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Sangue de Bode – O Funeral de Tudo (2026)

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O Sangue de Bode transforma O Funeral de Tudo, lançado em 15 de abril de 2026, em um ritual de decomposição sonora, miséria humana e profanação existencial. Vindo do underground carioca, o quarteto constrói sua identidade entre o black metal, o death metal, o thrash e o grindcore, reunindo velocidade, dissonância e uma atmosfera de podridão que atravessa as oito faixas. “Quase Fantasma” abre o trabalho com a aspereza necessária para anunciar esse cenário de ruínas, enquanto “Máxima Miséria” intensifica o ataque com riffs cortantes, bateria violenta e vocais que parecem emergir de uma garganta tomada pelo ódio. A produção não procura esconder as arestas: a sujeira faz parte da experiência, e a brutalidade ganha força justamente por não se submeter a qualquer tentativa de embelezamento. Em “O Mundo Acabou e o Novo Mundo Também”, o título sintetiza a visão desoladora que percorre o disco, destruindo até mesmo a esperança de reconstrução depois do fim. As guitarras alternam investidas agressivas e passagens mais densas, enquanto a bateria de Sinuê conduz a composição por uma espiral de tensão. O Sangue de Bode não oferece redenção, consolo ou promessas de renascimento. Aqui, o apocalipse não representa uma passagem: é a condenação de tudo aquilo que ainda insistia em permanecer de pé.

“Ele Era Tão Bom…” carrega a ironia venenosa de seu título, transformando a aparência de virtude em matéria para uma abordagem musical ríspida e perturbadora. Na sequência, “Massacres” despeja sua violência com riffs secos, ritmo contundente e uma execução que privilegia o impacto imediato. Não há espaço para adornos desnecessários: cada instrumento participa da construção de uma sonoridade que parece triturar qualquer resquício de humanidade. Em “Atento ao Sussurro”, o clima assume contornos ainda mais ameaçadores, explorando a tensão entre explosões de agressividade e passagens pesadas que mantêm a sensação de perigo iminente. Nekrose acrescenta aspereza às guitarras, enquanto Verme alterna vociferações e ataques vocais que reforçam o caráter hostil das composições. O baixo de Zé sustenta a massa sonora, conferindo densidade às estruturas, e a bateria de Sinuê funciona como uma máquina de demolição, articulando velocidade e mudanças de andamento sem diluir a brutalidade. “Pus e Vômito” leva a estética da repulsa ao primeiro plano, com uma abordagem que faz da decomposição uma imagem sonora. O título dispensa delicadezas, e a música acompanha essa proposta com uma atmosfera corrosiva, na qual a agressividade instrumental parece escavar as entranhas de um mundo apodrecido.

“Clube Velho” encerra o repertório sem oferecer qualquer espécie de purificação. A composição carrega uma sensação amarga de ruptura, hostilidade e esgotamento, funcionando como a última pá de terra sobre um cadáver que já não desperta piedade. Ao longo das oito faixas, o álbum evita a repetição mecânica porque alterna diferentes intensidades e atmosferas, preservando a unidade sem transformar a violência em fórmula previsível. Verme, nos vocais e na guitarra, conduz o ataque com uma interpretação visceral; Nekrose amplia a tensão com riffs agressivos; Zé mantém a sustentação grave do conjunto; e Sinuê despeja uma performance percussiva que reforça tanto os momentos de velocidade quanto os trechos mais arrastados. Gravado no Espaço Sobrado, em Botafogo, e nos Estúdios Papi, na Tijuca, no Rio de Janeiro, o disco teve captação de Lucas “Alien” Campello, produção de Verme, Alien e Carol Lippi, coprodução de Sinuê e da banda, além de mixagem e masterização assinadas por Carol Lippi. A proposta sonora favorece a crueza e o peso, preservando a identidade extrema do grupo. A capa, assinada por Desenhos Malditos, e o layout desenvolvido por Verme e Sinuê integram a apresentação visual dessa obra de caráter fúnebre, alinhada à atmosfera de ruína sugerida pelo título. Com uma trajetória que inclui A Sombra que me Acompanhava era a Mesma do Diabo (2020), Seja Bem-Vindo de Volta pra Cruz (2021) e Eu Sou a Derrota (2024), o Sangue de Bode chega a O Funeral de Tudo reafirmando sua disposição de confrontar o ouvinte sem anestesia. O resultado é um disco de metal extremo sujo, blasfemo e sufocante, no qual a morte não surge como metáfora distante, mas como presença que contamina cada acorde. Não há salvação no horizonte, apenas ruínas, carne putrefata e o silêncio que resta quando até as esperanças foram enterradas. O funeral acabou. O que permanece é o fedor.

Tracklist:
1. Quase Fantasma
2. Máxima Miséria
3. O Mundo Acabou e o Novo Mundo Também
4. Ele Era Tão Bom…
5. Massacres
6. Atento ao Sussurro
7. Pus e Vômito
8. Clube Velho

Line-up:
Verme – Vocal e Guitarra.
Sinuê – Bateria.
Nekrose – Guitarra.
Zé – Baixo.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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