O Sanctifier retorna às profundezas do death metal brasileiro com Hazred, quarto álbum de estúdio de uma trajetória iniciada em Natal, no Rio Grande do Norte, ainda no final dos anos 1980. Lançado em 16 de agosto de 2026, o disco chega oito anos depois de Lone Wolf Syndicate (2018), trazendo uma nova formação e retomando o horror cósmico como elemento central de sua identidade. A temática inspirada no universo de H. P. Lovecraft percorre as dez faixas, entre entidades ancestrais, forças ocultas e o desespero diante de uma realidade que ultrapassa a compreensão humana. O título remete a Abdul Alhazred, figura associada aos conhecimentos proibidos desse imaginário, enquanto Cthulhu surge como presença simbólica que conecta a abertura ao encerramento. Não se trata apenas de recorrer a referências macabras para ornamentar o repertório: a proposta estabelece uma atmosfera de obscuridade que dialoga diretamente com a brutalidade do death metal, preservando o vínculo da banda com uma estética construída ao longo de décadas no underground nacional.
O disco começa com “Intro – Cthulhu Awakening”, introdução que prepara o terreno para a violência de “Invoked from the Abyss”, faixa que assume a responsabilidade de estabelecer o peso e a agressividade do álbum. A sequência conduz a audição para um ambiente de riffs sombrios, ataques rítmicos e vocais guturais, características fundamentais para sustentar a identidade extrema do Sanctifier. Em “Obscurus Spiritus”, a atmosfera ritualística sugerida pelo título reforça o caráter ocultista do repertório, enquanto “Echoes in Darkness” mantém a ambientação ameaçadora e a sensação de que algo permanece à espreita nas sombras. As composições não dependem exclusivamente da velocidade para construir impacto: a articulação entre guitarras, baixo e bateria é essencial para conferir densidade ao conjunto. Essa combinação permite que o disco transite entre a urgência característica do gênero e passagens em que a própria sensação de peso ganha protagonismo, sem abandonar a aspereza que acompanha a proposta da banda.
Em “Cosmic Abyss”, o conceito do horror cósmico encontra uma de suas expressões mais evidentes, evocando a insignificância humana diante de forças incompreensíveis. O trabalho das guitarras ocupa posição central nessa construção, com riffs que precisam sustentar tanto a agressividade quanto o ambiente sombrio pretendido pela composição. “Rats and Wolves” desloca a atenção para imagens de ameaça e brutalidade mais terrenas, mantendo o repertório dentro de uma perspectiva hostil, enquanto “Clamor” apresenta um título que sugere tensão, conflito e uma espécie de chamado em meio ao caos. Nesse percurso, a bateria assume importância decisiva para a sustentação dos ataques, estabelecendo a dinâmica que mantém as músicas em movimento, ao passo que o baixo contribui para a fundação grave do conjunto. O resultado pretendido é uma sonoridade que privilegia a força coletiva dos instrumentos, sem transformar a execução em mero exercício de velocidade. As faixas integram uma sequência temática coerente, na qual cada título amplia o universo sombrio de Hazred sem romper a unidade conceitual do trabalho.
“ They Come from Above” amplia a dimensão ameaçadora do álbum e se destaca, pela duração de 4 minutos e 52 segundos, como uma das composições mais extensas do repertório. A ideia de uma presença que desce de regiões desconhecidas combina com a perspectiva cósmica que atravessa o disco, enquanto “Hazred”, com 5 minutos e 18 segundos, ocupa o centro narrativo e funciona como ponto de convergência entre as referências literárias e a identidade musical do lançamento. É nesse momento que a figura do árabe louco, associada aos conhecimentos proibidos e ao universo lovecraftiano, assume maior relevância dentro da proposta. A faixa-título tem espaço para desenvolver essa ambientação com maior amplitude, sem que a violência instrumental deixe de ser o eixo da experiência. O encerramento, “Outro – Cthulhu’s Sleep”, recupera a referência apresentada na abertura e fecha o percurso com uma estrutura conceitual circular: o despertar anunciado no início encontra seu contraponto no sono da entidade ao final. Essa escolha dá ao álbum uma conclusão alinhada à sua temática, sugerindo que o horror não foi eliminado, mas apenas voltou a repousar, à espera de um novo despertar.
Na produção, as guitarras e a bateria foram captadas por Flávio H. França no Studio Black Hole, enquanto os vocais foram registrados no home studio de Dennys Bodex e o baixo em gravação assinada por Bruno Arted. Nicolas Gomes ficou responsável pela mixagem, etapa fundamental para equilibrar a massa sonora dos instrumentos e preservar a definição necessária em um estilo tão carregado. A masterização, entretanto, não está identificada nas informações disponibilizadas, o que impede atribuir essa função a um profissional específico. A identidade visual também merece atenção: Alcides Burn assina a capa e o layout, enquanto Jeff Souza contribui com artes adicionais para o encarte, ampliando a relação entre o imaginário gráfico e a narrativa do álbum. Com edição física pela Blasphemy Productions, Hazred reafirma a disposição do Sanctifier de manter vivo seu vínculo com o death metal extremo e com o universo ocultista que acompanha sua história. O disco representa um novo capítulo para uma banda veterana, agora diante do desafio de conciliar a herança construída desde o underground potiguar com uma formação renovada. Entre abismos, entidades ancestrais e conhecimentos proibidos, o Sanctifier entrega um trabalho cuja força está na unidade temática e na persistência de uma identidade sombria, reafirmando que certas criaturas não precisam permanecer despertas para continuar assombrando quem ousa invocar seus nomes.
Tracklist:
1. Intro – Cthulhu Awakening
2. Invoked from the Abyss
3. Obscurus Spiritus
4. Echoes in Darkness
5. Cosmic Abyss
6. Rats and Wolves
7. Clamor
8. They Come from Above
9. Hazred
10. Outro – Cthulhu’s Sleep
Line-up:
Alexandre Emerson – Guitarras.
Jefson Souza – Vocais.
Marcelo Costa – Bateria.
Jorge Ferreira – Baixo.
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