faz diferença: quando os elementos sinfônicos entram, eles realmente têm função dentro do arranjo. Gerlioz também participa das construções orquestrais, enquanto Silenoz e Shagrath permanecem como figuras centrais do processo criativo. A saída de Galder em 2024 modificou a formação e aproximou novamente a composição do núcleo formado pelos dois fundadores, mas o resultado não soa como trabalho de duas pessoas isoladas. Damage, Victor, Gerlioz e Daray ajudam a transformar essas ideias em uma banda funcionando como unidade. A arte de Adrian Baxter, com design e fotografia de Bartek Rogalewicz, acompanha o conceito da serpente e da transformação, reforçando estética dos temas de transmutação, conhecimento, renovação e abandono do velho eu.
No final das contas, Grand Serpent Rising sabe exatamente o que quer ser. Não é um exercício de nostalgia e também não tenta apagar a trajetória construída pelo Dimmu Borgir. Há velocidade, escuridão, teclados, guitarras cortantes, vocais agressivos e aquela grandiosidade que acompanha a banda há décadas, mas existe também uma preocupação maior em deixar cada elemento respirar. Tridentium abre a porta, Ascent coloca fogo no recinto, As Seen in the Unseen, The Qryptfarer e Ulvgjeld & Blodsodel ampliam a narrativa, enquanto Repository of Divine Transmutation e Slik Minnes en Alkymist aprofundam o caráter ritualístico. Depois, Phantom of the Nemesis, The Exonerated, Recognizant, At the Precipice of Convergence, Shadows of a Thousand Perceptions e Gjǫll conduzem o ouvinte até o encerramento sem perder a identidade. É um trabalho feito para quem ainda entende o álbum como uma experiência completa, com começo, desenvolvimento e desfecho. O Dimmu Borgir retorna depois de um silêncio considerável, mas não parece uma banda tentando provar alguma coisa. Parece uma banda que conhece suas ferramentas, sabe quando atacar e quando deixar a atmosfera falar. No fim, a serpente troca de pele, mas continua venenosa. Adquira sua cópia aqui: https://bit.ly/3PtDpid.
Tracklist:
1. Tridentium
2. Ascent
3. The Qryptfarer
4. As Seen in the Unseen
5. Ulvgjeld & blodsodel
6. Repository of Divine Transmutation
7. Slik minnes en alkymist
8. Phantom of the Nemesis
9. The Exonerated
10. Recognizant
11. At the Precipice of Convergence
12. Shadows of a Thousand Perceptions
13. Gjoll
Line-up:
Shagrath – vocal
Silenoz – guitarra
Damage – guitarra
Victor – baixo
Gerlioz – teclados
Daray – bateria
Gravadora: Shinigami Record/Nuclear Blast Records









