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Blasfemador – Malleus Maleficarum (2026)

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Formado em Fortaleza/CE em 2008, o Blasfemador construiu sua trajetória no underground brasileiro apostando em uma mistura venenosa de speed metal, thrash e horror, sempre mantendo uma postura visceral e distante de qualquer preocupação em suavizar sua proposta. Depois de demos, EPs e dos álbuns Cosmofobia e Ódio, Caos e Distorção, a banda chega ao terceiro trabalho de estúdio, Malleus Maleficarum, mostrando que a passagem dos anos não diminuiu sua disposição para transformar riffs velozes em combustível para o caos. A formação com Fabrício Maleficarum nos vocais, Igor Shredd nas guitarras, Augusto Índio no baixo e Romário Bruxo na bateria funciona com bastante entrosamento, e já na curta “Intro” fica estabelecido o clima sombrio que prepara o terreno para a faixa-título. “Malleus Maleficarum” entra como uma avalanche de guitarras rápidas, bateria furiosa e vocais carregados de insanidade, utilizando a temática do obscurantismo e da perseguição religiosa como matéria-prima para uma composição que resume bem a proposta do disco.

“Lilith mantém o ambiente macabro e mergulha ainda mais no imaginário ocultista, enquanto “O Peso da Sobrevivência” apresenta uma das facetas mais interessantes do álbum ao abandonar parcialmente o horror fantástico para encarar questões muito mais concretas. A faixa transforma peso, indignação e velocidade em uma composição que cresce através dos riffs de Igor Shredd, com a cozinha segurando tudo no lugar enquanto Romário Bruxo despeja uma bateria rápida e precisa. “A Motosierra” retorna ao território do horror e da violência, criando uma sensação quase cinematográfica de perseguição, e “Satanic Rock N’ Roll” coloca o pé ainda mais fundo na lama do rock pesado, com uma energia debochada, suja e contagiante. Já “A Villa de Vecchi” explora novamente a atmosfera sobrenatural, funcionando muito bem dentro da sequência do álbum, enquanto “A Configuração do Lamento” fecha o ataque mantendo a guitarra como elemento dominante. As músicas não procuram reinventar o estilo, e talvez justamente aí esteja uma de suas maiores virtudes: o Blasfemador conhece sua linguagem e a utiliza sem rodeios.

É no instrumental que Malleus Maleficarum revela boa parte de sua personalidade, com guitarras afiadas, baixo pulsante e uma bateria que conduz tudo com velocidade e precisão. Igor Shredd é responsável por boa parte da identidade sonora através de riffs que alternam velocidade, agressividade e pequenas mudanças de direção, além de solos que surgem sem transformar o álbum em uma demonstração técnica. Augusto Índio mantém o peso necessário na região grave, trabalhando junto da bateria de Romário Bruxo, que conduz as faixas com velocidade e energia sem deixar o repertório virar simplesmente uma sequência indistinta de pancadas. Fabrício Maleficarum, por sua vez, assume os vocais com uma interpretação áspera e agressiva, perfeitamente encaixada na estética do disco. Há uma sensação de urgência que percorre praticamente todo o trabalho, e isso faz com que as músicas sejam percebidas mais pelo impacto do que por qualquer excesso de ornamentação. O resultado é um som que preserva aquela sensação de underground verdadeiro, onde a imperfeição controlada também faz parte da personalidade. Malleus Maleficarum não parece interessado em ser bonito — quer ser intenso, e consegue.

A produção acompanha essa filosofia. Gravado por Vicente Ferreira e com mixagem e masterização de Victor Prospero, o álbum mantém uma sonoridade suficientemente definida para permitir que guitarra, baixo, bateria e voz tenham presença, mas sem eliminar completamente a aspereza que combina com a proposta do Blasfemador. São oito faixas distribuídas em pouco menos de meia hora, uma duração bastante acertada para um trabalho que aposta na velocidade: o disco chega, atropela e termina antes que a fórmula tenha tempo de cansar. A capa assinada por Emerson Maia segue o mesmo caminho das músicas, apresentando uma estética sombria e brutal que conversa diretamente com o título e com o imaginário profano desenvolvido pela banda. O lançamento físico também ganha destaque dentro da proposta do álbum. A edição em CD, apresentada em formato especial para colecionadores, chega através da união de Impaled Records, Jazigo Distro, Distro Rock, Underground Produções e Mundo Bizarro Distro, enquanto o vinil surge a partir da parceria entre Mutilation Records, Misanthropic Records, Jazigo Distro, Distro Rock e Underground Produções. Mais do que simplesmente disponibilizar o álbum em diferentes formatos, essa movimentação reforça a força do trabalho dentro do underground e mantém viva aquela relação especial entre o metal extremo e o disco físico, onde a música também ganha forma através da arte, do acabamento e do próprio ato de ter o álbum nas mãos.

Malleus Maleficarum não é um disco que precisa de grandes explicações para funcionar. Ele foi feito para tocar alto, para fazer a guitarra cortar, a bateria acelerar e o vocal rasgar o ambiente. Entre o horror de “Lilith”, a pancada de “O Peso da Sobrevivência”, a insanidade de “A Motosierra”, a atitude de “Satanic Rock N’ Roll” e o clima sinistro de “A Villa de Vecchi”, o Blasfemador entrega um trabalho coeso, direto e fiel à própria história. Talvez seu maior mérito esteja justamente em não tentar parecer outra coisa: é metal de underground, feito com convicção, velocidade e uma identidade visual e sonora que caminham juntas. Malleus Maleficarum mostra uma banda ainda disposta a levantar poeira e transformar horror em riffs. O martelo está pesado, a distorção está ligada e o ataque continua.

Tracklist:
1. Intro
2. Malleus Maleficarum
3. Lilith
4. O peso da sobrevivência
5. A motosierra
6. Satanic Rock n’Roll
7. A villa de vecchi
8. A configuração do lamento

Line-up:
Augusto Índio — Baixo.
Fabrício Maleficarum — Vocais.
Romário Bruxo — Bateria
Igor Shredd — Guitarra.

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Cristiano Borges é historiador formado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), pesquisador da cena underground e editor da revista Cangaço Rock. Autor de diversos fanzines e publicações voltadas à música extrema, teve o estudo “Ratos de Porão e o disco Brasil: ‘ame-o ou deixe-o’ ou o passado presente” publicado no livro Música Extrema: Ruídos, Imagens e Sentidos (2022). Atualmente, dedica-se à pesquisa da cena underground brasileira e internacional, com foco em suas dimensões históricas, culturais e sociais.

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